Morte no Metrô de Nova Iorque causa polêmica fotojornalística

Quais são os limites que separam o que é notícia do que é sensacionalismo? Fotojornalistas, principalmente os que vivem de comercializar suas fotos com agências de notícias, buscam o clique exclusivo, seja de um assunto de grande importância para a humanidade ou apenas uma celebridade em situação corriqueira. As fotos vendem porque existem pessoas que estão dispostas a consumir essas notícias. Até onde vai o papel de informar e começa a exploração do fato para simples venda dos jornais? Pergunta complicada e que não pode ser respondida apenas por uma pessoa. Eu sempre digo que o fotógrafo que tem formação jornalística pensa de forma diferente dos outros. Todo fato pode e deve se tornar notícia em suas lentes. Semana passada em uma mesa redonda sobre unidade fotográfica eu estava na presença de colegas fotojornalistas da cidade. Uma pergunta de um dos alunos que assistiam a discussão veio de encontro ao fato que correu a internet essa semana: Quando fotografar e quando ajudar?

O New York Post publicou nessa semana uma foto que está causando polêmica e fazendo alguns gritarem por uma maior discussão sobre o que é aceitável no mundo do fotojornalismo. Em uma estação de metrô de Manhattan, depois de uma briga, um homem foi lançado nos trilhos no momento em que um dos trens se aproximava. Um fotógrafo freelance do jornal estava presente e no mesmo momento sacou a câmera e começou a fotografar. A crítica principal dos leitores  que ficaram indignados é que o fotógrafo deveria ter tentado ajudar o homem e não se reservado o direito de ficar fotografando. Segundo uma nota do jornal, o fotógrafo tentou avisar o condutor do trem com a luz do flash sobre o homem que estava nos trilhos. Uma desculpa meio estranha, mas até onde sei essa não é a primeira e nem a última polêmica envolvendo esse tipo de ação. Vários fotojornalistas foram criticados por fotografarem situações de degradação humana e se valerem disso para ficarem famosos, venderem fotos ou simplesmente não se importarem com o que estão fotografando.

Mas, quem decide o que é notícia e o que é exploração? Provavelmente os editores e o próprio público. Se as fotos existem é porque o mercado assim exige. Mas, vou exemplificar o meu pensamento com uma fatalidade que aconteceu perto de mim. Algum tempo atrás estava fotografando com dois amigos aqui da cidade a feira pública que acontece de sábado aqui no município. O evento acontece em uma das maiores avenidas da cidade, onde apenas um dos sentidos é fechado para a instalação das barracas. O outro lado da avenida continua com a circulação de carros normal. Nesse dia, bem perto de mim, uma criança, de seus cinco anos, foi atropelada e morreu ali na calçada. A mãe da criança chorava e estava incontrolável, porém, em nenhum momento me passou pela cabeça fotografar aquele momento. Simplesmente travei e achei que seria o maior desrespeito de minha vida registrar aquele momento de tamanho sofrimento. Ao contar o fato para meus amigos fotojornalistas, todos eles foram unanimes em dizer que teriam feito a foto, mesmo com toda a carga emocional envolvida. Então, são diferenças fotográficas que estão na formação de cada indivíduo. Tudo pode virar notícia, dependendo da maneira que você conta ou ilustra a história.

Só para lembrar alguns casos, temos a história já clássica do fotógrafo Kevin Carter que fez a famosa foto do abutre rondando a criança desnutrida na África. A foto foi premiada com o Pulitzer de Fotografia e Carter foi massacrado por uma enxurrada de críticas a respeito do fato de ter esperado 20 minutos o abutre abrir as asas para poder fotografar a cena. Um caso que aconteceu em terras tupiniquins foi quando o fotógrafo Tiago Brandão registrou o desespero de uma mãe ao ver o filho se afogando. Ele fez uma série de fotos sobre o acontecimento e foi criticado por não ter ido ajudar a mulher. Segundo ele “o instinto profissional falou mais alto, que tudo aconteceu muito rápido e que não sabe nadar“. Porém, independente de fazer a foto ou ajudar, é claro que fica a marca no profissional, mesmo que ela se manifeste depois. Em decorrência das críticas sua foto, a depressão pelo qual passava Kevin Carter se agravou e o mesmo veio a se matar.

As marcas profundas na vida de um fotojornalista pode ser visto no belo vídeo One Hundredth of a Second mostrando as decisões tomadas por uma fotógrafa em um momento crítico e suas consequências.

A fotografia é um meio de comunicação. Uma única imagem pode passar todo o contexto do que queremos informar. As fotos publicadas pela Reuters como as melhores do ano de 2012  são um bom exemplo disso. Registrar esses momentos está na mão do fotógrafo e equalizar o que é viável ou não ser publicado está na mão do editor e do público que vai aceitar ou reagir. Independente do posicionamento de quem está consumindo essa informação, ela cumpre o seu dever de comunicar, causar reflexão ou simplesmente indignar.

Mais Informações

Fotografia e Engajamento Social

Vídeo One Hundredth of a Second

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Uma Foto pode Matar?

Nota do Dpreview sobre a morte no metrô

 

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Autor: Gilson Lorenti

Geógrafo de formação e fotógrafo de coração, comecei a fotografar com 18 anos de idade (antes disso nunca tinha pegado uma câmera na mão). Depois de muito estudo veio a carreira profissional que passou por várias modalidades da fotografia até realmente descobrir o que gosto de fazer. Hoje me dedico ao ensino de fotografia, fotografia Fine Art e Books Fotográficos (gestante, moda, sensual). Tomando emprestado as famosas palavras de Ansel Adams "Quando as fotografias não forem mais suficientes, me contentarei com o silêncio".

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