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Maddog sai do armário (de rede) em honra a Alan Turing

7 anos e meio atrás

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Yes, minha gente. John “Maddog” Hall, expoente do Software Livre, tido por muitos como a versão do Universo Paralelo do Stallman, dada sua simpatia, racionalidade e bom-senso, é gay. Só que ao contrário de George Takei, que saiu do armário 20 anos depois de qualquer um se importar, Maddog escolheu uma data significativa, o aniversário de seu (meu e de muitos) ídolo, Alan Mathison Turing.

Nascido em 23/6/1912, Turing logo demonstrou extrema aptidão para matemática. Com 16 anos ele não só entendeu os trabalhos de Einstein, como chegou a extrapolar conceitos apenas sugeridos nos textos.

Em uma época onde o conceito de computador lembrava mais uma máquina de overloque do que o que temos hoje, Turing criou os conceitos e bases de uma ciência que ainda não existia, escrevendo programas para computadores inexistentes e definindo fundamentos como a idéia de algoritmo. Turing inventou até o chinês, quando escreveu um programa de xadrez, mas como não havia hardware capaz de executá-lo, ele mesmo foi a CPU, rodando linha a linha e levando uma hora por movimento.

A Máquina de Turing é um dispositivo teórico capaz de emular qualquer outro dispositivo de computação, um conceito que precisa ser entendido por qualquer um que queira digievoluir de script kiddie para Programador.

Ele já era reconhecido no campo que criou, mas sua estrela brilhou mesmo na Segunda Guerra Mundial, onde com auxílio de uma equipe de gênios ajudou a projetar a Bomba, um computador eletromecânico baseado nos algoritmos estatísticos criados por Turing. Essencial para o esforço de guerra, a Bomba era usada para decodificar a Enigma e outros equipamentos de criptografia alemã, reduzindo as probabilidades de 10^22 combinações para algo razoável.

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No auge da guerra mais de 200 computadores iguais à Bomba operavam em Bletchley Park, sede dos projetos secretos de criptografia na Inglaterra. O pessoal de Turing estava tão eficiente que não era raro Winston Churchill receber as transcrições das mensagens antes dos comandantes alemães a quem eram destinadas. Os técnicos ingleses conheciam e apelidavam os operadores inimigos, identificando estilo de texto e erros de digitação.

Os Aliados determinaram várias campanhas usando as informações decodificadas das mensagens alemães. Toda a estratégia que levou à derrota do Afrika Korps de Rommel foi baseada nas informações de que os alemães estavam totalmente sem suprimentos, e Berlin não tinha material para enviar. E quando enviava, bem… os submarinos ingleses e americanos sabiam por onde os comboios passariam.

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Alan Turing, incontestavelmente salvou centenas de milhares de vidas e encurtou a Guerra em pelo menos 2 anos, e por isso foi reconhecido, ao menos temporariamente. Recebeu a Ordem do Império Britânico e uma boa verba de pesquisas, mas não contava com a divulgação de algo que o faria pior que Hitler aos olhos da sociedade britânica do pós-guerra: Ele beijava rapazes.

Em uma cena digna do filme Melhor Impossível, Turing conheceu um cidadão, levou para casa para uma noite tórrida de seja lá o que ele fizesse, pois não é problema meu. Nos dias seguintes o sujeito voltou com um cúmplice invadiu a casa, foram presos e provavelmente tentando diminuir sua pena, o FDP de nome Arnold Murray entregou que manteve relações homossexuais com Alan Turing, que por sua vez confirmou.

Homossexualismo era crime na Inglaterra, e Turing perdeu suas credenciais de segurança, seu emprego no governo e passou a ser visto como um risco, pois os boatos eram que a KGB usava agentes gays para seduzir e chantagear figuras-chave do governo britânico. Danadinhos!

Tratado como lixo pelo país que ajudou a salvar, Turing ficou diante de uma Escolha de Sofia: Cadeia ou castração química. Escolhendo a segunda opção, se submeteu a injeções de hormônios que o deixaram impotente e clinicamente deprimido.

Isso foi em 1952. Em 1953 ele foi encontrado morto, Alan Turing tirou a própria vida, envenenando-se com cianureto. A seu lado, uma maçã mordida, reencenando seu filme preferido, Branca de Neve. Um pequeno simbolismo pondo fim a uma grande vida.

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Pai da Ciência da Computação, criador do Teste de Turing, talvez a única forma 100% correta de determinar se um computador é realmente inteligente, Alan teve sua História recuperada. Em 2009 o Primeiro-Ministro inglês divulgou um pedido de desculpas oficial, mas a mais sincera forma de reconhecimento para mim é a Inglaterra que matou Alan Turing nos anos 50 hoje considerar perseguição a homossexuais motivo para oferecer asilo a imigrantes.

O gesto de Maddog não tem intenção de ser comparado à contribuição de Alan Turing, mas ainda assim é corajoso. Ele diz que o mundo tecnológico é um porto seguro para “homossexuais, transexuais e outros sexuais”, mas sendo realista ainda há muita homofobia online (e nem falo na XBox Live). Vi muita gente criticando Tim Cook a sério, como se o fato do CEO da Apple ser gay tivesse alguma BOSTA a ver com sua capacidade profissional.

Que Maddog fora do armário seja uma bandeira branca, mais uma das inúmeras provas que orientação sexual não é fator para avaliação de caráter, que ser gay, hetero, bisexual ou blogueiro não tornam ninguém melhor ou pior pessoa.

O post de Maddog no Linux Journal é lindo, deveria ser lindo e ENTENDIDO por todos aqueles destiladores de ódio da Internet, que consideram válido atacar os desafetos, desqualificando o trabalho alheio tendo como único argumento o sujeito ser gay, ou baixinho, ou negro, ou gordo, ou nordestino. Aprendam, queridos, se vocês se acham melhores que alguém por essa pessoa ser uma dessas coisas, muito provavelmente ELA é melhor que você.

Não que seja novidade, esse tipo de ódio sempre existiu. Que o diga Alan Turing, ao desabafar em um breve silogismo, numa carta para seu amigo Norman Routledge:

 

Turing acredita que máquinas podem pensar

Turing se deita com homens

Por conseguinte máquinas não podem pensar

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