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Lamentamos desmentir o History Channel mas a nave Interestelar da NASA não existe

As Interwebs foram invadidas nos últimos dias com uns renderings bonitinhos de uma nave espacial. Nada de novo, mas cismaram que eram um projeto da NASA, de uma nave espacial com motor de dobra. Para piorar o History Channel entrou em modo full retard e publicou chamando a coisa de… PROTÓTIPO. Agora nos resta explicar como estão errados.

Para um idiota qualquer tecnologia, não importa o quão atrasada, é indistinguível de mágica.

1ª Lei Cardoso-Clarke

A internet é fonte de diversos fenômenos culturais, um dos mais curiosos é permitir que analfabetismo científico deixe de ser algo indesejado e se torne digno de mérito. Se uma pessoa não sabe como algo funciona, é vergonha. Se várias se juntam e inventam explicações fantasiosas, vira um movimento religioso. A mídia, ciente disso percebeu que explicar um fenômeno não é bom para o IBOPE. As pessoas não gostam de estar erradas. Pirâmides místicas? Tudo bem. Mostrar que é um imã? Você é um estraga-prazeres, não respeita as crenças das pessoas, é mal-humorado.

Isso dá espaço para que editorias de ciências amplifiquem qualquer bobagem, e nem estou falando de astrologia. Um bom exemplo foi o da menina russa que “projetou uma espaçonave”. Quando vi a primeira manchete imaginei que fosse um exagero em cima de uma pequena cientista nos moldes de Homer Hicman,  lindamente contada em O Céu de Outubro.

Não. A tal menina fez o que todo mundo com 13 anos e tendências nerds já fez: desenhou uma espaçonave como gostaria que ela fosse. A matéria d'O Globo é vergonhosa: “Aluna russa de 13 anos cria projeto de nave que permite viagem rápida pelo espaço”. No texto entende-se que foi um projeto de feira de ciências, em grupo, o que é muito legal mas está tão distante quanto eu desejar dois bonecos de palito de mãos dadas, escrever “Lu e Eu” e correr pra mudar status de relacionamento no Facebook

Aí, claro, entra o History Channel e xaga mais ainda: “Garota russa de 13 anos inventa a primeira nave capaz de viajar para outra galáxia” afinal de contas uma nave espacial normal é pouco, tem que ser intergaláctica. Well, Andrômeda fica a 2 milhões de anos-luz de distância, tomara que tenham Netflix nessa nave. A menos que…

Cientistas da NASA revelam o protótipo de uma nave mais rápida que a luz, inspirados na Enterprise, de Star Trek

UAU, como assim, Bial? A NASA está penando pra tirar a Orion do papel, uma cápsula que mal e porcamente se iguala à Apollo, vivem de comprar lugar nas Soyuz russas. Em 2014 a NASA não tem NADA capaz sequer de colocar um homem em órbita, estão cancelando missões por falta de verba. De onde surgiu esse protótipo?

Como sempre o History Channel não consegue lidar direito com essa coisa chamada REALIDADE.

A tal nave? Ela tem um belo pedigree, mas em essência é idêntico ao projeto da menina russa.

A ISS Enterprise foi desenhada por um sujeito chamado Mark Rademaker. Ele é um artista que produz material em computação gráfica muito bom. Em suas imagens Rademaker deixar claro: é um CONCEITO de uma nave estelar com propulsão FTL — Faster Than Light (neutrinos?). Daí, claro, os sites começaram a divulgar como “projeto da NASA”.

Qual a ligação da agência com essas belas e fantasiosas imagens? Elas são usadas por Harold White, chefe do Grupo de Propulsão Avançada da NASA. Sim, a NASA tem um grupo que se dedica a sonhar com propulsão de dobra, o que é admirável, seria o mesmo que Alexandre, o Grande (ok, ou a Dilma) sonhar com um programa espacial.

As tecnologias necessárias para a construção de uma nave interestelar estão Séculos  no futuro. Não sabemos sequer se os conceitos primários necessários para a viagem em velocidade acima da luz é possível. O principal trabalho do grupo de White é a criação de um equipamento que detectará, se existirem, campos de dobra.

Em suas palestras ele fala do futuro, mostra imagens como a nave de Rademaker, que foi desenhada com auxílio de Michael Okuda, designer de Star Trek — TNG e outros.

A semelhança com uma nave vulcana classe Surak é bem grande, além de lembrar a USS Enterprise XCV 330, mostrada de relance no Star Trek I. Essa semelhança de designs foi retconeada como exigência do sistema de propulsão, o motor de dobra Alcubierre, que tem “bases” na “realidade”.

Segundo as “matérias” do History e de uns 3.247.328.432 outros sites, a NASA está com o motor Alcubierre praticamente pronto, só falta mandar pro Top Gear UK testar. Na prática o modelo de dobra espacial de Miguel Alcubierre equivale a dizer que algo foi upgradeado de “absolutamente impossível” para “inimaginavelmente improvável”.

Proposto por Miguel Alcubierre no ano 2000, em um paper chamado The warp drive: hyper-fast travel within general relativity, o motor de dobra Alcubierre utiliza o mecanismo clássico de Star Trek: distorce o espaço-tempo, aproximando dois pontos e permitindo que uma nave percorra aquela distância em uma velocidade aparente maior que a da luz, mesmo não tendo excedido c do ponto de vista da nave.

A energia necessária para uma viagem inicialmente foi calculada como o equivalente à massa de Júpiter. Outras variações conseguiram reduzir para meros 350 kg de antimatéria. Pouco, né? Só que até hoje produzimos alguns picogramas, estima-se que em termos de custo 1 g de antimatéria hoje custaria, usando o LHC e outros equipamentos, US$ 100 trilhões.

O problema piora, pois a solução matemática de Alcubierre exige coisas como matéria exótica e energia negativa, conceitos que mal existem no papel,  não descrevem mais um motor de dobra do que E = m·c² descreve um reator de fissão. Em 1907. E se NADA da teoria atômica fosse conhecido. Chuto uns 300 ou 400 anos antes de sabermos se o paper de Alcubierre é uma obra seminal que abriu nosso caminho para as estrelas ou só mais um trabalho equivocado, como as teorias alquimistas e o Éter.

Claro, “Artista que faz frila pra cientista que de vez em quando dá consultoria pra NASA desenha nave bonitinha” não dá manchete, e a gente até perdoa O Globo e outros por não terem uma editoria de ciências decente (fugiram todos pra GloboNews, não deixem o Fantástico saber que o Navegador existe). Já o History Channel, que deveria saber mais?

OK, eu entendo que o objetivo seja caçar cliques, mas custa pelo menos não mentir muito? Ou querem que a gente acredite que ninguém no History entende o significado da palavra “protótipo”?

Quem faz divulgação científica, mesmo capenga como eu já tem que lidar o tempo todo com homeopatas, astrólogos, vendedores de florais, tarólogos, exorcistas, ufeiros e caça-fantasmas. Além disso tudo ainda ter que lidar com desinformação do que seriam fontes confiáveis é dose.

Eu amo Star Trek, acredito na mensagem humanista da série, e pela imagem acima você vê que não estou sozinho, mas sei que ninguém sobe uma montanha aos saltos. Precisamos aprender a andar antes de aprender a correr, que dirá a voar. Mostrar naves espaciais como uma meta, como uma visão do futuro, sou plenamente a favor. Enganar deliberadamente pessoas com renderizações bonitinhas que não passam de sonhos de ficção científica, aí é errado.

É uma pena que divulgação científica tenha que depender desses truques, mas é mais grave ainda quando a ciência em si deixa de ser o objetivo, e se torna apenas uma ferramenta para propiciar mais visitas e consequentemente mais lucros. Isso é uma postura limitada, de gente sem capacidade de mostrar o universo real com a grandiosidade que Ele* merece.

*Sim, com maiúscula, se alguém merece essa deferência, é o Universo. É o melhor que conheço.

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