Apple barra apps feitos em Flash antes mesmo deles aparecerem
Em meio ao oba-oba do anúncio dos novos recursos do iPhone OS, ontem, a Apple aproveitou para atualizar a licença do iPhone Developer Program. Dentre outras coisas, chama atenção a nova redação da cláusula 3.3.1, a qual reproduzo abaixo, na íntegra:
3.3.1 — Applications may only use Documented APIs in the manner prescribed by Apple and must not use or call any private APIs. Applications must be originally written in Objective-C, C, C++, or JavaScript as executed by the iPhone OS WebKit engine, and only code written in C, C++, and Objective-C may compile and directly link against the Documented APIs (e.g., Applications that link to Documented APIs through an intermediary translation or compatibility layer or tool are prohibited).
De cara, MonoTouch, Unity e GameSalad já caem fora do jogo. Não pode mais, tio Jobs falou, e ponto final. Flash? Um dos grandes chamarizes do Flash CS5 é justamente a possibilidade de criar aplicativos para iPhone OS. Já mostramos aqui.
Há interpretações contraditórias sobre a cláusula acima, se ela se aplica ao novo Flash ou não. Conhecendo o histórico da Apple, e principalmente a ira de Jobs contra a Adobe (só ontem, rolou umas três alfinetadas ressentidas, no mínimo), é bem capaz que essa manobra tenha sido feita para barrar o desenvolvimento de apps no novo Flash, mesmo que isso acabe refletindo em inocentes. Além disso, durante a sessão de perguntas e respostas de ontem, quando alguém questionou Jobs sobre a possibilidade de vermos Flash no iPhone OS, o CEO da Apple disse simplesmente “não”.
A Adobe, que, dentre outras coisas, vinha apostando pesado no Flash como ferramenta de desenvolvimento para iPhone OS como um dos principais destaques da Creative Suite 5, disse ao The New York Times que está analisando a nova licença, mas que isso não muda os recursos previstos para o novo Flash.
As novidades do iPhone OS 4
Há pouco, Steve Jobs apresentou as novidades do iPhone OS 4, nova encarnação do sistema operacional que equipa iPhone, iPod touch e, agora também, iPad. Com novidades agressivas, atendendo aos clamores de muitos usuários, e suprindo deficiências que datam de 2007, quando o iPhone veio ao mundo, Jobs e a Apple fizeram um bom trabalho, e o que se viu hoje foi uma sucessão de boas novidades para o rol de dispositivos móveis da empresa.
Antes de começar a falar das novidades, veio o auto-jabá de sempre: “até agora vendemos 450 mil iPads, 600 mil livros, distribuímos 3,5 milhões de apps para o iPad”. Além de números, tio Jobs mostrou que também ama, e disse que o iPad faz as pessoas sentirem um friozinho na barriga, que elas adoram o gadget. Enquanto dizia isso, fotos de uma simpática menininha abrindo um iPad apareciam no telão.
Enxugadas as lágrimas, o show começou pra valer. Foram sete novidades principais apresentadas, e para começar com chute na porta e dedo na cara, essa imagem:
Multitarefa. O último bastião da resistência mimimi-odeio-iPhone caiu. Com desdém, Jobs disse: “não fomos os primeiros a entrar nessa festa, mas seremos os melhores”. Ele atribuiu a demora na liberação desse recurso ao cuidado tomado durante seu desenvolvimento no que toca ao consumo de bateria e desempenho. Algumas demonstrações, alternância entre apps abertos, dois cliques no botão Home e eles aparecem no parte inferior da tela.
Serão sete serviços de multitarefa, a saber:
- Áudio em segundo plano: apresentação do Pandora;
- VoIP: Skype sendo usado enquanto o apresentador pesquisava informações. Pode permanecer ativo na memória, recebendo chamadas;
- Geolocalização em segundo plano: programas de GPS que dão direções curva a curva não precisam mais ser encerrados totalmente quando o usuário quiser usar outro programa. Além disso, novo sistema privilegia redes sociais baseadas em geolocalização, como foursquare e Loopt;
- Notificações push: 10 bilhões em 9 meses. O que há de novo, aqui, são notificações locais, executadas e independentes de servidores;
- Complemento de tarefas: apps poderão finalizar tarefas em segundo plano. Imagine tirar várias fotos e começar a subi-las para o Flickr. Não será mais preciso esperar o procedimento terminar para usar outro app, basta deixá-lo trabalhando em segundo plano;
- Alternância rápida entre apps: segundo a Apple, o serviço mais fácil de ser implementado. Dados de aplicativos são guardados, conservados e recuperados instantaneamente. Dizem que desenvolvedores irão se deliciar com essa parte das novas APIs.
Acho que parando por aqui o keynote já teria sido válido, mas tem mais.
Na sequência, pastas. Agora é possível organizar os apps em pastas, e o espaço original, para 180 ícones, com a utilização de pastas se multiplica e passa a aceitar absurdos 2160 apps. Para criar uma pasta, basta arrastar um app sobre outro. O próprio sistema dá um nome a ela de maneira inteligente, mas esse pode ser alterado pelo usuário.
Próximo ponto: Mail melhorado. Implementaram caixa de entrada unificada, ou, a quem preferir mantê-las separadas, alternância mais rápida entre elas. Além disso, trocas de mensagens em threads, a la Gmail.
A seguir, iBooks, um dos maiores, segundo Jobs. O mesmo app do iPad, agora disponível para iPhone e iPod touch, com tudo que há de direito: iBook Store, biblioteca bonitinha, e algo bem legal: sincronia de páginas e bookmarks. Compre uma vez, leia em qualquer lugar (que tenha uma maçã na traseira, claro).
O quinto ponto tratado é destinado a empresas. Segundo a Apple, 80% das empresas presentes no ranking Fortune 100 usam iPhone. As novidades são:
- Criptografia de dados DENTRO de apps;
- Distribuição de apps pela empresa a seus funcionários, no mundo inteiro, através de servidores próprios;
- Suporte a múltiplas contas Exchange num mesmo aparelho;
- Suporte a SSL VPN.
Sexto: Games. É, sem dúvida alguma, uma das forças do iPhone OS, e a Apple, que de boba não tem nada, deu bastante atenção a essa área, especialmente depois que a Microsoft anunciou que seu Windows Phone 7 terá Xbox LIVE.
As novidades, embora não sejam originais, são bem interessantes. Criaram uma rede social de games. Ela será usada para criar partidas online, via matchmaking, buscando confrontar pessoas com habilidades parecidas. Haverá, também, achievements, sempre úteis para estender a vida útil de um game. Enfim, uma Xbox LIVE/PSN na palma da mão.
iAd. Esse era um rumor forte que acabou se concretizando. No alto de sua benevolência, Jobs voltou ao palco para dizer que existem muitos apps gratuitos, que todos os adoram, mas que os desenvolvedores precisam pagar as contas, e para isso, a Apple vai ajudar.
Alfinetando o Google, Jobs disse que, em dispositivos móveis, o El Dorado não está nas buscas, mas sim nos aplicativos, já que as pessoas passam mais tempo neles do que em buscadores. A ideia da Apple é implementar anúncios de forma não obstrusiva. Usando alguns cálculos, Jobs concluiu que, se houver 100 milhões de iPhones/iPods touch/iPads no mercado, e a média de utilização de apps for de 30 minutos/dia, com um anúncio aparecendo a cada 3 minutos (como na TV), serão 1 bilhão de anúncios exibidos por dia. Não conferi o cálculo, mas independente de estar certo ou não, ainda assim são muitas impressões.
Jobs quer que os anúncios emocionem. É sério, olha aí:
A solução da Apple visa tornar os anúncios mais atraentes e menos frustrantes. O usuário poderá encerrá-los a qualquer momento, e eles jamais interferirão no app que estiver sendo usado (por exemplo, não o encerrará). Plataforma da Apple, que venderá e hospedará as peças, e, claro, dará aquela mordida, não na maçã, mas no lucro: o desenvolvedor receberá 60%, o padrão da indústria, segundo Jobs.
Particularmente, achei legal a forma como os anúncios aparecerão. Um exemplo, de Toy Story 3:
Os anúncios parece apps propriamente ditos, ou vídeos de qualidade muito boa.
Resumindo, então:
- Multitarefa;
- Pastas;
- Mail melhorado;
- iBooks;
- Novidades para empresas;
- GamerKit;
- iAd.
No geral, são 100 novos recursos para usuários, e mais de 1500 novas APIs para desenvolvedores. Developer preview a ser liberado neste endereço.
Disponibilidade do iPhone OS 4: verão (inverno aqui), só para iPhone 3GS e iPod touch 3rd gen. Também sai para iPad, mas no outono (primavera aqui).
Boas novidades, dão bastante fòlego ao iPhone para enfrentar os novos Androids e o vindouro Windows Phone 7. A briga está esquentando, e ficando cada vez mais acirrada.










