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Câmara volta atrás e desveta participação brasileira no Mega-Telescópio Europeu

YAY! E houve uma grande alegria, Brasil aprovou a verba pro super-telescópio europeu no Chile, certo? Teeecnicamente sim, mas como a palavra-chave é “Brasil” o futuro não é tão promissor assim. Clique e perca as esperanças.

4 anos e meio atrás

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Uma das raras vezes que vi real e objetiva indignação foi quando escrevi sobre a participação brasileira no E-ELT, o European Extremely Large Telescope, um telescópio grande bagarai que será construído no Chile. Foi em 2014, mas em 2013 eu já falava da indecisão de 2012, com a verba que não saía, colocando em risco nossa participação no projeto.

Eis que o nobilíssimo, excelentíssimo senhor deputado Fábio Garcia (PSB) retira de pauta a votação da verba encruada, com um discurso ludita neandertal:

Solicitamos a retirada de pauta de um acordo que o governo federal fez com a União Europeia que faria o Brasil gastar 800 milhões de reais com pesquisa astronômica. Os astros que precisam ser enxergados no Brasil é o povo brasileiro que sofre com a ausência de saúde, educação e segurança pública de qualidade! Tamojunto!

Isso pegou mal, muito mal, mesmo pros padrões do Congresso Nacional. É uma vergonha a ciência de um país viver de vaquinhas e doações, forma de financiamento que deveria ficar restrita a obras de qualidade questionável.

Em vista disso o próprio deputado correu pra explicar que não era bem assim, a proposta não foi retirada de pauta final, e em um raro gesto inteligente, o Congresso aprovou o Projeto de Lei PDC-1287/2013, que regulamenta o acordo do telescópio, assinado em 29 de dezembro de 2010.

Claro, o exmo Fábio Garcia não era o único contra, demonstrando que a mentalidade anti-ciência do brasileiro é suprapartidária, cito, entre os críticos ao telescópio:

Os 270 milhões de euros vão virar R$ 1 bilhão” — Nilson Leitão (PSDB-MT)

É ruim para o governo, tirando dinheiro de quem merece e precisa receber. É muito ruim para o País” — Pompeo de Mattos (PDT-RS)

Hugo Leal (Pros-RJ), vice-líder do governo, segundo o site da Câmara “afirmou que o acordo vai beneficiar o País em pesquisas científicas. Ele explicou que o governo tentou retirar a medida de pauta por falta de parecer, não por questão orçamentária”.

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Ou seja: é benéfico, existe desde 2013 mas vamos tirar de pauta. Para sua conveniência.

Eduardo Cunha, presidente da Câmara, disse que a aprovação não implica em gasto imediato de dinheiro, e “O governo, segundo ele, pode renegociar os meios do acordo”. Jandira Feghali (Comunista, RJ) “também ressaltou a possibilidade de renegociação dos valores a serem pagos”.

Ou seja: não coçamos a mão para tirar do bolso um centavo dos € 270 milhões que seriam pagos em DEZ anos, sendo que nos dois primeiros anos está acordado que o Brasil pagará só € 10 milhões e já estão falando em renegociação.

Entramos atrasados, atrasamos o projeto, levamos CINCO ANOS pra aprovar um acordo feito pelo mesmo governo de sempre, e a argumentação é “ok aprovamos, mas não se preocupe podemos renegociar os valores”.

O projeto agora vai para o Senado, o que significa que a ESO não verá essa grana tão cedo, os planos de contingência já devem estar sendo acionados, para não dependerem do Brasil.

Sim, você já viu esse filme, o famoso calote de hardware e dinheiro que demos, que culminou na nossa expulsão da Estação Espacial Internacional.

Eu gostaria muito de ser otimista como alguns comentaristas nos sites onde essa notícia foi divulgada. No Gizmodo um sujeito chegou a dizer que o acordo da Estação Espacial NÃO foi cancelado pois o Brasil lançou um Cubesat de lá. Desculpem, não consigo. Eu sei onde isso vai parar.

Vamos enrolar, pagaremos uma fração na primeira parcela, enrolaremos mais, tentaremos negociar, nosso nome vai pro SPC (Serviço de Proteção à Ciência) e no final nossos astrônomos serão convidados a se retirar do projeto, bem antes de seu término.

Quanto aos € 4 milhões por ano, que o Brasil paga pra ter acesso aos telescópios do VLT Survey Telescope (VST) também no Chile, serão questionados no Congresso, a ESO vai lembrar que esse valor é simbólico, alegaremos soberania e os astrônomos do VST também voltarão pra casa.

Pobres, mas orgulhosos, se bem que o slogan que mais se adequa ao Brasil é o do Top Gear“Ambitious but Rubbish.

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