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Vende-se 512 bytes por US$ 2.750,00. E está barato!

Quer comprar 512 bytes? É baratinho, apenas US$ 2.750,00. Só que não são 512 bytes quaisquer, são 1/2 kB parte do computador da Gemini 3, a primeira missão espacial a voar com um computador de verdade, mesmo que para os padrões de hoje seja feito de barro fofo e pedra lascada.

4 anos atrás

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Muito, muito, muito tempo atrás montei meu primeiro PC. Um glorioso 386-DX 40 MHz, com 4 MB de RAM. Cada MB me custou US$ 60,00. Mantendo o valor os 8 GB de meu PC atual custariam US$ 491.520,00.

Parece caro, mas esses valores encolhem diante do artesanato de feira hippie da imagem acima. Isso é uma memória RANAM — Random Access Non Destructive Readout, o bloco acima tem 4.096 bits, em termos de hoje 512 bytes, e está sendo leiloada com um preço de arremate de US$ 2.750,00.

Qual o motivo desse preço absurdo? Esse pedaço de memória fez parte do primeiro computador no espaço, na Gemini 3, em 23 de março 1965. Até então nas missões Mercury os cálculos eram feitos por computadores em terra, e transmitidos como comandos remotos.

O computador da Gemini 3 tinha no total 19,5 kB de memória, equivalente a uns 40 blocos como o da foto, que para a época eram bem revolucionários, não só pelo tamanho mas também pela tecnologia. Vamos ampliar.

ENHANCE!

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O computador inteiro pesava quase 27 kg, com clock de 7,143 kHz (levava eternos 140 μs por instrução). Meu CP-200 tinha clock de 3,25 MHz; mesmo assim aquele bicho era capaz de controlar a trajetória de ascensão, determinar posição da nave, calcular manobras necessárias para pousar em um local específico, além de comandar a nave para a manobra de reentrada.

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Gemini 6a e Gemini 7, primeiro encontro de duas naves em órbita, chegaram a 30 cm uma da outra.

Ah sim, ele também, aí com auxílio de computadores em terra, conseguia realizar manobras de encontro orbital com outra espaçonave. Sim, quem joga Kerbal na mão e acha que Mechjeb é trapaça, acredite. Desde sempre astronautas contam com um cheatzinho.

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Isto é o tal computador.

Como todo projeto de software as especificações foram se acumulando, as estimativas de hardware não acompanharam e a idéia inicial de ter todos os programas em memória claro foi pra vala.

Com isso o computador da Gemini usava algo chamado Auxiliary Tape Memory. Sim, quem cresceu carregando programas em Fita K7 no MSX ou Spectrum pode se orgulhar, a NASA fazia o mesmo.

Aqui uma unidade dessas em teste:

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O tempo médio para carregar cada programa era de uns 7 minutos, então tudo precisava ser bem planejado.

Como o hardware era dedicado e projetado especificamente para isso, era possível ir ao espaço com algo quase tão primitivo quanto um Peeble, mas o grande mérito era do software, escrito em FORTRAN e Assembly, testado e otimizado. Como diriam os adeptos da Escola Watney de Engenharia de Software: até fazer bico.

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O computador, com a capa, sendo instalado. Esses não são sobrinhos.

Aqui o fluxograma original do software da Gemini:

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Ops, eu falei O fluxograma? Não, é só uma das 27 páginas de fluxograma do sistema original (cuidado, PDF).

Construído e projetado pela IBM, o computador da Gemini foi só mais uma das brilhantes peças de engenharia que ajudaram a colocar alguns dos primeiros humanos em órbita, as lições aprendidas construindo-o foram utilizadas na criação do computador da Apollo: na verdade são utilizadas até hoje, pois conhecimento é cumulativo.

Hoje em dia a coisa é mais — ok, no espaço nada é fácil — razoável. A Dragon por exemplo não tem um mas seis computadores trabalhando em três grupos de dois, um monitorando o outro. Cada computador tem 3 processadores, o software é todo em C++ e em termos de capacidade de processamento, segundo um engenheiro da SpaceX eles têm uma porrada.

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