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Garotas, garotos, LGBT e competição no mundo dos games

Uma análise sobre a diferença entre homens e mulheres que jogam videogame, o preconceito da indústria e uma ótica científica sobre as diferenças entre os dois gêneros durante esse tipo de atividade.

5 anos atrás

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E lá vamos nós para mais um post grande sobre um assunto polêmico aqui no MeioBit. Prometo tentar ser o mais sucinto o possível.

A essa altura do campeonato (opa), você já deve estar sabendo o que aconteceu nas Filipinas, quando, num torneiro feminino de League of Legends (Iron Solari Tournament), o número de participantes LGBT foi limitado. A Garena eSports, empresa responsável pela organização do evento, tentou justificar a atitude dizendo que participantes LGBT (com ênfase em transexuais e crossdressers) possuem uma certa vantagem em relação às jogadoras do sexo feminino.

Como em qualquer competição, analisamos seriamente se existe um equilíbrio justo entre todos e existem preocupações de outros participantes que os membros LGBT podem ter alguma vantagem injusta” — diz o regulamento.

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Ou seja, traduzindo livremente aqui, somente um participante LGBT seria permitido por equipe. Quem desobedecer isso pode ser banido de eventos da Garena por um ano.

Claro que depois da péssima repercussão, a organização soltou uma nota lamentando o que aconteceu e com um pedido de desculpas, deixando claro que qualquer jogador que se identifique como sendo do sexo feminino vai poder jogar numa boa.

Pra promover a integração, vamos praticar o separatismo…

Ok, eles voltaram atrás no acontecido, mas… isso me faz pensar qual a necessidade de se dividir as categorias por gênero. Me lembra até do caso do torneio de Heartstone que sequer permitia mulheres. Por que raios existe uma separação das jogadores do sexo feminino? Fui atrás das respostas e elas variam assim:

  • Garotos são melhores que garotas, está provado e…
  • Garotas não têm tempo de jogar muito e treinar tanto quanto os garotos, então é injusto…
  • É necessário dividir por gênero para dar aos games a característica de e-Sport…
  • Mulheres não entendem nada de videogame…

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Vamos pro primeiro ponto: quase todo mundo que eu vi alegando que garotos são melhores que garotas partiu de uma experiência anedótica para se justificar. “Ah, pq minha namorada é muito ruim”, “Ah pq minha prima não sabe nem segurar o controle”, “Ah, pq uma vez comigo aconteceu…”. ¬¬

Será que garotas são mesmo piores que os garotos? Note que aqui eu não estou, ainda, abordando a identidade de gênero, nem orientação sexual. Pode parecer bobo, mas isso é importante. Bom, cientificamente a gente sabe que a habilidade cognitiva dos cérebros de homens e mulheres acontece, do ponto de vista biológico, de uma forma diferente.

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Mas diferente não significa MELHOR, nem explicita uma vantagem. O que será que acontece no cérebro de homens e mulheres quando eles jogam videogame? Existe algum experimento científico relacionado a isso? Sim, existe.

Em 2008 a Universidade de Stanford publicou um estudo de psiquiatria afirmando que o cérebro dos homens é mais estimulado que o das garotas em diversas áreas quando eles estão jogando videogame. Eles conseguiram identificar o objetivo do jogo mais rapidamente que as meninas.

Ah, você quer dizer que homens são melhores que mulheres nos videogames?” E o Dr. Sanjay Gupta, um dos pesquisadores do Departamento de Medicina que participaram do estudo foi taxativo:

Não. Na verdade, nas habilidades motoras, os sexos possuem respostas iguais do cérebro. Os resultados afirmam que, não somente na amostragem que a gente utilizou em nossa pesquisa, mas na experiência geral com computadores e jogos de videogame, homens e mulheres possuem habilidades iguais.”

Curiosidade: analisando a química envolvida, existem áreas no cérebro, os mesmos circuitos neurais que levam ao vício por drogas e álcool, que são ativadas nos homens com maior intensidade que em mulheres.

Bom, então sabemos que homens não são melhores que as mulheres nos videogames. Garotas podem muito bem vencer garotos em torneios assim, dêem uma chance à elas.

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E quanto à alegação de que garotas não têm tempo de jogar muito e treinar tanto quanto os garotos, então é injusto… Então… esse é um dos mitos dessa indústria. A realidade é que garotas jogam mais que os caras. A agência Populous fez em 2014 uma pesquisa pra Gaming Revolution, que revelou que 52% do público em geral é feminino. Há três anos, esse número atingia 49%.

A britânica Kate Russel, guru de tecnologia e expert dessa indústria, deu recentemente uma entrevista pra Sky News onde ela disse:

Isso de que garotas não jogam videogame é um mito, e é um erro cometido por todos nós essa coisa de se prender às ideias ultrapassadas de gêneros.”

Esse aumento de número de jogadoras engloba desde a popularização de puzzles e apps de smartphone, de forma massiva, aos jogos hardcore de consoles e computadores.

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O Washington Post divulgou em Outubro do ano passado números que corroboram esse entendimento.

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Dos 190 milhões de pessoas que jogam videogame nos Estados Unidos, garotos que possuem entre 10 e 25 anos — o estereótipo padrão adotado pelo mercado — representa apenas 15% da fatia.

E se a gente analisar só o PS3/PS4 e o Xbox 360/Xbox One, o número de garotas que passaram a jogar durante 5 ou mais dias por semana deu um salto impressionante, o que mostra que sua assiduidade, mesmo nos consoles, também cresceu:

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Evidentemente isso varia muito de franquia para franquia. Existem títulos, nos EUA, Reino Unido, França e Alemanha, com muito mais jogadores que jogadoras, como Max Payne, FIFA, Madden NFL e Halo:

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Assim como existem bem mais fãs de esportes como futebol, futebol americano e filmes de ação do sexo masculino, é mais um fator social que biológico. Mas ficou claro pra mim que, em geral, não podemos dizer que garotas jogam menos videogame que garotos, nem que eles são melhores que elas. Mesmo no League of Legends, que também possui mais apelo entre eles, não existe absolutamente nada que diga que uma garota não pode vencer uma competição contra garotos.

Mulheres não entendem nada de videogame…

Eu ainda não acredito que eu li isso, preciso confessar. E foi mais de uma vez. Então, e se eu disser que já existe um experimento científico que mostra quão absurda é essa alegação? Pois é, o documento foi publicado em 2014 e mostra como as meninas conseguem rendimento e resultados muito melhores que os homens na criação dos games baseados em uma estória. Elas são mais hábeis que seus colegas do sexo masculino.

Pesquisadores da Universidade de Sussex no Reino Unido pediram para alunos do segundo grau para projetarem e programarem seus próprios games usando uma nova linguagem visual de programação. O que os estudiosos aprenderam foi que as garotas das classe escreveram códigos mais complexos e games mais elaborados que os garotos.

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Existem muitas mulheres trabalhando com games ao redor do mundo. Você provavelmente já jogou um título que passou pelas mãos de uma delas.

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Como disse Tegan Colton hoje em sua coluna:

A Indústria do Videogame precisa parar de ignorar e alienar mulheres.”

Então se você é um desses indivíduos que anda dizem coisas como “mulheres não entendem de videogames”: esse cara, não seja esse cara.

É necessário dividir por gênero para dar aos games a característica de eSport

Ai cara… eu não sei nem por onde começar. Historicamente a gente tem um costume de separar esportes profissionais por gênero. Sim, costume, tudo começou lá atrás, sem qualquer tipo de avaliação física, psicológica. Homens sempre foram incentivados a praticar algum esporte, quando mulheres eram incentivadas a cuidar da casa.

Sim, você acredita nisso? Há alguns séculos, se uma mulher quisesse praticar algo considerado “de homem”, tanto em esportes, quanto profissionalmente, logo aparecia algum babaca mandando ela pra cozinha, ou lavar uma pia de louça, coisas bem arcaicas e ignorantes mesmo. Por nossa sorte, esse raciocínio imbecil e preconceituoso virou passado, certo?

Bom, existe um artigo muito bom do Jake Flanagin no The New York Times, que questiona de uma forma aprofundada se esportes profissionais poderiam ter ligas de gêneros misturados (que eles chamam de Co-Ed). Ele aponta vários dados e pesquisas, com avaliação de competitividade e resultados, principalmente no basebol. A conclusão? Não existe uma razão aparente para a distinção, é muito mais uma questão de oportunidade, de dar às mulheres a chance de jogarem contra os homens, de se desenvolverem, de bater de frente.

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Mas, hey! Basebol é um esporte físico. Sabemos que o corpo do homem pode ter um desempenho muscular melhor em determinadas tarefas, podendo resultar em maior aceleração, por exemplo, mas veja: trenó na neve também é uma atividade física, e a federação Internacional da modalidade deu sinal verde para competição entre os gêneros. Poderemos ver isso acontecer na Olimpíada de 2018, como já acontece no Badminton, torneios equestres, patinação no gelo, tiro à distância, jogos de duplas no Tênis, Biatlo por equipe e zaz e zaz e zaz… Tudo culmina muito mais no incentivo à participação feminina que em sua capacidade de melhorar suas habilidades e vencer.

Se a meta é tornar isso um eSport, que se baseiem em todos esses exemplos nos quais as pessoas já disputam juntas. E se não existir um motivo irrefutável pra separar, se não ficar provado que existe uma disparidade entre os gêneros, não existe razão para separar.

Bom, me ensinaram que a gente sempre precisa ouvir todos os lados da história para avaliar os pontos de vista do contexto e entendê-lo melhor. Então, algumas pessoas argumentam que isso é um mal necessário para a promoção do esporte, a exemplo do que aconteceu com o Xadrez no decorrer das últimas décadas. Trata-se de um esporte intelectual (como jogos de videogame), e não há nada que prove que as habilidade nas mulheres sejam menores que nos homens.

Ter campeonatos divididos assim poderia, segundo essas premissas, ajudar a remover a barreira que impede que algumas mulheres se tornem competitivas. Em tese, isso poderia ser um fator convidativo e eu entendo essa linha de raciocínio, de verdade. A premissa dela é louvável. Ainda assim, o caso do Xadrez, por exemplo, isso se tornou um problema, quando homens passaram a se recusar a jogar contra mulheres. E, convenhamos, como já foi dito aqui em cima, cada vez mais mulheres já estão jogando, logo isso pode vir a se tornar muito mais um problema que uma solução.

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Logo, me parece muito mais eficiente e correto deixar as pessoas jogarem juntas, seja o gênero que for, e incentivar desde já que essa separação não faz sentido.

Mas o que LGBT tem a ver com isso?

Pois é… segundo o regulamento original da competição, cada time poderia ter só uma menina homossexual, ou somente uma garota transsexual. Alguém consegue me explicar onde é que isso faz sentido?

Ah, mas garotos heterossexuais poderiam se vestir de menina pra participar” — bom, não posso dizer que isso jamais aconteceria, pois existe maluco pra tudo nesse mundo. Ainda assim, como já vimos, não existe algo que prove que um garoto seja melhor apenas por ser do sexo masculino.

O ponto é: o que prova que uma garota, que nasceu no corpo de um homem, possui maior capacidade de vencer um torneio assim? Já vimos que não há nada no cérebro que garanta que isso aconteça. Ou um pessoa que se declara mulher, mas nasceu no corpo de um homem, joga melhor? Como isso funciona no cérebro, sob uma ótica científica? Isso sem contar toda a realidade de preconceito à qual essas pessoas são involuntariamente expostas.

Deixo aqui uma reflexão interessante da gamer transsexual Amy Dentata:

Aparentemente ser discriminada em quase tudo e ser desproporcionalmente alvo de violência é uma ‘vantagem injusta’

Pois é. Existe uma máxima que diz que a maior demonstração de igualdade é a integração e respeito às diferenças. Mas nem todo mundo entendeu isso ainda.

Fica cada vez mais claro que essa divisão é prejudicial e injusta. Espero que esse seja só mais um dos muito episódios tristes da história que servem como fomentador da discussão à respeito de um tema que não deveria ser tão polêmico. E que no futuro a gente possa ter uma indústria mais consciente e justa em relação aos gêneros.

E você leitor, o que acha? Devemos separar homens e mulheres em competições no mundo dos games?

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