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Com a Guerra na Ucrânia ficarão os astronautas ianques perdidos no espaço?

Com o bicho pegando na Ucrânia, como ficam os astronautas no espaço? Virarão reféns dos russos? Serão ejetados por uma comporta, igual o Adama gostava de fazer? Clique e descubra como ao menos dessa vez o Espaço é muito mais Star Trek do que Star Wars.

5 anos atrás

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Enquanto a situação esquenta na Nova Guerra Fria, com supostamente soldados supostamente russos dando tiros para o alto com seus supostamente fuzis AK-47, e apontando para tropas ucranianas, e as relações russo-americanas chegam ao fundo do poço como não chegavam desde o tempo da Guerra Fria, com um clima beligerante quase tão forte quanto o Rocky IV, uma questão foi levantada: e os astronautas?

No Twitter há gente imaginando um filme de ficção ruim, com russos pegando as armas e machadinhas que levam nas Soyuz, americanos usando aquelas câmeras enormes como tacapes, gente refugiada em módulos… também especula-se que em caso de guerra os russos abandonariam os americanos, que não poderiam usar as Soyuz para voltar à Terra.

Lamento informar, mas não é assim que a banda toca.

Lutar até a morte, expulsar o inimigo, bla bla bla é legal no XBox One, onde tem respawn. Na vida real é mais complicado, e qualquer soldado que se preza fará o possível para não estar do pior lado de um AK-74 ou um M4. No espaço há coisas suficientes tentando te matar, você não precisa da ajuda de mais ninguém.

Em órbita na Estação Espacial todo mundo depende de todo mundo, você não pode se dar ao luxo de matar ninguém. Só o George Clooney.

Mais ainda: a Ciência costuma se colocar acima da política, nesses casos. No começo do programa espacial soviético, quando lançaram as primeiras sondas Luna, a URSS não tinha antenas com sensibilidade para captar os sinais quando as espaçonaves se afastavam demais da Terra. Quem ajudou? O Observatório Jodrell Bank, na Inglaterra.

Em plena Guerra Fria os russos mantinham uma linha direta com os ingleses. Em 1969, quando a Luna 15 ia pousar, algumas horas depois da Apollo 11, o sinal foi perdido, algo deu errado. O Presidente da Academia Soviética de Ciências ligou para os ingleses, pedindo as fitas com a telemetria. Um courier diplomático foi enviado e em algumas horas os russos já estavam estudando o problema.

Da mesma forma, quando a Apollo 13 sofreu seu acidente, acompanhado pelo mundo todo, o Premiere soviético ligou para Richard Nixon oferecendo a ajuda que fosse necessária. Assim que determinaram a região aproximada de pouso navios soviéticos foram deslocados para a área. Mais ainda: Moscow ordenou que todos os transmissores na União Soviética que pudessem interferir com as comunicações da Apollo 13 fossem desligados.

A própria China, que era muito mais anti-americana, na noite do pouso instruiu seus soldados para sair em patrulha e, se encontrassem algum americano, ele não deveria sofrer qualquer surra ou violência. Dados e instrumentos que fossem capturados não deveriam ser destruídos também.

No pior dos casos a rotina continuará na ISS, ainda que rolando um climão. Em caso de guerra declarada talvez decidam evacuar a estação, que pode permanecer em órbita por anos, controlada por terra. Aí eles apertariam as mãos, diriam “boa sorte” entrariam nas Soyuz e voltariam pra casa. Muito provavelmente sequer mudariam a região de pouso. Os astronautas ganhariam um salvo-conduto.

Por falar nisso, a NASA publicou uma foto da tripulação, ontem:

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A questão se complica a partir daí, pois graças a uma série de atitudes bestas do Congresso dos EUA a NASA perdeu a capacidade de colocar humanos em órbita. Hoje só dois países possuem tecnologia para isso. Rússia e China. Duvido que em agravamento das tensões eles topem continuar a enviar astronautas.

Desde o ano passado que a Rússia se aproveita da situação, e se Dennis Tito pagou US$ 20 milhões para ser o primeiro Turista Espacial em 2001, em 2013 a NASA tinha que desembolsar US$ 70,7 milhões por uma vaga em uma Soyuz.

Os russos podem se recusar a enviar americanos e aliados, podem exigir poder de veto nos suprimentos enviados para os que estão lá em cima, caso não voltem pra casa, ou podem não fazer nada.

Vai ser interessante inclusive acompanhar o retorno dos membros da Expedição 38, Mike Hopkins, Oleg Kotov e Sergey Ryazanskiy, que devem deixar a Estação Espacial e pousar com sua Soyuz dia 10 de março. Ficarão em órbita um americano, um russo e um japonês.

Em conclusão: é legal brandir sabres, imaginar cenas épicas de combates até a morte, patriotismo extremo, mas estamos falando de profissionais, cientistas e militares, que estão muito além da retórica de haters de internet e políticos caricatos. Sei que isso gera péssima dramaturgia, mas a Vida Real nunca assinou nada dizendo que tem que obedecer Hollywood.

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