Steve Jobs, a biografia [Resenha]
Começar uma resenha da biografia de Steve Jobs com o termo “contraditório” é mais que cliché. Mesmo cliché, é a palavra perfeita para definir em uma única palavra a personalidade e os atos do homem que ajudou a dar forma à indústria de computadores, celulares e equipamentos eletrônicos em geral. Se bem que “criança mimada” também seria uma ótima definição, e aí teríamos duas palavras ao invés de uma e não seria assim tão educado, mas me adianto.
O livro escrito por Walter Isaacson a pedido do próprio Jobs, quando este sentiu seus últimos dias se aproximando com uma rapidez assustadora, é detalhista e preocupado em mostrar todos os múltiplos lados, cobrindo vida pessoal e profissional de forma respeitosa. Obviamente não se trata de um livro imparcial – nenhuma obra o é -, mas é um belo trabalho de jornalismo, dando créditos a quem merece, com inúmeras fontes e escrito com base em diversas entrevistas realizadas com mais de cem pessoas, entre familiares, amigos, colegas de trabalho e até gente que não queria ver Jobs nem morto. Too soon?
[Resenha] Rocksmith: a evolução dos games musicais

Sequer sabe segurar um violão direito, ou mesmo posicionar os dedos nos trastes. Os dedos curtos e grossos não ajudam. Como quase todo amante de música, já sonhou interpretar os sucessos de seus astros favoritos, mas numa loja de instrumentos musicais se sente a pessoa mais idiota e ignorante do mundo. Um dia, foi lá com uma pequena caixa embaixo do braço, comprou uma Eagle usada, algumas palhetas, nenhum amplificador, e foi pra casa ligar o Xbox. Duas horas depois já se sentia o Slash e tocava de verdade.
É essa a sensação de quem joga Rocksmith e não sabe nada de guitarra. Lançado no fim do mês passado, o disco do jogo vem acompanhado de um cabo USB para conectar o instrumento ao console, e apesar de conquistar os corações dos amadores, muito provavelmente também será apreciado pelos Pros. Com uma curva de aprendizado adaptada ao ritmo de cada guitarrista, inexistência dos tradicionais níveis de dificuldade, e um repertório variado indo do indie ao clássico (mas ainda com poucos DLCs), o jogo da Ubisoft já se tornou um favorito na minha estante, e será responsável pelo fim da minha frustração por não ter aprendido nenhum instrumento musical, frustração esta que também é a de vários nerds.
Quando o bolso (e o mercado) fala: a história de um tecnófobo
Como em pelo menos metade das ficções científicas, o futuro é distópico. Com pilhas de livros sendo queimados, e a população cada vez mais imbecilizada e cruel que vem de brinde neste cenário. A paixão pelo conhecimento e pela leitura o tiram da matrix, mas Eles não o querem fora da matrix. Um tema interessante, mas que de tão recorrente, acaba por se tornar um cliché. É basicamente disso que se trata a obra Fahrenheit 451, clássico do gênero publicado em 1953 que recentemente obteve permissão para ser publicado digitalmente em fins de novembro passado.
E esse texto não existiria se o assunto tivesse acabado aí, e isso seria uma não-tícia. A parte interessante vem agora: Ray Bradbury, o autor do livro, resistiu o quanto pôde a ver sua obra habitar leitores digitais de todo o mundo. A justificativa, dada em 2009, que mais parece a defesa de uma parafilia à defesa de livros enquanto suporte de conhecimento, era de que um livro digital “[...] não tem significado; não é real… Está no ar em algum lugar”. Muita gente ainda pensa isso a respeito e gosta de cultivar suas estantes e mantê-las sempre atualizadas, mas o mesmo Bradburry disse dez anos atrás que a internet não passava de um grande golpe das fabricantes de computador. E sobre os telefones celulares e computadores conectados, que “temos de nos livrar dessas máquinas”. Não lembra-me vagamente um certo camarada do início do século XIX?

O que fez o carrancudo e quase centenário senhorzinho mudar de idéia? A mesma coisa que faz todos os seres humanos mudarem de idéia nos mais variados assuntos: o bolso. O agente de Bradbury teve de explicar que os direitos de publicação de suas obras estavam expirando e ele precisava urgentemente fazer novos contratos com as editoras. O problema é que nenhuma das oito editoras que o procuraram interessadas nas obras de Ray aceitou fechar um contrato sem direito a explorá-las no meio digital. A solução foi aceitar.
Por mais que tente, não consigo imaginar postura idêntica em relação a eBooks de algum dos membros da Santíssima Trindade (Dick/Asimov/Clarke). Eu até entendo quando algum ficcionista, cuja profissão o obriga a tentar adivinhar o que vem por aí, vê com reservas os possíveis usos da inteligência artificial ou o uso de embriões em pesquisa com células-tronco, provavelmente algumas das grandes questões do nosso tempo, tanto quanto foi o suicídio em outros. Mas ver com maus olhos a difusão do conhecimento, seja por quais meios forem? Ranzinzice. Ou velhice, e geralmente os dois vêm juntos.
Mais um confundindo meio e mensagem. Logo essa geração morre e só vai ter livro em estantezinha de verdade quem quiser se exibir pros amigos. Porque estantezinhas virtuais pra exibir – e pessoas escolhendo cuidadosamente o que botar lá pra não afugentar seus pares -, já tem.
Fonte: io9 [via Luciana Santos, valeu Lu!].
Só a leitura salva?
Colocando a leitura dos feeds em dia, me deparei com este post do blog da amigolina @alinevalek com um vídeo (abaixo) sobre o poder transformador da leitura, e de como as pessoas que gostam de ler deveriam incutir nos cidadãos comuns o gosto por destrinchar compridas fileiras de caracteres impressos sobre películas de celulose encadernadas em tomos de espessura variável.
Manifesto – Só a leitura salva from Marcos Felipe on Vimeo.
Achei o vídeo simpático e esteticamente agradável, mas discordo. Tendo sido rata de biblioteca viciada em ler verbetes aleatórios da Enciclopédia Britânica na era de trevas pré-internet, eu entendo a intenção, e entendo que mais de vinte mil anos adquirindo e perpetuando conhecimento exclusivamente através da palavra escrita tenha tornado os humanos um tanto preconceituosos com as mídias novas. Mas ler não torna ninguém mais inteligente ou melhor do ponto de vista cultural que alguém que não curte leitura e prefere ver um filme.
É claro que ler desenvolve habilidades específicas — linguagem, imaginação, idioma… —, mas isso é uma particularidade da forma. Nós bem sabemos que o indivíduo que não sabe ler de verdade pode dar dores de cabeça ou no mínimo irritar, mas sua falta de habilidade em interpretar a palavra escrita diz mais sobre ele mesmo que sobre a superioridade da tal palavra escrita. Jogos, quadrinhos e filmes também têm outras particularidades específicas — linguagem, imaginação, continuidade, cultura… — que a leitura não tem. E é claro que algumas histórias funcionam melhor em uma mídia que em outra.

Vou apanhar na rua depois dessa.
É o mesmo caso da escrita cursiva: seus defensores dizem que ela é ensinada às crianças porque desenvolve habilidades motoras específicas, mas também dá pra desenvolvê-las de outras formas, como pintura, artesanato, etc. Hoje, as escolas estão aos poucos abolindo esse tipo de escrita, o que faz amantes de tipografia e caligrafia como eu chorarem de desgosto e profetas do apocalipse rasgarem suas vestes, mas é isso que vai acontecer. Resistir é inútil, e reclamar vai apenas nos tornar iguais aos velhinhos nostálgicos que achavam que inserir fichas no telefone público era bem melhor. Um dia todo mundo vai escrever em letra bastão ou de forma e a arte caligráfica vai ser um campo com uma aplicação bem diferente. Abolir o Sütterlinschrift não levou a Alemanha às trevas.
Dei uma olhada na minha lista de livros e filmes vistos nos últimos dois anos e concluí que as histórias mais cativantes, criativas, originais e inovadoras que vi neste meio-tempo estavam nos games. Demorou cerca de quarenta anos para os games conquistarem o interesse do meio acadêmico; o cinema, enquanto técnica de registrar imagens em movimento, tem pouco mais de cem anos de existência. Perto da escrita, estão apenas na infância, mas há tanto por desenvolver! Há tanto o que fazer! Ler é basicamente sobre story telling, não sobre concatenar palavras. Livro é o meio, mas o que importa é a mensagem. Por que ler a coleção Sabrina é melhor que assistir a Maria do Bairro? Por que ler Os Três Mosqueteiros de Dumas é melhor que jogar Assassin’s Creed?
Os mais de vinte mil anos adquirindo conhecimento através do livro fazem a gente achar que ler é a única forma realmente culta e válida de se ensinar, aprender, viajar no tempo e no espaço sem sair do lugar. É compreensível, explica, mas não é o único meio de enriquecer o indivíduo. Não há nada que o “poder transformador” de um livro tenha que também não esteja presente em um bom filme, música, HQ ou game. Filmes, músicas, HQs e jogos (e o que mais surgir dessa mistureba) não podem mais ser vistos como apenas filhos bastardos da palavra escrita*.
Uma revolução vem acontecendo nos últimos duzentos anos bem diante do nosso nariz. Confundir meio e mensagem só faz a gente perder o foco dela e se ocupar com toneladas de papel velho.
*Parafraseado de Scott McCloud, em “Desvendando os Quadrinhos”.
Brasil é ouro (prata e bronze) em olimpíadas robóticas
Realizado desde 2004, o RoboGames é a maior competição aberta de robôs do mundo. Com várias categorias como robô de combate, robôs jogadores de futebol, robôs artistas e humanóides, este ano contou com a participação de 17 países e quase mil engenheiros. Além de ser uma festinha em que engenheiros mostram que sua profissão é mais legal que a de 80% das pessoas do planeta, o evento não se limita a isso, publicando artigos sobre robótica e inteligência artificial a respeito de cada projeto apresentado ali, abrindo espaço também para amadores.
Na categoria de robôs combatentes, a equipe brasileira, apelidada de RioBotz, conseguiu ótimos resultados. Três ouros, três pratas e três bronzes garantiram lugar de destaque para a turma da PUC-Rio, além de outras quatro medalhas na categoria de sumô. Concorrendo em sete categorias com 18 máquinas, a mesma equipe vem marcando pontos na competição desde 2007.

O professor Marco Antonio Meggiolaro, que coordenou o time, conta que eles chegaram a desistir de uma das lutas. “Tivemos uma participação maravilhosa este ano, o que inclui uma dobradinha, onde teríamos uma luta entre dois de nossos robôs. Acabamos abrindo mão da luta e dando vitória para um dos robôs para poupar a máquina”.
A próxima RoboGames acontecerá na Califórnia, em abril de 2012.
[via Terra, dica do @rodrigofante]
Digitalizando livros físicos, um pequeno grande tutorial

Desde o surgimento dos livros digitais, há uma turma por aí que torce o nariz para eles, aparentemente sem motivo. Se antes não havia dispositivo que pudesse imitar a textura sem brilho do papel, hoje as vantagens de se ler a série A Song of Ice and Fire em formato digital superam muito as possíveis vantagens que poderiam haver em lê-la no livro físico, por exemplo. Daí se conclui que a turma supracitada tem algo mais parecido com uma parafilia, querendo sentir o toque e o cheiro do papel, e ver toda a sua coleção pegando poeira e sendo tomada por traças numa bela estante estrategicamente posicionada para impressionar as visitas. Mas tara é tara, e cada um com as suas.
O assunto deste texto, porém, é outro. Apesar de a disponibilidade de livros digitais hoje ser grande, podendo-se achar quase qualquer título nas Amazons da vida, nem tudo são flores. Aquele “quase” ali inclui livros acadêmicos, livros lançados apenas no Brasil (sejamos sinceros: nenhum serviço brasileiro de livros digitais se compara minimamente com a Amazon), edições antigas, e uma série de outras possibilidades que impedem leitores adeptos deste novo formato de conseguir ler em seus aparelhinhos. No Brasil, a demanda por livros digitais é ainda muito pequena, seja por falta de quem compre ou pela falta de eReaders, o que desencoraja editoras a digitalizar seu acervo.

