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Crimeia — um paralelo entre duas guerras e 160 anos

A região da Crimeia, na Ucrânia está longe de ser pacífica. Troca de mãos desde que o mundo é mundo, mas coincidentemente as duas últimas grandes altercações lá estão interligadas. Leia e descubra como a tecnologia aproxima duas guerras separadas por 160 anos.

5 anos e meio atrás

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A menos que você tenha morado em uma caverna nos últimos 2 meses sabe que o bicho está pegando na Ucrânia. Claro, se você está lendo isto morando em uma caverna para fugir dos mutantes radioativos, então o bicho pegou muito mais do que imaginamos, mas não será a primeira vez.

160 anos atrás na região da Crimeia um arranca-rabo colocou de um lado o Império Russo e do outro o Império Otomano, o Francês, o Inglês e o Reino da Sardenha. Causada por incompetência, arrogância, temosia e azar, foram 3 anos de combate, de 1853 a 1856, que resultaram em mais de meio milhão de mortos. Foi um evento que afetou profundamente a geopolítica da região.

A Guerra da Crimeia foi tema de milhares de obras, do clássico filme A Carga da Brigada Ligeira à canção The Trooper, do Iron Maiden, baseada no poema de Lord Tennyson. Fale agora que metal não é cultura!

Ela também foi a primeira guerra onde as telecomunicações foram usadas de forma generalizada. Não pelos lados beligerantes, mas pela população.

Até a Guerra da Crimeia se você não estivesse no meio dos combatentes, guerra era algo muito etéreo, muito teórico. Sim, sabia-se que pessoas morriam, havia recrutamento obrigatório, muita gente não voltava, mas as informações levavam meses, em alguns casos anos até chegar aos países envolvidos. Não havia fotografia, não havia rádio. Não havia telégrafo. Principalmente, não havia jornalistas.

Um ou outro escritor ou soldado mais talentoso acompanhava as tropas e produzia relatos, mas ou eram compilados em livros (que eram caros) ou viravam artigos de jornal, publicados com semanas ou meses de atraso. Na Guerra da Crimeia os leitores do Times eram informados pelas matérias de Sir William Howard Russell, talvez o primeiro correspondente de guerra.

Ele passou 22 meses acompanhando os combates. Seus relatos chegavam à Inglaterra via telégrafo, em poucos dias. Em 1854 os franceses estenderam uma linha até a costa do Mar Negro. O tempo foi reduzido para dois dias. No ano seguinte um cabo submarino inglês, ligando Kalerga, na costa da Bulgária, percorrendo 301 milhas até o Monastério de São Jorge, na Crimea. Um ano antes, como conta este artigo de 1855 da Scientific American, a comunicação entre Londres e Crimea levava semanas. “Agora”, segundos.

O efeito foi muito maior do que o Governo Inglês podia imaginar. A população passou a ter acesso a relatos diários dos combates. Não havia mais tempo para romancear e maquiar as ações. Os mortos mais famosos eram mencionados, e a guerra atingiu a população como uma V2. (too soon?)

Reforçando as palavras de William Russell, iam as imagens de Roger Fenton, considerado o Pai da fotografia de guerra. Sua vida era mais complicada, pois seus equipamentos na metade do Século XIX eram uma carroça. Literalmente. Usando placas de vidro cobertas de substâncias fotossensíveis que exigiam vários minutos de exposição, banhos químicos e outras tralhas, Fenton usava uma carroça fotográfica para andar de um lado para outro. Mesmo assim seu trabalho é sublime:

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A realidade da guerra afetou a população E boa parte do parlamento. Perguntas eram feitas, respostas não-convincentes de acumulavam, investigações eram iniciadas, inclusive envolvendo o caso da Brigada Ligeira, onde uma tropa inglesa a cavalo brandindo sabres atacou toda a artilharia russa, sendo obliterados no processo.

O  Primeiro-Ministro, George Hamilton-Gordon acabou caindo, curiosamente não pela guerra ser algo horrível, mas por estarem… perdendo. Dos dois lados a população torcia, acompanhava avidamente e queria ver seus rapazes saindo vitoriosos.

Ao final o Império Russo perdeu. Como reparação abriram mão de seus territórios no Império Otomano e em outras regiões e, em troca, ganharam Sevastopol e outras cidades, basicamente a região da Crimeia.

Hoje os russos resolveram que querem a Crimeia de volta, depois de terem dado a região para a Ucrânia, ainda nos tempos da quase ex-falecida União Soviética. Faz sentido. Sevastopol é o único porto de água quente da marinha russa. É arrendado pela Ucrânia para Moscow, e o contrato estava vencendo. Putin parece que cansou, ou o condomínio ficou caro e decidiu partir pro sonho da casa própria, mas não estamos em 1939. Não estamos nem mesmo em 1968. Estamos em 2014 e uma revolução tecnológica torna essa invasão tão complicada quando a de 1853.

Assim como da outra vez, o Mundo está vendo.

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Ao contrário das guerras de antigamente a Rússia está enfrentando uma batalha de informação sem quartel. Não é mais uma questão de quem tem a melhor assessoria de imprensa. Não é nem mais algo tão simples quanto controlar a mídia. Mesmo na Guerra do Golfo a CNN só podia andar por onde o Saddam deixava.

Agora todo mundo é fonte, todo mundo é repórter, todo mundo tem um celular com câmera.

Os russos apelaram para uma estratégia onde estão sendo absurdamente simpáticos e educados, o oposto do que sempre fizeram. Invadiram a Crimeia, uma região francamente amigável, foram super-bem recebidos e estão agindo de forma absolutamente amistosa. Não há confronto com as tropas ucranianas, fecharam as bases inimigas de forma simpática e até tiram fotos com os invadidos. Céus, eu vi um BTR-80 dando seta em uma curva, sendo que nenhum homem que se preze, dirigindo um veículo de 15 toneladas se preocuparia com isso.

Eles sabem que o mundo está vendo, e por mais que a agência oficial alimente o povo com propaganda, dentro da Rússia os vídeos e imagens não-oficiais também estão chegando.

Outro detalhe: os soldados russos, que o governo Putin ainda não reconheceu como russos estão com uniformes russos sem identificação, portando armas russas, pilotando veículos russos e usando balaclavas. Qual o motivo? Simples: hoje em dia é muito fácil identificar alguém. Lembre-se, esses soldados todos têm Facebooksy, ou seja lá o que eles usem, e milhões de internautas fuçando em segundos descobririam até onde a babuska do sujeito mora. Isso é violação de segurança operacional E derruba a fachada de anonimato que só os russos acreditam estar funcionando.

Em mais alguns dias veremos pela primeira uma ação militar de duas tropas de verdade, se enfrentando com uma terceira parte acompanhando e reportando informação publicamente. Em guerra ganha quem erra menos e quem tem mais informação. Resta saber se os envolvidos vão utilizar essas informações ou apenas ignorar.

É uma oportunidade fascinante para ferramentas de datamining, buscando em tempo real dados estratégicos. Principalmente, descobriremos se é possível vencer uma batalha sem ter controle da informação. Quem viver, verá. Quem não viver, verá do Valhalla.

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