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Inglaterra aprova a criação de quimeras do bem

Boas novas, algo que já falamos algumas vezes está se tornando realidade: o Reino Unido aprovou na Câmara dos Comuns (os deputados deles) a legalização do tratamento de transplante mitocondrial para cura de diversas doenças hereditárias. Já nos EUA infelizmente ainda estão discutindo se vacinas funcionam (spoilers: é CLARO QUE SIM).

5 anos atrás

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Em 2012 noticiamos que um painel de Bioética na Inglaterra havia aprovado a técnica de micro-transplante de mitocôndrias. É uma intervenção associada com fertilização in vitro, os antigamente chamados bebês de proveta, que não tinham alma, segundo o Vaticano.

A técnica é necessária pois mitocôndrias também ficam doentes. Sim, tecnicamente você não está doente, só suas mitocôndrias, que são uma espécie de cunhado que ajuda nas compras.

As mitocôndrias são organelas celulares e há várias hipóteses para sua origem. Segundo os criacionistas elas foram criadas 6.000 anos atrás, pois Deus odeia estudantes e quis que eles fossem obrigados a decorar o Ciclo de Krebs. Já a teoria científica mais aceita é que 2 bilhões de anos atrás uma bactéria gente boa, mas sem senso de direção, acabou dentro de um organismo unicelular maior. 

Por sorte a bioquímica da membrana da tal bactéria era benigna o suficiente para não desencadear o sistema de defesa da célula. Sem ter o que fazer a bactéria começou a comer, eis que ela come glicose, e o #2 é ATP, isso otimizou muito o metabolismo da tal célula, que virou um Steve Rogers bem pequeno.

Com o tempo a mitocôndria começou a se reproduzir, a célula também, e um relacionamento simbiótico foi perpetuado. As mitocôndrias são responsáveis por um monte de processos intracelulares, possuem DNA próprio e só são passadas pela mãe: as mitocôndrias do espermatozoide não chegam a entrar no óvulo no momento da fecundação.

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O lado ruim disso é que mitocôndrias podem ser atacadas por vírus, e podem sofrer mutações. Há um monte de doenças hereditárias causadas por mutações mitocondriais. Esse conhecimento é bem recente, a encefalomiopatia mitocondrial só foi identificada em 1970 e caracterizada em 1977.

É injusto que além do Pecado Original as mulheres também tenham que carregar esse fardo, e saber que se são portadoras de uma dessas mutações, seus filhos vão sofrer das mesmas doenças. Não mais. A técnica de micro-transplante é genialmente “simples”. Você basicamente pega o óvulo de uma mulher saudável, com Mitocôndrias ISO 9000, ainda na garantia de fábrica. remove o núcleo, e com ele todo o DNA.

Em seguida você pega o óvulo da futura mãe, remove o núcleo, deixando pra trás as mitocôndrias doentinhas. Insere o núcleo no óvulo saudável. Pronto, agora é só partir pro abraço, metaforicamente falando pois ao contrário de tubarões espermatozoide não tem ombro.

Isso não é ficção científica, nos EUA já foi feito de forma experimental e há pelo menos 30 crianças saudáveis a mais no mundo por causa disso.

Agora o Parlamento Inglês votou pela aprovação formal da técnica, tornando-o uma prática legal, não experimental. Só falta a aprovação da Câmara dos Lordes, mas isso parece ser inevitável.

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É um avanço muito, muito importante, mas a aprovação não é surpreendente. O público E o governo no Reino Unido é muito mais bem-informado, e estão cientes de que a técnica foi criada para salvar vidas, erradicar da linhagem genética dessas mulheres a bomba-relógio que carregavam. Só nos EUA 4.000 crianças por ano nascem com doenças mitocondriais.

Claro, sempre há os retardados, principalmente os jornaleiros. A Associated Press postou um tweet com a chamada: “Reino Unido aprova lei que permite a cientistas criar bebê com DNA de 3 pessoas”.

Isso, óbvio, atiçou as penas do norte-americano retardado médio, e os comentários vão de gente denunciando eugenia a idiotas dizendo que é parte da “agenda gay”, o fim da família, cientistas brincando de Deus em vez de curar doenças, etc.

Nos EUA a questão também está sendo discutida, mas como é um país onde muita gente não acredita em VACINAS, e 80% da população acredita em anjos, o nível está baixíssimo, a MSNBC, que nem é tão ruim assim trata o caso como “misturar DNA de 3 pessoas”. Os jornaleiros discutem rapidamente que isso abre espaço pra “bebês projetados” e outro diz que é um precedente perigoso.

Um dos argumentos contra é que… a intervenção altera a criança para sempre, e é hereditária. Claro, bom mesmo é um tratamento que todos os seus descendentes tenham que passar. Pela lógica eliminar os genes que causam miopia é errado, melhor que todos os seus descendentes usem óculos, pois resolve.

Bom mesmo é deixar crianças nascerem com doenças como Síndrome de Melas, que causa diabetes, surdez, epilepsia. é progressiva e fatal.

Nas imortais palavras de George R.R. Martin… HOJE NÃO.

No Reino Unido são 2.473, nos EUA são 12.423 mulheres em idade fértil que, com essa tecnologia, podem finalmente ter filhos sem a certeza de que passarão para eles as doenças que as afligem, em troca de levarem em suas células mitocôndrias emprestadas de uma terceira pessoa, que teeeeecnicamente terá 0,1% da maternidade.

Quanto ao Brasil, é questão de tempo, se os felicianos da vida não embarreirarem. Lembre-se: quando Louise Brown nasceu, se tornando o primeiro bebê de proveta, além de não ter alma havia a desvantagem de custar uma fortuna.

Hoje? Você faz no SUS.

Em Star Trek Voyager, no episódio Linhagem (S07E12) a engenheira B'elanna Torres descobre que está grávida. Logo depois o médico da nave a chama, junto com o marido, para discutir um problema. Examinando o DNA do embrião ele detectou uma escoliose bem séria.

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B'elanna conta que ela teve escoliose, operou quando criança, a mãe também. O Doutor então acalma os pais, explicando que isso pode ser consertado com uma simples manipulação genética.

Na série isso foi no Século XXIV. Os cientistas do Século XXI olham e riem, hoje eles estão consertando defeitos genéticos antes mesmo da concepção.

Eu amo o futuro.

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