Home » Ciência » Espaço » O Acidente da Enterprise é o fim do turismo espacial?

O Acidente da Enterprise é o fim do turismo espacial?

Apesar do desastre sexta-feira com o VSS Enterprise, Richard Branson disse que vai continuar com a exploração espacial: “tentaremos mais outras e outras vezes justamente por ser difícil”.

5 anos atrás

de-havilland-comet_34838

Esse bicho aí de cima é um DeHavilland Comet, Começou a ser projetado em 1943, voou em 1949 e se tornou o primeiro jato comercial de passageiros. A proposta era revolucionar a indústria, aumentando o alcance e a eficiência da aviação comercial.

Em 1952 com um vôo Londres-Joanesburgo nascia A Era do Jato. Infelizmente ninguém conhecia direito as forças e tensões envolvidas em uma aeronave assim. Em outubro do mesmo ano um Comet da BOAC sofreu um acidente na decolagem. Março de 1953, outro acidente, matando todos a bordo. Entre 1953 e 1954 3 acidentes com o avião se desmontando em pleno ar fizeram com que toda a frota fosse tirada de circulação. O Comet só voltou a voar em 1958, depois de extensas reformas estruturais.

As enormes janelas quadradas haviam tornado a estrutura do avião frágil demais, também não havia reforço interno. Ele era mais rápido que qualquer avião comercial, os projetistas estavam se aventurando no desconhecido. Muitos críticos disseram que era bobagem arriscar vidas, que os aviões existentes eram rápidos o suficiente.

Por eles estaríamos voando até hoje em Elektras, que aliás era um avião bem mais convencional, lançado 5 anos depois do Comet.

Empresas aéreas cancelaram encomendas, mesmo depois de o Comet se mostrar seguro. No final só foram construídos 114 Comets, contra 856 Constellations e 556 DC-8s. Mesmo sendo um fracasso comercial e um projeto que começou errado, o Comet permaneceu em uso por décadas. Um dos últimos a se aposentar foi sua versão militar, o NIMROD. A RAF voou um desses até junho de 2011.

A mentalidade de que nada pode ser feito da primeira vez é a maior garantia de que nunca sairemos das cavernas.

FB0E8FF0-47D2-445A-B2D2-E9CBCDAB244B_w640_r1_s_cx0_cy4_cw0

POWERRRRR!!!!

Agora com o acidente da VSS Enterprise a mídia, que ADORA vociferar contra tudo que é novo, está fazendo a festa. Capitão Retrospecto trabalha em turno dobrado denunciando as incríveis falhas de projeto mesmo antes de alguém saber o que deu errado, a turma do Eu Já Sabia ataca a “pressa” da Virgin, mesmo os vôos de teste tendo sido feitos com enorme planejamento e espaço entre si, e li até um jornaleiro criticando o fato de ser o primeiro teste tripulado daquele motor. Pela lógica NUNCA poderiam voar, pois algum vôo teria que ser o primeiro.

A Businessweek fez uma matéria questionando o futuro do Turismo Espacial. Há gente contra desde 2004, os argumentos são os mesmos de sempre: muito caro e muito perigoso. Sim, claro que é perigoso. O projeto do Ônibus Espacial perdeu 2 de 5 naves, foram 135 missões, o que dá uma probabilidade de morrer num acidente de Shuttle de 1/67,5. A chance de morrer escalando o Everest é de 1/61. Nem por isso tem gente chilicando exigindo o fim do alpinismo.

Claro que é perigoso. Todo mundo envolvido sabe que exploração espacial envolve risco. Todo mundo que embarcou na Santa Maria, no Beagle, no Matflower, no Endeavour sabia que estavam fazendo algo mais perigoso do que ficar em casa.

Ainda no campo da aviação, a imprensa ADORA tratar aviões como máquinas mortais que caem se você olhar feio pra elas ou ligar um Kindle. Na prática a cada ano aviões se tornam mais seguros. Vejam o gráfico de acidentes aéreos comerciais desde 1946:

chart_02

Fonte: Cenenê.

Em termos de mortes os números são melhores ainda. 2014 está sendo um ano atípico, mas convenhamos, mísseis de rebeldes ucranianos não vale. Mesmo assim o total de fatalidades até agora é de 761 pessoas. 761, de um total projetado de 3,3 BILHÕES de viajantes este ano. Mesmo assim cai um avião, a Fox News, a Veja, O Globo e o NYT questionam se não é hora de abandonar essa idéia ridícula de voar.

Outros dizem que turismo espacial é bobagem pois é muito caro e só ricos poderão usufruir. Essa mesma gente provavelmente tem um iPhone, um tablet com mais processamento que todos os computadores de todas as missões espaciais até 1980, e pega Ponte-Aérea na promoção a R$ 95,00; esquecendo que aviões já foram reduto exclusivo dos super-ricos.

Richard Branson já falou que o sonho continua. Os envolvidos na Virgin Galactic vão seguir adiante. Os funcionários da Orbital Sciences também prosseguirão com seus lançamentos. Pombas, só fomos a Lua porque Werner Von Braun insistiu, mesmo torrando dinheiro em teste fracassado após teste fracassado, até descobrir as falhas da Vergeltungswaffe 2 e despejar toneladas de explosivo nas cabeças dos Tommies.

O lema da exploração espacial é Per Aspera Ad Astra, “Para as estrelas, apesar das adversidades”. Quando a tripulação da Apollo I morreu em um treinamento, queimados vivos na torre de lançamento, as palavras de John Fitzgerald Kennedy ecoaram por toda a NASA: “Disfarça, loura, a Jackie tá vindo aí”  “Decidimos ir à Lua e fazer as outras coisas, não porque são fáceis, mas porque são difíceis”.

Construir foguetes é difícil, mas o resultado compensa. Quer moleza, vai fazer sandália de pneu.

Fonte: Business Insider.

relacionados


Comentários