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Por algum motivo a campanha de Don Draper para a IBM não agradou cientistas e engenheiras

Sexismo institucional é uma coisa muito feia, mas quando gente com a melhor das intenções e zero de tato tenta ser progressista o resultado pode ser hilario. A IBM lançou uma campanha para promover tecnologia entre mulheres e os JÊNEOS do marketing acharam que a melhor forma era… hackeando secador de cabelos. Digamos que a apreciável quantidade de cientistas e engenheiras na internet não gostou muito…

4 anos atrás

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Dizem que as boas intenções pavimentam o caminho para o Inferno, e é verdade, mas ainda assim são boas intenções, o que torna o momento em que dão errado mais divertido ainda. A NASA é um exemplo. Mesmo com gente do nível da Margaret Hamilton trabalhando pra eles o comando da missão em Houston não tinha sequer um banheiro feminino. 

Quando Sally Ride se tornou a primeira astronauta americana, em 1983 a NASA ainda era tão clube do bolinha que os engenheiros, preparando os suprimentos da missão, perguntaram a ela se 100 absorventes eram suficientes. Para uma missão de sete dias. A maioria das mulheres ri quando menciono isso, então deve ser uma quantidade absurda, ou muito pouco, sei lá.

Algumas vezes, na verdade na maioria das vezes a saia-justa surge por arrogância, um bando de gente que não entende de um tema se propõe a falar dele, e sai bobagem. Exemplo recente: a capa da Entertainment Weekly com a primeira grande imagem do Pantera Negra:

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Claramente uma mesa de jornalistas arrogantes que adorou a reportagem do Pânico e desprezam filmes de heróis como “coisa de nerd” acharam ótimo zoar o Rei de Wakanda, sujeito mais rico que o Tony Stark, colocando um “miau” na imagem. Não havia nenhum nerd nessa reunião nem sentiram falta de um.

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Agora a hagada é cortesia da IBM.

Posicionando: a IBM é a empresa que criou a revolução da microinformática, desenvolveu boa parte da tecnologia que usamos e usaremos nos próximos 200 anos, e tem cinco Prêmios Nobel na estante. De verdade, não aquelas bobagens de Paz, Economia, Acupuntura, etc.

Mesmo assim eles são extremamente conservadores. O código de vestimenta é severo, na portaria dos prédios há ou havia máquinas para lustrar sapatos. A IBM tinha um Hino Corporativo. Quando a Microsoft estava desenvolvendo o OS/2 em cooperação com eles Bill Gates foi chamado para resolver problema de produtividade.

Os funcionários da Microsoft foram pessimamente avaliados pois a métrica era quantidade de linhas de código produzidas por dia; eles recebiam código-fonte da IBM, otimizavam às vezes pra 10% do tamanho, e terminavam o dia com… produtividade negativa.

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Mulheres também não tinham lá grande espaço na indústria como um todo, exceto em software. Nos primórdios programação não era considerado algo másculo, macho que é macho projetava os computadores, fazer programinhas não merecia o tempo dos engenheiros.

De lá pra cá muito mudou, conheci e trabalhei com profissionais excelentes de ambos os sexos, mas realmente ainda há poucas mulheres em TI, e as empresas estão tentando resolver isso. Algumas bem, como a Microsoft e a Apple, outras de forma terrivelmente desajeitada, como a IBM.

Criado e aprovado por um grupo que muito provavelmente não tem muito contato com mulheres engenheiras, mulheres cientistas ou, pensando bem, com o Século XXI, o projeto  convidava mulheres a mostrar seus talentos, hackeando um… secador de cabelo. Sim, a tag era .

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Os JÊNEOS do marketing, todos acima dos 50 com certeza se juntaram para associar mulheres com tecnologia e o máximo que conseguiram foi um… secador de cabelos. Seria mais digno se fosse um Toshiba Magic Wand (não google).

Shakespeare dizia que o Inferno não conhece fúria como a de uma mulher desprezada, e se essa mulher for uma cientista ou engenheira, sai de baixo. A resposta foi implacável e merecida:

“OK, IBM, eu prefiro construir satélites, mas boa sorte com a coisa do #HackAHairDrier”

“Vou deixar a coisa do secador de cabelo para os homens, estou ocupada criando nanotecnologia e tratando câncer”

“Pena, eu não uso secador de cabelo. Acho que é o fim da minha carreira em STEM. Volto já, abandonando meu PhD em astrofísica.”

“Eu gosto de maquiagem e de cuidar do cabelo, também gosto de construir robôs. Adivinha qual eu prefiro que a IBM promova junto às mulheres.”

Combater estereótipos apelando para estereótipos de forma não-irônica é algo muito, muito burro, mas pelo menos no controle de danos a IBM foi bem rápida. Todos os traços da campanha foram removidos das redes sociais, e já emitiram um pedido de desculpas.

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Como não estou entre os ofendidos, e achei divertidíssima a saia-justa não é meu papel aceitar as desculpas, IBM, mas posso dar uma sugestão. Quando forem fazer uma campanha envolvendo mulheres, envolvam mulheres. Tenho certeza que conseguirão encontrar uma ou outra trabalhando na empresa.

Ei, eu conheço uma que pode dar umas dicas e vocês poderiam consultar: Ginni Rometty, CEO e Chairwoman da IBM.

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Fonte: Tech Crunch.

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