Em um dia desses, trabalhando como freelancer na área da web, um dos meus clientes me contatou, falando sobre uma fantástica empresa que estava contratando gente da área de programação e web para trabalhar para eles.
Sendo ele meu amigo e sabendo que eu desejava realmente trabalhar na área com carteira assinada e em um ambiente mais estável, eu contatei uma pessoa, chamado André. Marcamos uma reunião no seu escritório, no mesmo bairro onde fica a empresa do meu cliente.
No dia da reunião, o André me mostrou uma empresa voltada para a produção de websites e serviços para a internet. Até este ponto, nada me surpreendeu, pois já trabalhei para empresas assim como temporário ou colaborador.
André passou a me explicar que a empresa era nova no mercado, fornecia toda a infraestrutura para o associado. Ela dava o serviço de hospedagem, registro de dominio e fornecia reuniões semanais para a preparação dos associados. Ele me mostrou 3 sites que ele fez, além de falar que tem inumeros associados por todo Brasil trabalhando para esta empresa.
A situação começou a ficar bizarra quando ele começou a me falar como a empresa trabalhava...
Primeiro, você teria que pagar a empresa um valor "X" (que não passava de 200 reais) para ter acesso a todo o serviço que ela prestava, além de uma mensalidade de manutenção... Que seria acima de 50 reais por mês.
Ele me disse que a cada site que o associado produz, esta empresa paga APENAS 10% ou menos, sendo que você tem que fazer todo o site por si mesmo, sendo forçado a ficar restrito entre os poucos templates dentro do sistema deles. E os custos, a manutenção e os encargos eram debitados de seu próprio bolso.
O cliente quer mais? A empresa ajuda! Por uma taxa extra, bem exorbitante, a cada mudança de código, adaptação ou simples melhoramento do template o cliente (e você) pagam mais uma taxa.
André me explicou tudo com uma riqueza de detalhes, parecendo amar isto. Ele deixou claro que era uma salsinha das mais verdes... E que ele nunca mexeu em uma linha de html em sua vida. Tudo que ele precisava fazer era apenas copiar e colar o texto para dentro de um template. E ser feliz com os seus 10%...
...Quando ele passou para o segundo ponto da conversa, que era o que ele ganharia (e supostamente eu também) se me associasse a esta empresa.
André me contou sobre o revolucinário sistema de piramide da empresa, que a cada associado que você trazer para a empresa, ele ganharia porcentagens graduais a cada 2, 6, 12, 20 e mais clientes, sendo que ele me falou, com aquele brilho estranho nos olhos, fascinado pela empresa, como isto era vantajoso.
Ele estava realmente me desejando que eu, um freelancer, que produz websites, que rala e tem que aprender jogo de cintura para lidar com clientes, entregando soluções personalizadas parar o que está fazendo e transferir todos os meus clientes para um sistema "for dummies", para que ele e todos que, em uma corrente priamidal associou andré até chegar a mim, cada um ganhando uma porcentagem do que eu vender.
Me senti neste momento um dr.livinstone, entrando no meio da áfrica selvagem e encontrando nativos canibais, que sem cultura, estudo ou noção do que é a civilização digital, estavam ávidos por um nanco de carne das minhas oncinhas de 50 reais, dentro da minha carteira.
Ouvindo paciêntimente André até o final com atenção e cuidado, ele me pergunta "Tem alguma duvida?", soltando um belo sorriso e um olhar esperançoso... Se imaginando ser o tutankamon enquanto eu, uma das pedras de sua priamide. Resolvi perguntar a altura...
- Certo... Entendi tudo, mas... Porque eu indicaria novos membros, se eles seriam concorrentes em potencial? Se eu vou ganhar uma porcentagem do que eles trabalharem, porque não fazer tudo eu mesmo e ficar com tudo? Ou melhor, porque eu não contrato ou me associo com outra pessoa, ganhando mais pelo serviço do que criando concorrentes em potêncial? Com o pagamento da porcentagem deles, eu tenho mais prejuizo que lucro, se trabalhasse sozinho.
Ele não soube me responder, repetindo o que ele foi orientado a ouvir e a repetir em suas reuniões semanais, enquanto ouvia um "creck" de algo quebrando a ferrugem saindo de algo na mente de André...
- Então, para fazer parte deste grupo, eu teria que pagar taxas, registros e manutenção, sendo obrigado a usar um cartão e website de portfólio padrão deles, sendo que não posso alterar muita coisa... E tudo sendo custeado no meu bolso... Com logotipo deles em todo lugar? Então atuaria mais como vendedor do que webmaster ou webdesign.
André me disse apenas um "é" timido, enquanto eu continuava a ouvir algo rangendo dentro da cabeça dele.
- Entenda, porque eu faria um site de 600 reais para uma empresa, que me cobraria do meu dinheiro a hospedagem, manutenção, registro de dominio se por este mesmo preço eu faço tudo... Veja... No serviço de hospedagem MAIS BARATO, por 1 ano, com dominio registrado, vou pagar no máximo uns 60, 80 reais... E teria a minha propria mão de obra... Me sombrado mais de 500 reais, livres, limpos e na mão...
André ficou sem palavras, enquanto ouvia algo rangendo ao som altissimo dentro de sua cabeça, me fazendo continuar...
- ...Que poderiam ser investidos na minha recolação profissional. Veja, um curso de flash, em uma escola razoável, sai por uns 120 reais, com aulas todos os dias, por 2 meses. E com professores que te tiram duvidas. Não é o suficiente, mas já ajuda a se preparar. Ou então Adobe Indesign, que é diagramação, te fazendo pegar serviços voltados para gráficas. Ou Autocad, que engenheiros amam passar trabalhos e projetos em papel para alguém converter para o programa, usado em outras máquinas...
Eu pude notar André perder todo o brilho no olhar, e já não estava sorrindo. Ele olhava com dó e muita dor para o laptop novo que provavelmente estava pagando ainda, para o escritório que ele tinha alugado, para os móveis que ali estavam e eram novos. Ele comentou antes, durante a apresentação do "fabuloso grupo", que quando um cliente precisava de algo e ele não sabia fazer, a empresa fazia por uma taxa, ou ele pedia ajuda a um rapaz que trabalhava nisto profissionalmente, num outro andar do prédio, no escritório dele.
Depois de conversar com ele por quase 3 horas, falando como eu via o mercado, dando idéia de preços, tempo, cursos e outras coisas relacionadas na área... E sempre tomando cuidado para não falar mal da empresa ou da forma sacana que ele sugava ele, fazendo trabalhar por uma comissão infima e recrutar novas salsinhas (Afinal, ele tinha que falar mal por si mesmo) terminamos a conversa.
Nos despedimos, e ele, muito constrangido, me entregou um cartão desta empresa, pedindo para que eu vá ver um de suas reuniões, mas falando de forma vazia, repetindo algo que ele foi treinado a dizer... Mas depois, ao me agradecer pelo papo, detalhando melhor como tudo funcionava, sobre os preços, valores e cursos, ele pareceu mais animado.
Ainda estou com o cartão desta empresa, aqui encima da minha mesa... A G3W. Ela converte outras salsinhas para virarem recrutadores e vendedores, pagando taxas e mais taxas...
Eu encontrei outros dois diferentes, durante os meses seguintes, e foi a mesma conversa... Eu fui conversar com eles, em seus escritórios alugados ou construidos em uma parte da casa, onde eles me apresentavam várias vantagens que eu deveria pagar, para que eles, em um esquema de pirâmide, lucrassem... Prestando um serviço pasterizado, bem restrido e cheio de limitações, amordaçando o associado a ter que pagar por tudo que fizer de diferente ou sair, para trabalhar em "freelancer"
Meses depois ouvi deste meu cliente que o André largou o trabalho voltado para web, se mudando de São Paulo para algum lugar do Piaí, para trabalhar como motorista. Seguir ordens e rotas era algo dele, acredito.