Só a leitura salva?

Por: em 07/11/11 na(s) categoria(s): Artigo, Games, Meio Bit, Miscelâneas


Colocando a leitura dos feeds em dia, me deparei com este post do blog da amigolina @alinevalek com um vídeo (abaixo) sobre o poder transformador da leitura, e de como as pessoas que gostam de ler deveriam incutir nos cidadãos comuns o gosto por destrinchar compridas fileiras de caracteres impressos sobre películas de celulose encadernadas em tomos de espessura variável.

Manifesto – Só a leitura salva from Marcos Felipe on Vimeo.

Achei o vídeo simpático e esteticamente agradável, mas discordo. Tendo sido rata de biblioteca viciada em ler verbetes aleatórios da Enciclopédia Britânica na era de trevas pré-internet, eu entendo a intenção, e entendo que mais de vinte mil anos adquirindo e perpetuando conhecimento exclusivamente através da palavra escrita tenha tornado os humanos um tanto preconceituosos com as mídias novas. Mas ler não torna ninguém mais inteligente ou melhor do ponto de vista cultural que alguém que não curte leitura e prefere ver um filme.

É claro que ler desenvolve habilidades específicas — linguagem, imaginação, idioma… —, mas isso é uma particularidade da forma. Nós bem sabemos que o indivíduo que não sabe ler de verdade pode dar dores de cabeça ou no mínimo irritar, mas sua falta de habilidade em interpretar a palavra escrita diz mais sobre ele mesmo que sobre a superioridade da tal palavra escrita. Jogos, quadrinhos e filmes também têm outras particularidades específicas — linguagem, imaginação, continuidade, cultura… — que a leitura não tem. E é claro que algumas histórias funcionam melhor em uma mídia que em outra.

Vou apanhar na rua depois dessa.

Vou apanhar na rua depois dessa.

É o mesmo caso da escrita cursiva: seus defensores dizem que ela é ensinada às crianças porque desenvolve habilidades motoras específicas, mas também dá pra desenvolvê-las de outras formas, como pintura, artesanato, etc. Hoje, as escolas estão aos poucos abolindo esse tipo de escrita, o que faz amantes de tipografia e caligrafia como eu chorarem de desgosto e profetas do apocalipse rasgarem suas vestes, mas é isso que vai acontecer. Resistir é inútil, e reclamar vai apenas nos tornar iguais aos velhinhos nostálgicos que achavam que inserir fichas no telefone público era bem melhor. Um dia todo mundo vai escrever em letra bastão ou de forma e a arte caligráfica vai ser um campo com uma aplicação bem diferente. Abolir o Sütterlinschrift não levou a Alemanha às trevas.

Dei uma olhada na minha lista de livros e filmes vistos nos últimos dois anos e concluí que as histórias mais cativantes, criativas, originais e inovadoras que vi neste meio-tempo estavam nos games. Demorou cerca de quarenta anos para os games conquistarem o interesse do meio acadêmico; o cinema, enquanto técnica de registrar imagens em movimento, tem pouco mais de cem anos de existência. Perto da escrita, estão apenas na infância, mas há tanto por desenvolver! Há tanto o que fazer! Ler é basicamente sobre story telling, não sobre concatenar palavras. Livro é o meio, mas o que importa é a mensagem. Por que ler a coleção Sabrina é melhor que assistir a Maria do Bairro? Por que ler Os Três Mosqueteiros de Dumas é melhor que jogar Assassin’s Creed?

Os mais de vinte mil anos adquirindo conhecimento através do livro fazem a gente achar que ler é a única forma realmente culta e válida de se ensinar, aprender, viajar no tempo e no espaço sem sair do lugar. É compreensível, explica, mas não é o único meio de enriquecer o indivíduo. Não há nada que o “poder transformador” de um livro tenha que também não esteja presente em um bom filme, música, HQ ou game. Filmes, músicas, HQs e jogos (e o que mais surgir dessa mistureba) não podem mais ser vistos como apenas filhos bastardos da palavra escrita*.

Uma revolução vem acontecendo nos últimos duzentos anos bem diante do nosso nariz. Confundir meio e mensagem só faz a gente perder o foco dela e se ocupar com toneladas de papel velho.

*Parafraseado de Scott McCloud, em “Desvendando os Quadrinhos”.

Cédric Delsaux mistura, em fotos, o caos do dia-a-dia com Star Wars


Nascido em 1974, Cédric é mais um dos que começam de um jeito e se desencaminham para outro.

Estudou literatura e cinema em Paris, porém nunca trabalhou realmente com isso. Começou a trabalhar mesmo como copywriter para a indústria da propaganda, antes de se dedicar totalmente à fotografia, em 2002. Há quem diga que anos são necessários para que se faça algo com imagem. Há quem discorde disso.

Uma de suas séries de trabalho chamada “Here to Stay” procura alcançar o ponto que, segundo a sua visão, explica melhor o relacionamento entre o homem e a natureza. Tão bom foi o modo com que seu olhar foi recebido que em 2008 o trabalho foi publicado como uma monografia e teve um ótimo retorno.

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Random House cede e vai parar no iOS

Por: em 03/03/11 na(s) categoria(s): Apple e Mac, Meio Bit


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Até que os grandes editores e publishers deem o primeiro passo para realmente transitarem a venda de livros do papel para o digital, as coisas não podem passar da tão comum sensação de “promessa a ser cumprida” que virou o mercado editorial mundial.

A indústria de notícias começou a dar os primeiros passos mas também não se converteu em algo consistente ainda. Murdoch e Jobs até que tentaram lhes dar o empurrão necessário com o lançamento do The Daily, mas nem todos pularam para dentro desse barco e as coisas permanecem em suspenso.

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‘Seu próximo livro deveria ser um app, não um iBook’

Por: em 12/04/10 na(s) categoria(s): Apple e Mac, Meio Bit, Miscelâneas


Agora que o iPad já é uma realidade, uma das grandes perguntas pré-lançamento começa a ser respondida. Afinal, ele é um Kindle-killer”, ou o iBooks só está lá para cumprir tabela?

iPad: Kindle-killer ou e-reader de muletas?

iPad: Kindle-killer ou e-reader de muletas?

Li algumas opiniões, já que testá-lo ainda está longe das minhas possibilidades, e a opinião unânime é de que, não, não é um matador de Kindle. O motivo principal já era previsto e, na prática, por melhor que seja a tela que a Apple colocou no seu tablet, não é capaz de bater uma de e-ink para leitura. Quer fazer um teste? Leia um livro no monitor você usa no dia-a-dia. Mas lembre-se de parar antes que seus olhos saltem das órbitas.

Ontem, mais um texto do tipo saiu no TechCrunch. Em outra opinião parelha à de que o iPad não é a melhor coisa do mundo para se ler livros, Paul Carr tocou na ferida de maneira magistral: quem exalta o iPad como e-reader não é, e potencialmente nunca foi, leitor de verdade. Entenda que, nesse contexto, não considera-se leitor quem passa o dia lendo o Meio Bit, ou o G1, ou qualquer outro site, retwita os posts, e fica nesse loop infinito. Entenda como leitor aquele cara que pega uma resma e lê com a mesma naturalidade que um leitor de Internet lê um hands-on, uma análise qualquer.

“O iPad não é, definitivamente, um dispositivo para leitores sérios: as únicas pessoas que o consideram, com convicção, um “Kindle killer” são aquelas a quem a ideia de ler por prazer morreu anos atrás, ou sequer jamais existiu. As pessoas gritarão bobagens como “eu leio numa tela o dia todo!” quando na realidade querem dizer “Eu leio os três primeiros parágrafos de um artigo do nyt que encontrei no Twitter antes de retwitá-lo; então repito o mesmo procedimento pelas oito horas seguintes nas quais eu deveria estar trabalhando.”

Se o futuro do iPad como e-reader é tenebroso, existe uma saída. Horas depois da publicação daquele post do TechCrunch, o mesmo blog publicou uma opinião conflitante, escrita por Cody Brown, um jovem de 21 anos. Com poucos e certeiros argumentos, Cody ratificou a opinião de Carr, deixou claro que, para leitura, e-ink é insuperável no estado atual, mas nem por isso descartou o iPad como plataforma literária.

O título do post de Cody já dá uma vaga ideia da sua proposta: “Queridos autores, seu próximo livro deveria ser um app, não um iBook”. Por que se limitar a apenas letras quando a plataforma oferece muito mais que isso? Por que não aproveitar-se das inúmeras possibilidades que o SDK do iPhone OS oferece, expandindo livros para além das fronteiras multimídia e, de quebra, chamando à leitura quem abandonou-a há muito, ou nunca lhe deu uma chance?

Em termos práticos, Cody propõe a criação de apps, não de iBooks. Crie livros policiais com jogos ao final de cada capítulo, quase um Scooby Doo interativo. Deixe as pessoas participarem da história, deixe espaços em branco, dê opções. Insira conteúdo multimídia. Cobre o quanto quiser, livre-se das amarras da iBooks Store. Escrever um livro tendo o iPad como fim, como o local principal para “publicação”, é besteira.

“Existem técnicas literárias, existirão técnicas de iPad.”

É uma abordagem extremamente interessante que todos, inclusive Jobs e a Apple, não vislumbraram. Quem gosta de ler, e procura um gadget para leitura, não abrirá mão do Kindle, não comprará um iPad para isso. Do jeito que a coisa foi apresentada pela Apple, o iBooks é só um tapa buraco, um recurso (inútil) a mais para… sei lá, justificar o preço, dar uma desculpa extra para potenciais compradores convencerem-se a si mesmos de que é uma compra necessária, do tipo “… e além de tudo isso, ainda posso ler livros aqui!”.

“Tenho 21 anos, e posso dizer, com muita confiança, que os “livros” que definirão a minha geração serão impossíveis de serem impressos. Isso é ótimo.”