Resenha — 7 Dias em Entebbe (com spoilers)

José Padilha entrou em 2018 com tudo. Além de apresentar O Mecanismo, série sobre a Operação Lava-Jato que estreia na Netflix na próxima sexta-feira (23), o diretor está de volta aos cinemas com 7 Dias em Entebbe, uma produção de menor proporção se comparada a seu último filme mas que lança um novo olhar sobre aquela que é considerada a mais ousada missão de resgate de que se tem notícia.

Aviso: por se tratar de uma obra baseada em fatos reais, o post contém todos os SPOILERS possíveis e imagináveis sobre o filme (aliás entendam: filme histórico não tem spoiler). Leia por conta e risco.

O caso do voo Air France 139

No dia 27 de junho de 1976, um Airbus 300 partiu de Tel Aviv com destino a Paris. Após uma escala em Atenas e pouco depois da decolagem ele foi tomado por um grupo de quatro terroristas, sendo dois palestinos membros da FPLP (Frente Popular para a Libertação da Palestina) e dois alemães, Wilfried Böse e Bridgitte Kuhlmann, ligados ao grupo de extrema-esquerda da Alemanha Ocidental conhecido como Revolutionäre Zellen (RZ). Dos 248 passageiros, pouco mais de uma centena eram judeus ou tinham ligações com o Estado de Israel.

O avião foi desviado para Benghazi, Líbia onde permaneceu por sete horas para reabastecimento e reparos e então seguiu para Entebbe, na Uganda. Antes disso uma passageira britânica, fingindo estar sofrendo um aborto foi liberada e revelou o acontecido, que logo chegou à cupula do governo israelense.

Daniel “Barão Zemo” Brühl convence como o revolucionário alemão Wilfried Böse, um dos organizadores do sequestro

Com o tempo, os soldados de Uganda e os membros da FPLP começaram a separar os reféns, mantendo ao todo 106 indivíduos entre dois casais de judeus ultra-ortodoxos da Bélgica e EUA, israelenses não-judeus e um francês com dupla nacionalidade, além da tripulação do voo 139 que decidiu permanecer. O ato gerou pânico e pelo menos uma das passageiras, que fora sobrevivente do Holocausto teve um surto psicótico e mostrou a Böse sua tatuagem de prisioneira de um campo de concentração; Böse, que estava ali mais pelas ideias marxistas teria respondido que ele era “um idealista, não um nazista” mas é fato que mesmo com ele e Kuhlmann tendo organizado o sequestro, uma vez em Uganda eles não estavam mais no comando.

Segundo historiadores o plano de levar o avião para o território ugandense, distante a mais de 5 mil km de Israel consistia não só em deixar o país de joelhos, numa situação em que não poderia tomar outra atitude a não ser negociar pela liberação dos reféns (algo que historicamente era algo inadmissível para os israelenses) e fortalecer a imagem do então presidente Idi Amin Dada, um dos mais sanguinários ditadores que a África já viu junto aos aliados do bloco soviético, que estava em busca de armas e apoio militar (o fato do país ser membro da Commonwealth britânica era apenas um detalhe).

O filme mostra o embate ideológico entre Yithzak Rabin (dir., interpretado por Lior Ashkenazi) e Shimon Peres (esq., Eddie Marsan) sobre negociar ou não com os terroristas

No dia 28 de junho os terroristas fizeram suas exigências: um resgate de US$ 5 milhões e a libertação de 53 militantes palestinos e pró-Palestina, 40 mantidos presos por Israel. Caso não fossem atendidos até o dia 1º de julho eles começariam a matar os reféns.

A partir dali começou uma disputa de forças dentro do governo israelense, principalmente porque o então primeiro-ministro Yithzak Rabin estava disposto a rever seus conceitos e abrir um canal de negociação; no entanto o ministro da Defesa Shimon Peres era irredutível: “Israel não negocia com terroristas”. O problema era desenvolver um plano de ataque que cobrisse tal insana distância e pior, sob todos os aspectos invadir Uganda, o que poderia ser considerado um ato de guerra.

Enquanto o tempo passava e as ameaças poderiam se tornar reais (lembrando, Idi Amin era louco), a pressão popular fez com que Rabin aceitasse em primeiro plano abrir as negociações, o que estendeu o prazo dado pelos terroristas e consta inclusive que havia a intenção legítima de cumprir com as exigências, caso uma ação militar se mostrasse inviável. Porém, as engrenagens da inacreditável ação de resgate que seria conhecida como Operação Thunderbolt (ou Operação Entebbe) estavam sendo postas em movimento.

As Forças Especiais de Israel foram preparadas para chegar ao ao terminal desativado do aeroporto de Entebbe, onde os reféns estavam sendo mantidos com aviões C-130 Hercules e dois Boeing 707, partindo de Sharm El Sheikh na península do Sinai e sobrevoando o Mar Vermelho, a não mais do que 30 metros de altitude para não serem pegos pelos radares por cerca de 4.000 km. Ao todo foram deslocados mais de 100 soldados, entre os melhores do melhores para o que deveria ser uma ação cirúrgica: entrar, matar os terroristas e soldados ugandenses de prontidão e resgatar os reféns.

A equipe de assalto, composta por 29 soldados era formada inteiramente por membros da Sayeret Matkal, unidade de elite das forças israelenses. Seu comandante, de quem falaremos mais tarde utilizaria duas Land Rovers e uma Mercedes preta, semelhante a de Idi Amin de modo a enganar os soldados de Uganda que estivessem de guarda e ter o elemento surpresa.

O plano de resgate executado na Operação Thunderbolt é considerado o mais ousado da História

No dia 03 de julho de 1976, às 23 horas (horário de Israel) as forças de Israel chegaram a Entebbe. Ao descerem com os carros a uma certa distância, com a Mercedes à frente eles foram parados por dois sentinelas, que estranharam o veículo: Idi Amin havia recentemente comprado uma Mercedes branca, e a inteligência do Mossad não sabia disso.

Era hora de agir rápido: o grupo de assalto eliminou os soldados e correu rapidamente para o terminal, pegaram megafones e gritaram em inglês e hebraico “Fiquem abaixados! Somos soldados israelenses!” Em uma ação rápida os soldados mataram os terroristas e resgataram 102 dos 106 reféns: dois deles, o francês Jean-Jacques Maimoni de 19 anos e o israelense Pasco Cohen, de 52 foram mortos pelo grupo de assalto, o primeiro por não se abaixar. Já Ida Borochovitch, de 56 anos foi morto pelos terroristas no fogo cruzado.

A quarta refém morta foi Dora Bloch, que não estava no terminal: ela havia sido levada para um hospital após ficar doente e após a ação de resgate, ela foi morta pelos soldados de Uganda por ordem de Amin. Por anos o ditador negou qualquer ligação mas a verdade sobre seu destino veio à tona anos depois.

Ao todo o grupo de assalto sofreu uma baixa, justamente do comandante do ataque enquanto os combatentes do outro lado foram exterminados.

A história segundo as testemunhas

Só que o filme de Padilha não é uma ode a Israel: seguindo seu Modus Operandi o diretor decidiu contar a história de mais de um ponto de vista, principalmente mostrando que Wilfried Böse e Brigitte Kuhlmann não eram terroristas per se e estavam mais para idealistas marxistas, que não tinham a real dimensão de onde estavam se metendo. Ao se basear no livro de Saul David Operation Thunderbolt: Flight 139 and the Raid on Entebbe Airport, the Most Audacious Hostage Rescue Mission in History (tem na Amazon), que contou com depoimentos dos passageiros mantidos reféns e da tripulação, Padilha quebrou 7 Dias em Entebbe em um thriller com pelo menos três visões da mesma história.

Primeiramente há a posição de Böse e Kuhlmann, ele mais idealista que deseja “jogar bombas nas mentes das pessoas” ao invés de pegar em armas e ir até o fim, e ela mais pragmática e que vai se tornando cada vez mais cínica e depressiva conforme os dias avançam. Os dois alemães se deparam com a loucura aparente de Amin, que não titubeia ao dizer que mandará matar as crianças caso Israel não aceite os termos e a cumplicidade de seus aliados palestinos, que diferente deles entendem que aquilo é uma situação de guerra e que ingenuidade e idealismo é para os fracos, não para eles que perderam tudo e desejam se vingar de Israel.

Essa exposição dos terroristas como humanos comuns é corajosa, visto que geralmente o terror não deveria ser um elemento de simpatia mas é do Padilha que estamos falando, isso é próprio dele.

Segundo o livro e o filme, Böse não fez sua parte que era matar os reféns e mandou todos se abaixarem quando a tropa chegou, ordenando para que os demais terroristas se concentrassem nos soldados de Israel. Caso ele tivesse agido conforme o esperado, o número de mortos teria sido muito maior.

Segundo Padilha, a escolha de Rosamund Pike para viver Brigitte Kuhlmann foi acertadíssima: mesmo falando pouco alemão e “aprendendo foneticamente” em três semanas, sua pronúncia e entonação ficaram perfeitas e sua interpretação é excelente

O segundo núcleo, mais conhecido por ser bem documentado é a disputa entre Rabin e Peres, enquanto o primeiro quer negociar e evitar derramamento de sangue o segundo é inflexível e que Israel deve ser defendida com unhas e dentes, e que ceder a um grupo terrorista significaria ceder a todos os outros. Ainda assim, o ministro da defesa articula um plano de resgate antes que o primeiro-ministro dê a ordem, já que se alguém tem que morrer, que não sejam israelenses.

O terceiro núcleo é o abordado pelo soldado interpretado por Ben Schnetzer. Ele tem um dever a cumprir mas ao mesmo tempo deseja viver uma vida tranquila com sua namorada, que é dançarina e está tentando um papel numa peça, que será apresentada no dia da operação para a qual ele já foi destacado. Tal qual os reféns, ele é o elemento jogado numa situação onde ele só tem que seguir ordens e não possui controle.

A história no entanto é fiel em um ponto, o tenente-coronel que comandou a missão de ataque e que foi morto na ofensiva, e que hoje é considerado um herói de guerra em Israel. Sua retratação foi bem fiel e seu sacrifício motivou seu irmão mais novo a entrar na política posteriormente.

O nome do comandante era Yonatan e seu irmão é Benjamin Netanyahu, atual primeiro-ministro de Israel que é extremamente contra qualquer negociação de paz com as autoridades palestinas.

A morte do ten. col. Yonatan Netanyahu (de óculos escuros, interpretado por Angel Bonanni) durante a operação teve profundo impacto na política de Israel e do mundo nas décadas seguintes

No mais o curso de ação de 7 Dias em Entebbe é acertado, embora os cortes de lá para cá e a intercalação com os flashbacks de Böse e Kuhlmann quebrem um pouco o ritmo, mas não é nada que venha a comprometer a película. Ele só não tem muito cada de filme, está mais para um documentário dramatizado onde o espectador testemunha os fatos da História.

Conclusão

Segundo José Padilha, quando você produz um filme como o primeiro Tropa de Elite e sai batendo tanto na polícia, retratada como corrupta, violenta e despreparada quanto em programas sociais que não fazem nada que preste, mas que sabem fazer passeatas quando alguém morre e nada além disso, é preciso estar preparado para as críticas que virão de todos os lados.

O mesmo acontece com 7 Dias em Entebbe, que tal qual o livro de Saul David está sendo espinafrado pela crítica por um simples motivo: ele humanizou os terroristas e revelou que o sucesso da Operação Thunderbolt se deu em boa parte por causa deles, em especial Wilfried Böse e tirou boa parte do mérito das Forças Especiais de Israel. Curiosamente ele foi bem recebido por lá, mas nos EUA a crítica especializada está descendo a lenha; talvez por Padilha não aderir à narrativa de que o terror não pode ter um rosto e uma história.

O filme afirma explicitamente e através de metáforas, ilustradas pelas performances de dança incluídas durante o filme e nos créditos (Padilha originalmente queria incluir apenas a apresentação de Echad Mi Yodea da Batsheva Dance Company, de Ohad Naharin e que é executada quando a Operação Thunderbolt é posta em ação, mas foi convencido a utilizar mais uma) de que o caminho para coexistência entre Israel e Palestina não se dará de outra forma através de negociação e acordos, algo que Peres no início era extremamente avesso mas mudou de ideia posteriormente. Do contrário, ambos os lados só farão mal uns aos outros e não sairão do lugar.

Tecnicamente a produção é muito boa, tanto em direção e montagem (graças a Daniel Rezende, diretor de Bingo: O Rei das Manhãs e considerado um dos melhores montadores do mundo) quanto em fotografia (Lula Carvalho) e trilha sonora (Rodrigo Amarante), esta bem tensa quando preciso. O único problema é que geralmente num filme, você é levado a simpatizar ou se importar com alguém e em 7 Dias em Entebbe, quase nenhum personagem é carismático o bastante para isso, ao menos não os principais: você se compadece dos reféns, os únicos ali jogados numa situação da qual não têm nenhum controle. Entre eles, destacam-se o engenheiro de voo Jacques Lemoine (Denis Ménochet) e a passageira Dora Bloch (Trudy Weiss).

Cotação:

Quatro de cinco estrelas de Davi.

7 Dias em Entebbe estreia nos cinemas brasileiros no dia 12 de abril.


Diamond Films Brasil — 7 Dias em Entebbe | Em Breve nos cinemas

O Meio Bit compareceu à cabine de imprensa de 7 Dias em Entebbe a convite da Diamond Films.

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Autor: Ronaldo Gogoni

Um cara normal até segunda ordem. Além do MeioBit dou meus pitacos eventuais como podcaster do #Scicast, no Portal Deviante.

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