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Robocopa: incrível? Sim. Polêmico? Também.

Apesar de o “exoesqueleto do Nicolelis” ser apresentado como um grande avanço cientifico, diversas questões precisam ser respondidas para que o projeto Andar de Novo possa ser considerado um sucesso. A questão que fica é quando elas serão respondidas.

5 anos atrás

Colocação do exoesqueleto no local da demonstração

Quinta-feira tivemos uma das maiores demontrações científicas da nossa história, quando o resultado de um grupo brasileiro foi apresentado na abertura da Copa do Mundo no Brasil. Apesar de a demonstração não ter acontecido no meio do gramado pelo peso of yo momma ass do exoesqueleto, uma vitrine dessas pode trazer um interesse em ciências equivalente ao da vitória de Guga em Roland Garros no Tênis ou os resultados de Gustavo Borges na natação.

E por isso é muito mais difícil tentar falar das questões científicas da demonstração do Robocopa, ainda mais quando não vai se falar positivamente.

Antes de começar, um disclaimer: pessoalmente, eu torço demais para que a pesquisa do Nicolelis dê resultados positivos mas, como cientista, tenho que remover essa torcida e analisar friamente as informações que temos sobre o projeto.

A primeira coisa importante é lembrar que a ciência é uma atividade comunitária. Um trabalho científico não é considerado ciência até que possa ser verificado e analisado pelos pares. Isso leva a uma quase regra: “publique primeiro e demonstre depois”. Quero dizer, raramente um trabalho é feito de maneira completamente secreta: para conseguir financiamento é necessário explicar qual o objetivo da pesquisa e se fornece relatórios constantes com a evolução dos resultados. E mesmo quando é feito em sigilo, o cientista sabe que sua pesquisa só será considerada quando for formalmente apresentada.

http://www.youtube.com/watch?v=fZrvdODe1QI

Esse é o primeiro problema da apresentação do projeto Andar de Novo. Oficialmente, não temos nenhuma comunicação dos resultados do projeto. Sabemos o que pode ser visto nos vídeos divulgados e em poucas falas dos cientistas sêniors do projeto. Com um projeto tão grande, o normal seria uma coleção de artigos com resultados parciais como preparação do experimento.

Com essa falta de comunicação, somos obrigados então a interpretar o pouco que sabemos: originalmente, o projeto era baseado na tecnologia de eletrodos implantados cirurgicamente. Nicolelis é um dos especialistas nessa área e tem resultados espetaculares em testes com macacos.

No entanto, dadas as diversas dificuldades científicas/tecnológicas, o grupo anunciou na metade de 2013 que utilizaria a tecnologia de EEG (Eletroencefalografia) para captar as informações cerebrais. Diferente do método de eletrodos, que permite captar “neurônios individuais”, EEG captura uma informação média da atividade cerebral e com um nível de ruído muito maior. Isso diminui enormemente a quantidade de informação transmissível para o detector externo.

Até hoje, todos os grupos que trabalham com EEG conseguiram utilizá-lo somente como um botão de start/stop: um determinado padrão de pensamento do usuário dispara uma série de processos já programados, como andar, ficar em pé ou, como no caso da copa, chutar uma bola.

E isso volta ao problema da divulgação: todo conhecimento científico atual indica que não é possível se utilizar de EEG para um controle fino de um exoesqueleto. Alguns modelos matemáticos chegam inclusive sugerir a impossibilidade total de qualquer tipo de controle fino. A não ser que apresentem um resultado completamente novo, somos forçados a pensar que só a utilização do EEG já eliminaria a possibilidade da pessoa ter realmente controlado o exesqueleto.

Exoesqueleto do projeto Mindwalker

Finalmente, exoesqueletos com essas características (controlado por EEG, com funções pré-programadas) já são razoavelmente conhecidos. Diversos grupos já apresentam resultados semelhantes, com um conjunto de modos de uso bem diversificado, além de exoesqueletos mais simples mas já comerciais.

Ekso Bionics: o primeiro exoesqueleto comercial

Essas são as críticas que têm vindo da academia em relação à demonstração do dia 12 de junho. Para a divulgação científica, foi uma das melhores coisas que já aconteceu na nossa história. Infelizmente a análise científica contém diversas incertezas que precisam ser respondidas nas próximas semanas para que seja possível decidir se realmente foi ou não um grande avanço científico.

Além de todo o ruído que surge neste debate científico, temos ainda o debate político aumentando a neblina do caso: de um lado pessoas que insistem em criticar Miguel Nicolelis (e seu trabalho) por sua posição política, de outro os que o defendem a qualquer custo e insistem que as críticas à sua pesquisa são apenas intriga da oposição.

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