Apple impede que iPhone com jailbreak abra livros no iBooks
Mais um capítulo na pitoresca paródia de Tom & Jerry que Apple e hackers protagonizam há anos.
Na última atualização do iOS, a 4.2.1, os comandados de Steve Jobs inseriram uma “pegadinha” no iBooks, app nativo para a compra e leitura de ebooks. Trata-se de um binário assinado incorretamente, de propósito, que tenta se executar a cada vez que um livro é aberto. Se a execução for bem sucedida, é sinal de que foi feito jailbreaking no aparelho. E se isso acontece, além do livro não abrir, o iBooks ainda exibe a seguinte mensagem:
‘Seu próximo livro deveria ser um app, não um iBook’
Agora que o iPad já é uma realidade, uma das grandes perguntas pré-lançamento começa a ser respondida. Afinal, ele é um “Kindle-killer”, ou o iBooks só está lá para cumprir tabela?

iPad: Kindle-killer ou e-reader de muletas?
Li algumas opiniões, já que testá-lo ainda está longe das minhas possibilidades, e a opinião unânime é de que, não, não é um matador de Kindle. O motivo principal já era previsto e, na prática, por melhor que seja a tela que a Apple colocou no seu tablet, não é capaz de bater uma de e-ink para leitura. Quer fazer um teste? Leia um livro no monitor você usa no dia-a-dia. Mas lembre-se de parar antes que seus olhos saltem das órbitas.
Ontem, mais um texto do tipo saiu no TechCrunch. Em outra opinião parelha à de que o iPad não é a melhor coisa do mundo para se ler livros, Paul Carr tocou na ferida de maneira magistral: quem exalta o iPad como e-reader não é, e potencialmente nunca foi, leitor de verdade. Entenda que, nesse contexto, não considera-se leitor quem passa o dia lendo o Meio Bit, ou o G1, ou qualquer outro site, retwita os posts, e fica nesse loop infinito. Entenda como leitor aquele cara que pega uma resma e lê com a mesma naturalidade que um leitor de Internet lê um hands-on, uma análise qualquer.
“O iPad não é, definitivamente, um dispositivo para leitores sérios: as únicas pessoas que o consideram, com convicção, um “Kindle killer” são aquelas a quem a ideia de ler por prazer morreu anos atrás, ou sequer jamais existiu. As pessoas gritarão bobagens como “eu leio numa tela o dia todo!” quando na realidade querem dizer “Eu leio os três primeiros parágrafos de um artigo do nyt que encontrei no Twitter antes de retwitá-lo; então repito o mesmo procedimento pelas oito horas seguintes nas quais eu deveria estar trabalhando.”
Se o futuro do iPad como e-reader é tenebroso, existe uma saída. Horas depois da publicação daquele post do TechCrunch, o mesmo blog publicou uma opinião conflitante, escrita por Cody Brown, um jovem de 21 anos. Com poucos e certeiros argumentos, Cody ratificou a opinião de Carr, deixou claro que, para leitura, e-ink é insuperável no estado atual, mas nem por isso descartou o iPad como plataforma literária.
O título do post de Cody já dá uma vaga ideia da sua proposta: “Queridos autores, seu próximo livro deveria ser um app, não um iBook”. Por que se limitar a apenas letras quando a plataforma oferece muito mais que isso? Por que não aproveitar-se das inúmeras possibilidades que o SDK do iPhone OS oferece, expandindo livros para além das fronteiras multimídia e, de quebra, chamando à leitura quem abandonou-a há muito, ou nunca lhe deu uma chance?
Em termos práticos, Cody propõe a criação de apps, não de iBooks. Crie livros policiais com jogos ao final de cada capítulo, quase um Scooby Doo interativo. Deixe as pessoas participarem da história, deixe espaços em branco, dê opções. Insira conteúdo multimídia. Cobre o quanto quiser, livre-se das amarras da iBooks Store. Escrever um livro tendo o iPad como fim, como o local principal para “publicação”, é besteira.
“Existem técnicas literárias, existirão técnicas de iPad.”
É uma abordagem extremamente interessante que todos, inclusive Jobs e a Apple, não vislumbraram. Quem gosta de ler, e procura um gadget para leitura, não abrirá mão do Kindle, não comprará um iPad para isso. Do jeito que a coisa foi apresentada pela Apple, o iBooks é só um tapa buraco, um recurso (inútil) a mais para… sei lá, justificar o preço, dar uma desculpa extra para potenciais compradores convencerem-se a si mesmos de que é uma compra necessária, do tipo “… e além de tudo isso, ainda posso ler livros aqui!”.
“Tenho 21 anos, e posso dizer, com muita confiança, que os “livros” que definirão a minha geração serão impossíveis de serem impressos. Isso é ótimo.”
As novidades do iPhone OS 4
Há pouco, Steve Jobs apresentou as novidades do iPhone OS 4, nova encarnação do sistema operacional que equipa iPhone, iPod touch e, agora também, iPad. Com novidades agressivas, atendendo aos clamores de muitos usuários, e suprindo deficiências que datam de 2007, quando o iPhone veio ao mundo, Jobs e a Apple fizeram um bom trabalho, e o que se viu hoje foi uma sucessão de boas novidades para o rol de dispositivos móveis da empresa.
Antes de começar a falar das novidades, veio o auto-jabá de sempre: “até agora vendemos 450 mil iPads, 600 mil livros, distribuímos 3,5 milhões de apps para o iPad”. Além de números, tio Jobs mostrou que também ama, e disse que o iPad faz as pessoas sentirem um friozinho na barriga, que elas adoram o gadget. Enquanto dizia isso, fotos de uma simpática menininha abrindo um iPad apareciam no telão.
Enxugadas as lágrimas, o show começou pra valer. Foram sete novidades principais apresentadas, e para começar com chute na porta e dedo na cara, essa imagem:
Multitarefa. O último bastião da resistência mimimi-odeio-iPhone caiu. Com desdém, Jobs disse: “não fomos os primeiros a entrar nessa festa, mas seremos os melhores”. Ele atribuiu a demora na liberação desse recurso ao cuidado tomado durante seu desenvolvimento no que toca ao consumo de bateria e desempenho. Algumas demonstrações, alternância entre apps abertos, dois cliques no botão Home e eles aparecem no parte inferior da tela.
Serão sete serviços de multitarefa, a saber:
- Áudio em segundo plano: apresentação do Pandora;
- VoIP: Skype sendo usado enquanto o apresentador pesquisava informações. Pode permanecer ativo na memória, recebendo chamadas;
- Geolocalização em segundo plano: programas de GPS que dão direções curva a curva não precisam mais ser encerrados totalmente quando o usuário quiser usar outro programa. Além disso, novo sistema privilegia redes sociais baseadas em geolocalização, como foursquare e Loopt;
- Notificações push: 10 bilhões em 9 meses. O que há de novo, aqui, são notificações locais, executadas e independentes de servidores;
- Complemento de tarefas: apps poderão finalizar tarefas em segundo plano. Imagine tirar várias fotos e começar a subi-las para o Flickr. Não será mais preciso esperar o procedimento terminar para usar outro app, basta deixá-lo trabalhando em segundo plano;
- Alternância rápida entre apps: segundo a Apple, o serviço mais fácil de ser implementado. Dados de aplicativos são guardados, conservados e recuperados instantaneamente. Dizem que desenvolvedores irão se deliciar com essa parte das novas APIs.
Acho que parando por aqui o keynote já teria sido válido, mas tem mais.
Na sequência, pastas. Agora é possível organizar os apps em pastas, e o espaço original, para 180 ícones, com a utilização de pastas se multiplica e passa a aceitar absurdos 2160 apps. Para criar uma pasta, basta arrastar um app sobre outro. O próprio sistema dá um nome a ela de maneira inteligente, mas esse pode ser alterado pelo usuário.
Próximo ponto: Mail melhorado. Implementaram caixa de entrada unificada, ou, a quem preferir mantê-las separadas, alternância mais rápida entre elas. Além disso, trocas de mensagens em threads, a la Gmail.
A seguir, iBooks, um dos maiores, segundo Jobs. O mesmo app do iPad, agora disponível para iPhone e iPod touch, com tudo que há de direito: iBook Store, biblioteca bonitinha, e algo bem legal: sincronia de páginas e bookmarks. Compre uma vez, leia em qualquer lugar (que tenha uma maçã na traseira, claro).
O quinto ponto tratado é destinado a empresas. Segundo a Apple, 80% das empresas presentes no ranking Fortune 100 usam iPhone. As novidades são:
- Criptografia de dados DENTRO de apps;
- Distribuição de apps pela empresa a seus funcionários, no mundo inteiro, através de servidores próprios;
- Suporte a múltiplas contas Exchange num mesmo aparelho;
- Suporte a SSL VPN.
Sexto: Games. É, sem dúvida alguma, uma das forças do iPhone OS, e a Apple, que de boba não tem nada, deu bastante atenção a essa área, especialmente depois que a Microsoft anunciou que seu Windows Phone 7 terá Xbox LIVE.
As novidades, embora não sejam originais, são bem interessantes. Criaram uma rede social de games. Ela será usada para criar partidas online, via matchmaking, buscando confrontar pessoas com habilidades parecidas. Haverá, também, achievements, sempre úteis para estender a vida útil de um game. Enfim, uma Xbox LIVE/PSN na palma da mão.
iAd. Esse era um rumor forte que acabou se concretizando. No alto de sua benevolência, Jobs voltou ao palco para dizer que existem muitos apps gratuitos, que todos os adoram, mas que os desenvolvedores precisam pagar as contas, e para isso, a Apple vai ajudar.
Alfinetando o Google, Jobs disse que, em dispositivos móveis, o El Dorado não está nas buscas, mas sim nos aplicativos, já que as pessoas passam mais tempo neles do que em buscadores. A ideia da Apple é implementar anúncios de forma não obstrusiva. Usando alguns cálculos, Jobs concluiu que, se houver 100 milhões de iPhones/iPods touch/iPads no mercado, e a média de utilização de apps for de 30 minutos/dia, com um anúncio aparecendo a cada 3 minutos (como na TV), serão 1 bilhão de anúncios exibidos por dia. Não conferi o cálculo, mas independente de estar certo ou não, ainda assim são muitas impressões.
Jobs quer que os anúncios emocionem. É sério, olha aí:
A solução da Apple visa tornar os anúncios mais atraentes e menos frustrantes. O usuário poderá encerrá-los a qualquer momento, e eles jamais interferirão no app que estiver sendo usado (por exemplo, não o encerrará). Plataforma da Apple, que venderá e hospedará as peças, e, claro, dará aquela mordida, não na maçã, mas no lucro: o desenvolvedor receberá 60%, o padrão da indústria, segundo Jobs.
Particularmente, achei legal a forma como os anúncios aparecerão. Um exemplo, de Toy Story 3:
Os anúncios parece apps propriamente ditos, ou vídeos de qualidade muito boa.
Resumindo, então:
- Multitarefa;
- Pastas;
- Mail melhorado;
- iBooks;
- Novidades para empresas;
- GamerKit;
- iAd.
No geral, são 100 novos recursos para usuários, e mais de 1500 novas APIs para desenvolvedores. Developer preview a ser liberado neste endereço.
Disponibilidade do iPhone OS 4: verão (inverno aqui), só para iPhone 3GS e iPod touch 3rd gen. Também sai para iPad, mas no outono (primavera aqui).
Boas novidades, dão bastante fòlego ao iPhone para enfrentar os novos Androids e o vindouro Windows Phone 7. A briga está esquentando, e ficando cada vez mais acirrada.









