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Rolls Royce teve a péssima idéia de criar navios-robôs 100% autônomos

A Rolls Royce está pensando em um futuro incrível: navios 100% automatizados controlados por uma central futurista direto de Star Trek. O problema: esse sonho molhado de designers não funciona quando a coisa fica molhada de verdade.

4 anos atrás

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A proposta é ousada e tem bastante gente pensando nela: nada menos que automatizar 100% a operação de embarcações de grande porte. Rolou até um evento em Amsterdã, o Simpósio de Tecnologia de Navios Autônomos, e um dos papers apresentados foi o Remote & Autonomous Ships — The next steps, da Rolls Royce, que pode ser baixado daqui.

O conceito é criar um centro de controle onde todo gerenciamento, navegação e logística do navio ficaria a cargo de um mínimo de operadores, e muita inteligência artificial. Lembra do Superman 3, quando o Richard Pryor comanda todos os petroleiros do mundo pra se juntarem no meio do Atlântico, e como não existe rádio, satélite nem bom-senso todo mundo obedeceu? É mais ou menos isso.

Não que a idéia de 100% de automação seja desinteressante. Até aqui há linhas de trem em São Paulo que andam sem maquinista, e drones como o Global Hawk atravessam o oceano por conta própria, mas há uma ENORME diferença entre isso e o vídeo conceitual feito pela Rolls Royce, que é bem legal e há que se admirar os designers que conseguiram escrever o roteira só com u'a mão, enquanto se masturbavam furiosamente pensando em suas idéias geniais:


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Existem coisas que funcionam bem automatizadas, outras não. Curiosamente o próprio vídeo demonstra isso, sem perceber. Primeiro a antena dá defeito e o sujeito tem que mandar drones pra inspecionar, e depois ativa uma antena de backup, ao invés de consertar a defeituosa.

Depois, o sujeito diagnostica um defeito no motor só usando o ouvido (cabra bom!) e presume que é um sensor defeituoso, recomenda seguir assim mesmo até o porto. Se fosse um navio com tripulação de verdade, mandavam um grumete rastejar atrás do motor, dar uns tapas no sensor e ver se era isso mesmo.

Do jeito que foi feito o “especialista” está literalmente arriscando dezenas de milhões de dólares com base em 5 segundos de áudio transmitido do outro lado do mundo. É pra ISSO que você tem tripulação nos navios, caramba.

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Não é a ponte da Enterprise da nova série, é a central de controle de navios da Rolls Royce.

O que os designers E futuristas de plantão não entendem é que máquinas quebram. Quanto mais complexa, mais chance de dar defeito. Motores navais trabalham por semanas sem parar, precisam de manutenção constante, automatizar isso é impossível, pois você nunca sabe o que vai quebrar em seguida.

Veja o virabrequim de um motor naval. Acha MESMO que dá pra algo desse tamanho funcionar sem manutenção ou supervisão humana?

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Um cargueiro de bom tamanho tem tripulação em média de 25 marinheiros, vários dedicados a lubrificar o maquinário. Somente designers e burocratas podem achar que não há nada para fazer em um navio, por mais automatizado que seja.

O USS Spruance era um destróier típico dos Anos 80, tinha tripulação de 19 oficiais e 315 praças, e um deslocamento de 8.000 toneladas. A Marinha dos EUA decidiu que deveria investir em tecnologia, automação, computadores, e se saiu com esta coisa de ficção científica aqui:

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É o USS Zumwalt, vai ser comissionado agora em outubro, 14 mil toneladas de pura tecnologia, mas mesmo ele precisa de 142 tripulantes. Sempre há uma carga pra apertar as amarras, sempre há uma parede com sinal de corrosão pra pintar com Zarcão, sempre há porcas prendendo estruturas sujeitas a vibração que VÃO se afrouxar com o tempo.

Em resumo: a ficção científica é ótima mas só propõe automatizar 100% quem nunca esteve em um navio ou se esteve não chegou nem perto daquelas quebradas onde o Jack carcou a Rose.

Fonte: Rolls Royce.

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