Adivinha quem odeia ciência? Acertou, o Brasil!

Que o Brasil não gosta de ciência não é novidade, vide a proporção cientistas/videntes nos programas vespertinos. Nossos museus vivem caindo aos pedaços, pessoas batem palmas pra escolas que trocam evolução por criacionismo no currículo e se um sujeito quer ser levado a sério, melhor ignorar a apropriação cultural, colocar um turbante e se passar por paranormal.

Aqui cientistas precisam correr sacolinha, pois nem o governo nem as empresas se coçam para conseguir R$ 50 mil para um planetário inflável. A promessa de verba do Congresso pro telescópio do ESO no Chile só saiu depois de anos de atraso e pressão pública, mesmo assim só acredito quando entrar na cota, dado nosso histórico de vexames, como a participação na Estação Espacial.

Mesmo quando não há grana de ninguém daqui envolvida a capacidade brasileira para atrapalhar e sabotar ciência está presente. Vide o caso do Projeto Alexa, onde a NASA doou equipamentos mas a Receita Federal não quis saber e cobrou impostos. Sim, ciência aqui paga imposto, tá pensando o quê? Quer isenção monte uma igreja, não um laboratório.

Agora o Brasil fez de novo. Veja:

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Quer se deprimir? Clique aqui e leia a matéria.

Basicamente o Clube de Astronomia Louis Cruls é um pequeno e humilde grupo de pessoas que ama o Cosmos e, dentro de suas limitações faz divulgação científica entre interessados, escolas, etc. Eles resolveram participar de uma maratona de astronomia solar dia 21 de junho, envolvendo gente do mundo todo.

A Maratona está sendo organizada pela Charlie Bates, uma ONG americana. Ela doou 2.600 óculos de observação solar para o CALC. Nada chique, um equipamento baratíssimo, feito de papel-cartão e filtros de plástico:

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BIIIIIG MISTAKE! Os óculos, que provavelmente com o frete custaram US$ 364,00 foram considerados uma afronta. COMO o Brasil ousa interessar crianças e jovens em algo assim, ciência? Se erguerem a cabeça para o alto podem parar de pastar, e isso é um perigo.

A Receita Federal cumpriu seu papel de manter o status quo e apreendeu os óculos. As explicações do Clube não foram suficientes, apesar de terem toda a documentação da doação. Para aprenderem a não desafiar a mediocridade reinante, foram cobrados não só impostos como uma multa de R$ 1.300,00.

Agora para retirar os óculos de papel no valor de R$ 1.150,00 o CALC terá que pagar R$ 2.700,00. Até amanhã, do contrário a transportadora será obrigada pela Receita Federal a recolher a encomenda e mandar de volta para os EUA.

É complicado sair do atoleiro quando as próprias instituições jogam contra. Que incentivo essas crianças terão, quando o simples ato de se interessar por ciência é punido com multa?

Nosso destino é pastar.

P.S.: uma dica pro CALC e todo mundo que queira receber doações de materiais sem chamar atenção das autoridades anti-ciência: mande vir dentro de bíblias. Ninguém vai questionar, ninguém vai cobrar impostos, exigir licenças e carimbos muito menos se preocupar em abrir.

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Atualização

Boas notícias, os óculos de papel foram liberados, mas não pela Receita, e sim graças a um mecenas que pagou esta tributação absurda e sem qualquer justificativa.

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Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e promover seus últimos best-sellers O Buraco da Beatriz, Calcinhas no Espaço e Do Tempo Em Que A Pipa do Vovô Subia.

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