Equipamentos para retratos — falando um pouco de lentes

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Podemos dividir a fotografia em 3 elementos básicos: a câmera, o olhar e o objeto a ser fotografado. Há muitos anos já admiti que o meu objeto fotográfico primordial é o retrato feminino. Foi com ele que comecei minha carreira e é para ele que estou direcionando meus esforços agora que já passei dos quarenta anos. Não existe substituto para a sensação de fazer profissionalmente aquilo o que mais gosta. Tenho muitos alunos que estão começando na fotografia e procurando basicamente trabalhar com retratos. A área de ensaios de gestantes está bem aquecida e o que diz respeito a bebês e crianças sempre vai ter um mercado garantido. Porém, a principal pergunta deles é em relação a equipamentos.

O objetivo do texto é trabalhar a questão das lentes, que terão maior impacto em seu trabalho, mas podemos falar de câmeras. Sabe aquele papo de que quem faz a foto é o fotógrafo e não a câmera? Isso é verdade, mas se fosse a regra não existiriam tantas categorias de câmeras. Uma boa câmera ajuda em muito o seu trabalho com recursos e qualidade. Geralmente o pessoal que fala isso ou tem uma câmera top e não quer intimidar a galera ou não tem grana para comprar a câmera top e usa essa desculpa. No fundo todo mundo quer o melhor equipamento por dois motivos: por ajudar na qualidade do trabalho e por que é bacana bagaraio você ter o melhor equipamento (quem não gostou da honestidade que vá para outro blog de fotografia).

Porém, se você está começando e está pensando em trabalhar apenas com ensaios, é possível começar com as câmeras reflex de entrada. Fujam da abominação que chamam de câmeras semi-profissionais. As reflex de entrada possuem qualidade suficiente para iniciar na profissão e, como o ensaio é uma coisa tranquila e não necessita de muita velocidade ou durabilidade do equipamento, uma câmera mais parruda pode ficar para um investimento futuro. Se fosse para fazer eventos eu não indicaria uma câmera básica. E quanto à marca? Aquela que você mais gostar, pois todas apresentam uma qualidade de imagem bem interessante.

Mas, o que vai importar mesmo para retrato é a lente que você está usando. Vamos aqui a outro mito. A lente do kit é ruim ou posso utilizar ela profissionalmente? Você vai encontrar um monte de texto na internet e vídeos no Youtube dizendo que a lente do kit é legal para fotografar até profissionalmente. Mas, aqui vai a verdade. Ela é ótima até você ter um padrão de comparação. O dia que você tiver uma lente melhor cai a ficha e você vai odiar todas as fotos que fez até o momento. Não vou passar a mão na cabeça não. E aqui vai um exemplo. Nas duas fotos abaixo a primeira imagem foi feita com a 18-105mm f/3,5-5,6 da Nikkor (lente do kit de algumas DSLR da Nikon). A segunda foto foi feita com a 35mm f/1,8 da Nikkor. As duas fotos foram feitas com a mesma câmera e no mesmo evento com a mesma luz e mesmo flash. Vocês conseguem perceber a diferença? Só lembrando que a 18-105mm é uma lente mais cara do que a 35mm.

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Se você vai trabalhar com retratos o indicado é que você invista em um set de lentes fixas. Sim, as lentes chamadas de Prime. Elas não possuem zoom e, por isso mesmo, costumam entregar uma nitidez muito mais interessante e, na maioria dos casos, uma generosa abertura de diafragma. Uma lente zoom pode ser mais versátil, mas o fato de ter que apresentar diferentes distâncias focais acaba interferindo em sua qualidade ótica. Até as lentes profissionais apresentam essa deficiência. A lente nunca mantém a mesma qualidade ao longo de todo o zoom. Ou ela é boa em grande angular, ou é boa na tele, ou nas distâncias focais intermediárias.

Aliás, distância focal é a grande sacada da coisa. A distância focal é medida em milímetros e o valor apresentado é, na realidade, a distância entre o ponto focal e o sensor da lente. Uma lente funciona como o olho humano. A imagem entra e em um ponto específico ela acaba invertendo e se projetando de ponta cabeça no sensor da câmera. O ponto que ela se inverte é o ponto focal. Quanto menor a distância focal, mais ampla é a visão da lente. Quanto maior a distância focal, mais fechada é a visão da lente. Vejam abaixo uma representação disso.

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Duas características são importantes para o retrato na distância focal. A primeira é a questão da distorção. Quanto menor a distância focal maior será a distorção em direção às bordas da imagem. Ou seja, não é interessante fazer um retrato com uma lente em 18mm. O rosto da pessoa ficará deformado e você não quer que isso aconteça com as pessoas que pagaram pelo serviço. Abaixo temos um retrato feito com uma lente 18mm e depois o mesmo retrato feito com uma lente 100mm.

A segunda característica a levarmos em conta é a questão dos planos. Uma grande angular afasta os planos. Exemplo: você está em uma paisagem onde você vai retratar uma pessoa na frente de montanhas. Utilizando uma grande angular essas montanhas em segundo plano ficarão bem afastadas do primeiro plano onde está a pessoa a ser fotografada. Uma teleobjetiva tem um efeito contrário. Ela achata os planos. A lente trará as montanhas para muito mais perto do primeiro plano. Lentes com grandes distâncias focais (200mm ou mais) costumam, inclusive, diminuir a distância entre as partes do rosto. As orelhas ficam mais perto da linha dos olhos, o que acaba destruindo um pouco a tridimensionalidade da imagem.

Sabendo essas duas características o que podemos determinar? Distâncias focais mais elevadas são melhores para retratos. Sim, na maioria dos casos.

O que ensinamos normalmente é que lentes acima de 70mm são as mais indicadas para retratos. E mais, indicamos como o sonho de consumo de qualquer retratista a 85mm. E não precisa ser a profissional. A 85mm f/1,8 (Nikon ou Canon) são lentes absolutamente perfeitas para o retrato. A nitidez em f/2,8 é arrasadora e o bokeh é um dos mais bonitos que você vai encontrar em qualquer lente. Essa eu recomendo sem nem pensar.

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Canon 7D – EF 85mm f/1,8 – 1/200 – ISO100 – f/2,8

Embora seja a lente perfeita para retratos, a 85mm possui suas limitações. Por ter uma distância focal mais fechada ela não é de grande usabilidade em ambientes pequenos (ainda mais se você utilizar uma câmera cropada). Ela é indicada para espaços mais abertos e estúdios fotográficos mais amplos. No primeiro estúdio que tive era praticamente impossível utilizar uma 85mm em retratos de meio corpo. Então, qual a solução?

Uma 50mm f/1,8 pode ser utilizada sem problemas. Em uma câmera cropada ela vai ter o ângulo de visão de uma 75mm e a distorção (pouca) pode ser corrigida sem problemas em um programa de edição de imagem. A 50mm é uma lente com grande desempenho ótico e com valor acessível. Se não tem como investir em uma 85mm agora, ou o espaço que usa para fotografar é muito pequeno, então a 50mm é o melhor caminho para você.

lente50mm

Nikon D7100 + Nikkor 50mm f/1,8D – 1/200 – ISO100 – f/9

Mas, e se você não consegue viver sem uma lente zoom? Procure trabalhar com as maiores distâncias focais da lente e pesquise por uma lente que tenha um bom rendimento de nitidez nessa região. A 24-70mm f/2,8 costuma ser uma boa lente para essa atividade. Se você também fotografa eventos ela é um bom investimento para ambas as áreas. Mas, você pode me dizer que ela é uma lente cara. Sim, ela é. Mas, se você vai começar uma empresa o investimento nas melhores ferramentas tem que ser feito. Vamos parar com o mimimi de que não tenho dinheiro, sou pobre. Programe-se e faça os investimentos. Você agora é um empresário. A 24-70mm também resolve o problema dos estúdios pequenos e a qualidade ótica da lente é bem aceitável.

Nikon D7100 + Sigma 24-70mm f/2,8 – 1/160 – ISO100 – f/14

Mas, e as grande angulares? A regra é clara. Não usamos grande angular para fazer retratos, mas quem se importa? Regras são feitas para serem quebradas e o dono da fotografia é você e não quem cria as regras idiotas da vida. Essa é a maravilha da fotografia. Ninguém tem o direito de dizer que o que você está fazendo está errado, pois a imagem é a sua visão de mundo. Eu posso dar minha opinião para seu trabalho, mas cabe a você aceitar ou não essa opinião. É preciso personalidade na produção fotográfica.

Em alguns momentos eu realmente utilizo grandes angulares para retratos. Um desses momentos é quando quero dar uma estética diferente para a imagem, utilizando justamente a grande distorção da grande angular. A foto abaixo foi feita com uma lente Sigma 10-20mm f/3,5-5,6 com a distância focal em 10mm. Vejam a distorção nas bordas da imagem deixando o pé da modelo muito desproporcional ao resto do corpo. O objetivo foi realmente causar esse efeito.

Outra necessidade é quando um ângulo específico é impossível de ser realizado com uma lente com distância focal acima de 50mm. A foto abaixo foi feita em local aberto. Não havia cadeiras ou escadas por perto. Então eu só fiquei em pé do lado da modelo. Utilizei uma lente 28mm f/1,8 da Canon.

Canon 30D + EF 28mm f/1,8 – 1/160 – ISO100 – f/4,5

Ou, você pode simplesmente gostar da estética de uma lente. Recentemente comprei uma lente Sigma 30mm f/1,4 Art. Ela é uma lente relativamente barata. Muita gente fez review negativo da lente por conta de detalhes bobos. Resolvi apostar e não me arrependi. Uma lente muito clara e com uma nitidez muito legal. Bate tranquilamente a 50mm nesse quesito e fica bem perto da 85mm. O bacana é que essa nitidez se mantem aceitável mesmo na abertura máxima de diafragma. Um investimento muito interessante.

Nikon D7100 + Sigma 30mm f/1,4 Art – 1/160, ISO200, f/4

O importante é que existem características em cada lente e distância focal. Você deve saber como essas características vão influenciar em seu retrato e, acima de tudo, aplicar a estética que mais lhe agrada.

P.S. — claro que toda vez que utilizamos uma lente grande angular para retrato é necessário corrigir a distorção na hora da pós-produção. O Lightroom tem uma ferramenta muito eficiente para isso.

P.S. 2 — muita gente utiliza a 100mm macro para retratos. A vantagem é poder fazer detalhes bem próximos ao rosto. Infelizmente não tenho uma na bolsa para poder mostrar a vocês.

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Autor: Gilson Lorenti

Geógrafo de formação e fotógrafo de coração, comecei a fotografar com 18 anos de idade (antes disso nunca tinha pegado uma câmera na mão). Depois de muito estudo veio a carreira profissional que passou por várias modalidades da fotografia até realmente descobrir o que gosto de fazer. Hoje me dedico ao ensino de fotografia, fotografia Fine Art e Books Fotográficos (gestante, moda, sensual). Tomando emprestado as famosas palavras de Ansel Adams “Quando as fotografias não forem mais suficientes, me contentarei com o silêncio”.

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  • elrafah

    Ótima explanação, Gilson! Estou querendo começar nessa área e o texto realmente, para mim, foi de grande valia. Muito obrigado!

  • Vagner Da Silva

    Isso me lembra quando me meti numa discussão sobre deformação de lentes em software de Animação 3D, na ocasião foi sobre como uma grande angular aumentava o queixo se estivesse numa posição baixa… Foi quando descobri que toda discussão de internet já nascia perdida, não adianta mostrar fontes sobre o assunto(principalmente em inglês), a opinião da maioria está sempre certa, foi o que disseram.

  • Davi Leichsenring

    Depois que comprei minha primeira lente da linha red da Canon (50mm), não consegui mais tirar foto com as lentes básicas (18-55mm). Até tentei, mas é uma diferença muito visível.

  • Christian Oliveira

    Nitidez, sempre!

  • Carlos Ferreira

    Como não tenho grande angular de boa qualidade. As vezes ainda utilizo a lente do kit para algumas coisas. E a verdade é que ela perde muita nitidez perto da abertura máxima(e mínima). E como já é uma lente escura, só consegue fazer fotos razoáveis quando se tem uma iluminação realmente muito boa.

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