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A Doce Inocência do Cabo da Dilma

Lembra da história que o Brasil ia construir um cabo submarino até Portugal, para fugir da espionagem dos implacáveis malvados ianques imperialistas? Pois é, não é bem assim…

5 anos atrás


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O Brasil tem umas características esquizofrênicas bem interessantes. Nosso complexo de vira-latas nos faz achar culpados externos para todos os nosso problemas. Da explosão do foguete em Alcântara à derrota na Copa do Mundo, tudo tem origem lá fora. Como somos um país ocidental, ficamos sob a esfera dos nossos irmãos do norte. Todos eles. Antes eram os ingleses, depois os franceses, e ultimamente os norte-americanos.

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Isso, vai rindo.

Nos ressentimos da influência americana, e isso é bom pois faz com que nós nos sintamos muito mais importantes do que realmente somos no cenário geopolítico global. Nós realmente acreditamos, quando o Lula vai na África e diz que vai formar um bloco econômico para mudar o eixo econômico mundial. Quando saiu o Wikileaks folheamos desesperadamente os documentos, esperando que em algum lugar falassem de nós.

Todo brasileiro é anti-americano de nascença, mas não quer abrir mão de passar férias na Disney e comprar iPhone. Nossa maior birra com eles é a dificuldade de obtenção de vistos. O brasileiro escreve Yankee Go Home! na parede para protestar contra o iTunes não aceitar o cartão de crédito nacional.

Agora conseguiram transformar uma obra de rotina, a construção de um cabo submarino em um gesto político, vide o artigo “Prevenindo espionagem da NSA, cabo submarino vai ligar o Brasil à Europa”. Não vamos culpar o Laguna, ele é menino novo e impressionável, realmente acreditou que um cabo submarino é decidido assim, em mesa de bar, e que faria alguma diferença em termos de segurança.

A questão não é nem estarmos sendo espionados. Estamos. Pela NSA, pelo GRU, pelo MI6, pelo Bundesnachrichtendienst, pelo Vaticano. Não é nada pessoal, é apenas business. Todo mundo espiona todo mundo, o Brasil também. Você acha que nossas representações diplomáticas não estão o tempo todo colhendo informações envolvendo indústria, tecnologia e política? Na década de 1940 nossa embaixada em Buenos Aires foi fundamental para desvendar o plano alemão para a América Latina, onde com ajuda da Argentina desmembrariam a maioria dos países e o Brasil se tornaria vassalo de Buenos Aires.

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Um dos vários monumentos homenageando Richard Sorge, espião soviético disfarçado de jornalista alemão em Tóquio. Ele produziu informações fundamentais para a estratégia soviética. Muitos historiadores, mesmo ocidentais dizem que ele sozinho ganhou a 2ª Guerra para os aliados.

No caso do cabo a ingenuidade de quem realmente acha que isso seria solução para algo chega a ser tocante, e aí cabe uma pequena história, chamada Operação Ivy Bells, acontecida no começo dos anos 1970.

EUA e URSS se espionavam o tempo todo. Os americanos eram melhores em tecnologia, os russos campeões em Engenharia Social. No resultado final é unanimidade que a KGB era o melhor serviço de espionagem do mundo, mas os EUA tinham seus momentos, como quando perceberam que a base naval russa de Petropavlovsk, na Península de Kamchatka, no Oceano Pacífico emitia uma quantidade estranhamente pequena de sinais de rádio.

O Capitão James F. Bradley, idealizador da Operação sabia que isso era um bom indicador de que as comunicações com o continente eram feitas por cabo submarino.

A base era interessante por ser a principal da região e por controlar as operações no Mar de Okhotsk, região fortemente patrulhada, a qual os americanos não tinham acesso e boa parte dos testes soviéticos de novas eram feitos. Plantar uma escuta nesse cabo seria interessante, mas como? Não dá pra comprar mapas apontando a localização, e varrer o leito do oceano ás cegas não é muito produtivo.

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Durante uma madrugada o Capitão Bradley matou a charada: tendo crescido no Mississipi, ele vivia andando naqueles belos barcos que ainda singravam o rio na década de 1930. Ele se acostumou a viajar na ponte, de onde tinha vista livre, e lembrou que linhas telegráficas cruzavam o rio em várias partes. Havia placas indicativas para pescadores e marinheiros, basicamente dizendo “cabo submerso, não solte âncora aqui, seu idiota”. Era razoável que os russos fizessem o mesmo.

Apostando nisso o equipamento de escuta foi construído, mergulhadores foram treinados, o submarino USS Halibut foi adaptado mas faltava o principal: achar o cabo.

Depois de driblar as defesas soviéticas, e navegar em águas perigosamente rasas, o comandante do Halibut achou exatamente o que procurava: perto da base naval inimiga, um dos locais mais inacessíveis e secretos do mundo, uma enorme placa em russo avisando da existência do cabo.

Mergulhadores instalaram a escuta, um equipamento de 6 metros de comprimento, construído em segredo pela AT&T. Com capacidade de gravar meses de conversas, e mais tarde alimentado por baterias nucleares, o equipamento usava indução eletromagnética para escutar as mensagens, entre ligações de voz, telégrafo e até telefotos. Parte do processamento dos sinais era feito no próprio Halibut, que havia recebido um upgrade inédito em submarinos: um mainframe.

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Modelo do USS Halibut. A estrutura na traseira foi anunciada como o DSRV — aquele submarino de resgate que aparece no Outubro Vermelho. Na verdade era uma câmara de descompressão para os mergulhadores, o DSRV só seria construído tempos depois. A Marinha foi elogiada por sua “transparência”. Muhahah

O equipamento de escuta ficava posicionado a 140 m de profundidade, com amarras que soltariam o cabo caso ele fosse puxado para manutenção. De tempos em tempos o Halibut e outros barcos voltariam para substituir as fitas.

A missão foi um sucesso imenso. Os americanos coletaram toneladas de informações. Os russos estavam tão seguros da inviolabilidade de seu cabo que quase todas as comunicações eram em aberto, sem qualquer tipo de criptografia. Movimentações de tropas e navios, patrulhas de submarinos, mensagens pessoais, tudo que ia para Vladivostok era interceptado e gravado.

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O compartimento de Mísseis do Halibut foi adaptado para transportar robôs submarinos, que eram usados para sondar o fundo do mar. A câmara era conhecida — por motivos óbvios — como Batcaverna.

A missão durou de 1971 até 1980, quando o USS Parche foi enviado para recuperar a escuta, e descobriu que ela havia sido removida.

Os soviéticos descobriram a Operação Ivy Bells graças a Ronald Pelton, um funcionário da NSA de 44 anos, afundado em dívidas e recrutado pelos russos como informante. Ele forneceu dados sigilosos por vários anos, ganhando um total de US$ 35 mil. Por entregar a operação Ivy Bells Moscou pagou a Pelton a fortuna de US$ 5.000,00. Ele hoje cumpre 3 penas perpétuas em uma prisão federal.

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O equipamento de escuta original. Hoje está no Museu da KGB.

Os americanos usaram a mesma técnica em várias partes do mundo, muito provavelmente não só com cabos soviéticos. Estes por sua vez estudaram a tecnologia e a menos que sejam bobinhos como quem acredita na soberania brasileira perante as Grandes Potências, também instalaram escutas por aí.

Com o advento dos cabos de fibra óptica, ficou mais difícil interceptar essas comunicações, mas sendo realistas, ainda dá pra usar escutas nas estações repetidoras instaladas a cada 100 km ou, se você não quiser se molhar, na própria instalação onde o cabo se conecta à rede do país.

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O maior fator contra esse tipo de operação  hoje é justamente a quantidade de dados. Só UM cabo de dados Brasil-EUA de 64 terabits por segundo passa tanta informação que é inviável armazenar OU transmitir isso tudo. Convenhamos, para transmitir os dados de um cabo de 64 Tb/s você precisaria de outro cabo de 64 Tb/s.

SE for estrategicamente importante pra NSA espionar as comunicações brasileiras com a Europa oportunidade não faltará. Afinal de contas, da mesma forma que os militares soviéticos na Década de 1970, a nossa Excelentíssima Presidenta não tem paciência de usar criptografia

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