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A Revolução não foi televisionada e isso não fez a menor diferença

A tentativa de golpe na Turquia mostrou algo novo: pela primeira vez uma revolução, que tradicionalmente nunca é televisionada, não precisou da grande mídia. Enquanto os golpistas fechavam as emissoras de TV, a internet via tudo ao vivo e a cores.

4 anos atrás

facebook

Na Turquia levaram a sério a frase “Revolução sexta-feira se não chover”. Uma facção das forças armadas, insatisfeitos com o projeto de islamização da Turquia e principalmente com os militares feitos pelo presidente Erdoğan, resolveu botar os tanques na rua.

Não chega a ser novidade, golpe militar na Turquia é algo tão comum que é uma categoria na Wikipedia. Palácio Presidencial foi bombardeado, tropas fecharam passagens estratégias como as pontes do Bósforo, foi um golpe by the book:

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O problema é que o livro é velho. Assim como os golpistas. Uma das primeiras atitudes foi enviar tropas para tomar controle das estações de TV e rádio, o que faria sentido em 1970. O controle da informação simplesmente não é mais possível: o próprio Erdoğan vive tentando fazer isso na Turquia e não dá certo.

A CNN foi tirada do ar, soldados invadiram o estúdio. Como ficamos sabendo disso? Funcionários da CNN na Turquia transmitiram a invasão ao vivo, via Facebook Live:


Videos shows soldiers clear out CNN Turk

Há relatos de que a internet estava mais lenta, mas no geral a quantidade de tweets, vídeos e imagens era imensa, incluindo coisa que os rebeldes não gostariam que alguém vise, como um Cobra atirando em alvos em terra, próximos a uma multidão:

Um velho slogan cyberpunk dizia Informação exige ser livre!. Na Síria mesmo quando o Assad bloqueava totalmente a internet, os rebeldes contrabandeavam cartões de memória, ironicamente para a Turquia, onde eram enviados para o YouTube por simpatizantes.

Em Cuba havia toda uma rede subterrânea de troca de pendrives, onde viajantes traziam livros e filmes proibidos pelo regime comunista de Havana, e levavam de volta textos de militantes como Yoani Sanchez.

Na Turquia era inviável cortar totalmente a internet, esse tipo de blecaute de infraestrutura compromete todos os lados. É como cortar eletricidade, tente manter uma base militar só com geradores. As medidas para dificultar o acesso online não funcionaram. Bloqueios de DNS foram contornados usando o DNS do Google, bloqueios de rotas foram resolvidos com uso de VPNs e do Tor.

As maiores ferramentas foram o Periscope e o Facebook Live. Esse foi assustador, um 1984 ao contrário. Viu o mapa na abertura deste texto? Cada ponto era uma pessoa em algum ponto da Turquia, transmitindo vídeo ao vivo direto do celular. Pro mundo inteiro!

As notícias oficiais falavam de ruas vazias, os vídeos mostravam ruas cheias. Caças passavam nas telas, pessoas mostravam tanques da janelas. História, acontecendo, ao vivo e a cores, e sem ser na Globo. Bial fez certo em ir pro Big Brother, ele não é mais necessário para nos dizer o que está acontecendo.

Não que isso seja a morte do jornalismo: ele continuará sendo importante para dar as respostas longas e complexas, as análises inteligentes e pensadas. O Grande Jornalista não é mais aquele que mostra o tanque na rua primeiro, é o que explica depois porque ele estava lá.

O Facebook Live pode ser acessado em http://facebook.com/live: é uma verdadeira janela para o mundo, algo impensável 20 anos atrás. É o futuro, e como todo futuro, um pouco assustador.

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