iPod — iParece que foi ontem

Um momento mindfuck para vocês, caros leitores: quem é mais antigo → o iPod ou os ataques de 11 de setembro de 2001?

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Incrivelmente, 11/9.

A percepção geral é que o iPod é algo que sempre existiu, mas quando Forrest Gump apareceu falando de seu investimento em uma empresa de frutas, nem na mente de Steve Jobs o iPod existia. Só viria a aparecer 7 anos depois, em 23/10/2001.

A introdução do iPod fez mais do que marcar a maior mudança da indústria musical. Foi o ponto na história da Apple em que ela deixou de ser uma empresa de frutas computadores e se tornou uma empresa de bens de consumo. As pessoas começaram a comprar Macs como acessórios para seus iPods, não o contrário.

Sim, durante um ano o iPod só funcionava em Macs, uma atitude ousada a ponto de ser considerada suicida, pois a fatia de mercado da Apple não era exatamente gorda. Claro, Macs eram usados por proto-hipsters, artistas e criativos em geral, e naquela época a frase “Mac é melhor pra gráficos” ainda era verdadeira, então havia poucos porém influentes usuários, não é como hoje, onde qualquer idiota tenho um Mac.

Um dos principais segredos do sucesso do iPad iPod foi não determinar forma a partir da função. Todos os outros players de MP3 eram parecidos com o carro do Homer, no clássico episódio onde ele projeta um automóvel e enfia todos os recursos possíveis e imagináveis.

Um amigo meu tinha um Nômade da Creative. Comportava mais músicas, tinha mais recursos mas era um trambolho. A interface, um horror:

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O iPod cabia no bolso, tocava suas músicas e servia como extensão de sua biblioteca no computador, só. Não era mais uma coisa pra você aprender a mexer. Apenas… funcionava.

Não é que não existissem players antes do iPod, da mesma forma que existiam tablets antes e depois do iPad, o que não existia era o produto correto. Como consequência a Apple abocanhou 80% do mercado logo após o lançamento e dez anos depois retém 78% de marketshare. CLARO, os analistas –os mesmos ou os pais dos que previram o fracasso do iPhone 4S- deixaram claro que o iPod seria um fiasco.

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Os usuários também concordaram. Por sorte Steve Jobs sempre foi fiel à máxima de Henry Ford: “Se eu saísse perguntando às pessoas o que elas queriam, responderiam ‘Cavalos mais rápidos’.”

O consumidor é confuso, tem visão de túnel e é conservador. A inovação bem-sucedida é a que cria o produto que o sujeito quer mas não sabe nem conceber. O Twitter é a idéia mais idiota e óbvia do mundo, poderia ter sido criado junto com o IRC, junto com a World Wide Web, mas só foi aparecer em 2006.

Perceber a simplicidade é a verdadeira genialidade. O iPod não é um amontoado de especificações técnicas, é uma caixinha que leva no meu bolso as músicas do meu computador, e não me enche o saco.

Isso era o que o consumidor queria, mas não os fanboys, a raça mais perigosa ligada a uma marca, pior até que os haters, pois fanboys costumam ter ainda um pingo de credibilidade. Ouvi-los pode ser fatal. Veja por exemplo os comentários do fórum do MacRoumours, no lançamento do iPod, no longínquo ano de 2001:

“iPoop… iCry. Eu esperava por algo a mais.”
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“Grande, justo o que o mundo precisa, outro maldito player de MP3. Vai Steve, cadê o Newton?”
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“Hey, algumas idéias, Apple: em vez de entrar no mundo dos brinquedos e gadgets, que tal gastar um pouco de tempo resolvendo sua pateticamente cara linha de servidores? Ou vocês realmente querem se tornar uma glorificada empresa de gadgets de consumo?”
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“US$ 400 por um MP3 Player!”
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“Eu chamaria de Cube 2.0 e não vai vender, será morto em pouco tempo, e não é realmente funcional”
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“Todo esse hype em torno de um MP3 Player? Dispositivo Digital Revolucionário? O campo de distorção da realidade está distorcendo a mente do Steve se ele pensa por um segundo que essa coisa vai decolar”
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“Esse iPod é para garotos ricos mimados com pais insanos ou fãs da Apple fanáticos como Talibãs. Ele tem boas características mas esqueça comprar um por US$ 399!!! Nunca, quem comprar essa coisa é uma pessoa muito estúpida!”
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“Steve Jobs está sob efeito de uma consultoria terrível ou muita maconha. A proposta não é realista. Se a Apple fizer algo assim de novo, vai falir”
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“Escolha ruim. O produto está fora da competência da Apple — dispositivos de computação. Quando a maioria pedia por um PDA, eles lançam um Player de MP3″

Ou seja: parabéns para a Apple por fazer a coisa certa, que continue mais 10 anos ignorando os fanboys, ignorando os especialistas e analistas de mercado e criando os produtos que as pessoas querem, não os que dizem querer.

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Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e promover seus últimos best-sellers O Buraco da Beatriz, Calcinhas no Espaço e Do Tempo Em Que A Pipa do Vovô Subia.

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