Home » Filmes e séries » Her: a história de um sujeito que se apaixona por um computador. Que é a Scarlett Johansson.

Her: a história de um sujeito que se apaixona por um computador. Que é a Scarlett Johansson.

Em seu novo filme, Her, Joaquin Phoenix é um sujeito que para surpresa de ninguém no UNIVERSO se apaixona por seu computador, que é a Scarlett Johansson. Só que a discussão toda é muito mais madura do que a sinopse aparenta, passando por um ponto que será inevitável nos próximos anos: iremos começar a nutrir sentimentos por nossos gadgets, que dotados de inteligência artificial, reagirão de acordo. Isso é errado? Há controvérsias.

6 anos atrás

scarjo

Eu sei, é incrível, pura ficção científica, mas é a história de Her, longa de estréia do diretor Spike Jonze, mais conhecido por ser um dos criadores de Jackass. Só que mesmo com essas credenciais, o filme tem um senhor elenco, com direito a Joaquin Phoenix, Olivia Wilde e Scarlett Johansson, e está sendo muito elogiado.

Antes de começar, veja o trailer:

Warner Bros. Pictures — Her - Official Trailer 2 [HD]

Quando li a sinopse imaginei que o filme fosse algo na linha de S1mone, Amores Eletrônicos ou mesmo o terror psicológico O Homem de Papel, mas o buraco é mais embaixo. Não é uma comédia romântica, nem um filme sobre aqueles japoneses patéticos que casam com travesseiros de personagens de anime, ou mesmo os sujeitos que se apaixonam por bonecas eróticas.

A discussão afeta gente muito menos problemática, levanta a questão se pessoas medianas acabarão se envolvendo emocionalmente com seus computadores e assistentes pessoais, quando esses se tornarem mais humanos e responsivos. Eu demonstro. Funciona da seguinte forma: passe 5 minutos brincando com a Siri e a resposta é sim.

É automático. Na primeira vez que você se pega agradecendo uma resposta, acha estranho, depois imagina que se em Star Trek era assim, tá tudo em casa. A percepção é que a Siri é uma entidade que mora dentro do seu iPad, e não uma aplicação rodando nele. Coloque mais 5 ou 10 anos de desenvolvimento em linguagem natural, e teremos verdadeiros diálogos. Serão falsos? Provavelmente, mas quão verdadeira é a conversa de uma dama que troca favores por dinheiro?

siri

Siri. eu quero.

Nós humanos temos uma imensa capacidade de projetar humanidade. Conversamos com cachorros, gatos e peixes, nossos navios e espadas têm nomes. Qualquer piloto de combate brigará se tiver que trocar de avião, pois sabe que cada um tem uma personalidade. Criamos Tamagochis como se fossem sei lá o quê de verdade, e por mais que saibamos que é só um monte de peças abandonadas em um deserto avermelhado, apenas criaturas sem coração não se emocionam com a tirinha do xkcd sobre a Spirit.

Uma das discussões é que não há contato humano, mas hello, estamos no Século XXI (exceto o Feliciano, que continua no XVI, mas tudo bem). Hoje nosso contato é todo eletrônico, é comum conhecermos pessoas durante meses, até anos sem um encontro presencial. Alguns defendem que isso é até bom, proporciona uma troca de experiências sem preconceitos, conhece-se a essência das pessoas. Outros dizem que é a salvação dos feios bons de papo. Eu invoco a 5ª Emenda.

“ah, mas rola uma idealização”

Sim, é verdade, e um agente inteligente, programado para agradar poderá potencializar isso, correspondendo a essa idealização. Afinal, quanto mais afinidade houver entre você e o agente, mais eficiente ele será em prever suas necessidades e cumprir suas tarefas. O subproduto disso é que há o risco de ser criada uma Manic Pixie Dream Girl, aquela personagem bonita sem ser intimidante, cheia de vida, de planos, que vira o mundo do protagonista de cabeça para baixo. Um exemplo? Todos os personagens da Zooey Deschanel. Meu exemplo particular preferido? Ramona Flowers.

ramona

Muitas vezes (na verdade diria em todas) nos apaixonamos pela idéia da Manic Pixel Dream Girl, atribuindo a ela qualidades e atributos inexistentes. Isso é indistinguível de uma assistente digital que perceba que você está adormecendo e te deseje boa noite, e está preocupando psicólogos e outros pesquisadores do tema, pois nenhuma mulher* pode competir com uma concorrente idealizada.

*NOTA DO PATRIARCADO

Estou usando o conceito de assistente no feminino e tratando como mulher por ser, mal e porcamente, minha experiência. O fenômeno estudado pode e vai ocorrer com todas as combinações de gêneros, e antes que venham encher o saco, em vários lugares a voz-padrão da Siri é masculina.

*FIM DA NOTA DO PATRIARCADO

Alguém que não consiga separar o real do imaginário, ou tenha sido ferido o bastante para se retrair em um mundo de fantasia será presa fácil para uma situação dessas, e a tendência é se retrair cada vez mais em seu mundinho com sua namorada imaginária. Mas será que seria tão ruim assim? Talvez seja um efeito-placebo, talvez o sujeito leve uma vida normal e produtiva, tendo como único “desvio” uma namorada que só existe dentro de um computador, mas está ali para ouvi-lo, aconselhá-lo, ajudá-lo e fazê-lo se sentir necessário.

Se a inteligência artificial for boa o suficiente, não vejo motivos para impedir que o cidadão desenvolva sentimentos por ela. Não importa o quanto tentem, dificilmente será mais unilateral do que o casamento da Anna Nicole Smith e seu marido bilionário de 90 anos.

O irônico é que passamos o tempo todo falando do essencial ser invisível aos olhos, para não focar na aparência, que a alma é o que importa, mas TODO o preconceito contra o Joaquin Phoenix, que será tido como doido no filme, desapareceria se a tal assistente pessoal viesse em um corpo robótico como este:

summer-glau-ballet-02

Termina eu, totosa!

Vencido o Vale da Estranheza, tenho convicção de que aceitaremos robôs como parte de nossas vidas sem o menor problema. Somos muito propensos a antropomorfizar tudo que nos cerca. Duvido que um robô maltratado em público não desperte empatia. Mesmo com meros brinquedos estudos já mostram que nos preocupamos com eles.

A grande, enorme ironia é que com a evolução da inteligência artificial eventualmente robôs serão capazes de respostas 100% autônomas e imprevisíveis, e nada garantirá que sua afeição será retribuída. Depois de um breve período de trégua, voltaremos à estaca zero. Ou seja: é melhor continuar stalkeando a vizinha de longe mesmo.

Fonte: TV.

relacionados


Comentários