Então, sobre o tal adolescente que achou uma cidade maia…

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Semana passada John Oliver dedicou a maior parte de seu programa para falar de como a mídia é irresponsável na divulgação de notícias científicas. Esse caso do tal garoto canadense que “descobriu” uma cidade maia perdida é um exemplo quase didático dessa irresponsabilidade.

Um MONTE de sites replicou a notícia. Convenhamos, tem tudo que o povo gosta. Tem os misteriosos maias, que embora não tenham trazido o apocalipse ainda são basicamente extraterrestres cheios de segredos. Tem underdog, um garoto que surpreendeu toda a comunidade científica, tem uma explicação simples o bastante para o povão entender, ele associou constelações com cidades

Tem até a Agência Espacial Canadense, que forneceu as imagens para o garoto comprovar a descoberta.

Ninguém está negando o interesse do garoto por arqueologia, o entusiasmo dele é louvável e se aprender com as lições deste caso, vai contribuir muito para o campo no futuro, mas a mídia fez muito mal a ele hoje.

A imprensa não fez as perguntas corretas, na verdade não fez pergunta nenhuma, apenas repetiu as informações dos press releases, que foram essencialmente escritos pela Agência Espacial, não exatamente experts em arqueologia, ou em maias.

David Stuart, um antropólogo do Centro Meso-americano da Universidade do Texas colocou água no chopp do garoto e da mídia ufanista. Depois outros especialistas, que nunca foram consultados pela imprensa explicaram que não é bem assim.

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As tais construções claramente artificiais que o garoto diz ser parte da cidade perdida são realmente artificiais. São Milpas, um tipo de milharal cultivado na selva por algumas safras, depois abandonado. O identificado na imagem do garoto parece ter sido abandonado por uns 10 ou 15 anos.

A idéia de que os maias posicionavam suas cidades com base em constelações é atraente, e os maias eram excelentes astrônomos, mas há um problema: pouquíssimas constelações maias são conhecidas, o garoto diz que estudou mapas astronômicos e tentou achar padrões. Com quantidade suficiente de estrelas você acha padrões à vontade.

O garoto provavelmente tentou centenas de padrões sem achar nada na selva, até que em uma das tentativas achou a Milpa. Viés de confirmação, esqueceu as tentativas fracassadas, aquela constelação era a correta.

Um dos problemas com o modelo de constelações, aliás, é que elas mudam de forma com o tempo, ele não levou isso em conta.

As cidades maias, como todas as cidades humanas são influenciadas fundamentalmente pela geografia. Você até pode construir um templo fora de mão no meio do deserto, mas a cidade você vai fazer perto de um rio ou um lago.

A internet, claro, não gostou, David Stuart foi acusado de inveja, de atacar cruelmente um pobre garoto, a turba vingadora foi tão avassaladora que ele apagou o post, mas outros se juntaram ao coro. Desculpe, garoto, boa tentativa, mas não foi dessa vez.

A grande culpa aqui é da mídia, que replica histórias sem se preocupar em verificar a veracidade da informação, e das pessoas, que adoram narrativas que as fazem se sentir bem, sem entender que a Verdade não tem nenhum compromisso com o bem-estar alheio.

A história do garoto não precisa ser verdadeira, ela é boa e para o leitor comum isso basta. Como resultado espalha-se mentira e quem tenta corrigir é o chato, o invejoso. Ninguém liga pra Ciência, só pra narrativa.

Duvida? Acompanhe no Twitter, vamos ver quanta gente vai apontar que a imagem que abre o texto é de Machu Picchu, cidade inca, não asteca, e no Peru, não na Guatemala.

Fonte: Gizmodo (entre outros).

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Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e promover seus últimos best-sellers O Buraco da Beatriz, Calcinhas no Espaço e Do Tempo Em Que A Pipa do Vovô Subia.

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