Resenha — do autor de Ready Player One, Armada

armada

The Last Starfighter foi um filme favoritos de Sessão da Tarde. A história era extremamente simples, mas quase clerical da forma em que tocada fundo os garotos da época. Alex Rogan era um adolescente sem muita perspectiva morando em um parque de trailers nos EUA.

Ele só era bom em uma coisa, jogar fliperama (“arcade” é coisa de millennial colonizado). Só que em 1984 isso não era carreira como hoje.

Eis que Alex consegue zerar Starfighter, é meio que sequestrado por um coroa maluco com um carro prateado voador (o que você está pensando é de 85, calma) e descobre que o jogo era um teste para encontrar pilotos natos, que seriam recrutados para defender a galáxia.

“Saudações, Starfighter, você foi recrutado pela Liga Estelar para defender a fronteira contra Xur e a Armada Ko-Dan”

Todo trekker que viu Galaxy Quest adorou a cena em que os fãs do seriado descobrem que era tudo verdade. É uma fantasia básica, do mesmo jeito toda criança que viu Star Wars tentou em algum momento mexer um objeto usando a Força, e todo fã de Harry Potter brandiu sua varinha dizendo “Expecto Patronum”, com esperança não-zero de que desse certo.

Armada, de Ernest Cline é basicamente The Last Starfighter, mas como ele referencia o filme nominalmente no texto, se blindou das acusações de ter kibado o conceito. Cara esperto.

No livro Zack Lightman é um jovem que mora com a mãe viúva e tem um passado conturbado. Seu pai morreu em um acidente em uma obra, Zack era atacado por bullies até que um mexeu com a memória do pai e Zack o mandou para o hospital.

Sem muita perspectiva, ele passa o tempo trabalhando em uma loja de videogames no shopping, cujo dono é uma mistura de milionário de internet com o Woz, e jogando videogames com os amigos. Ele é um dos 10 melhores do mundo em Armada, um simulador de combate espacial multiplayer.

Zack venera a memória do pai, então leu viu e ouviu tudo de sua coleção audiovisual, centrada nos Anos 80. Ele adora Pac-Man, seriados antigos, vive fazendo referências a séries velhas e filmes (sim, você já leu algo assim).

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Um diz Zack está na sala de aula e vê pela janela algo muito estranho, um OVNI que era idêntico a uma das naves inimigas no Armada. Como isso não fazia sentido, ele não conta para ninguém, mas resolve investigar os objetos do pai, e descobre que ele era um teórico da conspiração, defendia que um plano de uma organização secreta estaria preparando a Humanidade para o primeiro contato com extra-terrestres, e toda a mídia: quadrinhos, seriados de ficção científica, Star Wars, videogames, tudo estava direcionado para familiarizar as pessoas com essa idéia.

Até Carl Sagan era parte do plano.

Ele começa a investigar a teoria do pai, mas é interrompido quando pousa no quintal da escola uma nave da Aliança de Defesa da Terra, igual ao jogo Armada, e um oficial de uniforme procura por Zack Lightman.

Ele descobre que a teoria da conspiração era verdadeira, mas que o primeiro contato não havia sido amigável. Alienígenas de Europa tentavam, em intervalos regulares, atacar a Terra e a defesa era feita por uma força internacional secreta, a Aliança. Milhares de pilotos comandavam drones, e sem saber a última missão de Zack foi real, ele atacou de verdade a base inimiga.

Sim, eles citam nominalmente Ender, portanto você não pode acusar Cline de kibar Orson Scott Card.

Óbvio que ele encontra uma hacker gamer nerd gatinha chutadora de bundas de cabelo colorido que também adora trívia dos anos 80, claro que a morte do pai faz parte do mistério, e claro que os jogadores de videogame do mundo todo combatem os alienígenas na batalha final.

//FIM DO RESUMÃO

Se eu estivesse num dia de má-vontade, diria que o livro é a mesma coisa que o Ready Player One, mas não é. Sim, o fator nostalgia está lá, mas não é o foco da história, o livro funcionaria mesmo se fosse 100% focado em jogos atuais.

Também me peguei reclamando de coisas como naves super-rápidas e comunicação instantânea, até que me toquei: Armada não é The Martian, nunca teve pretensão de ser. Ernest Cline não é Phillip K. Dick, não é Asimov, ele é George Lucas. Quer contar histórias simples para um público infanto-juvenil.

Sim, crianças, adultos saudosistas NÃO são o público desses livros, e sim seus filhos. As referências são uma forma de mostrar aos filhos um pouco do mundo dos pais, e se recrutar adolescentes para salvar o mundo soa bobo em um livro, azar o seu, que esqueceu de quando assistia Power Rangers e dezenas de outros filmes e séries com o mesmo cenário.

Armada é uma história simples mas honesta. O autor não tenta nenhum grande floreio estilístico ou de conteúdo, as duas grandes revelações da história são telegrafadas, a gente percebe quilômetros antes. Mas eu não sou o público-alvo principal do livro.

Curiosamente uma parte que piorou em relação ao bom Ready Player One é que em Armada o autor aprofundou mais os personagens e suas motivações, mas fica evidente que Cline assistiu muita TV nos anos 80, só não aprendeu como criar personagens originais, então ele passa páginas e páginas definindo personagens que são exatamente iguais aos que a gente já viu milhares de vezes em outros livros e filmes.

Até os membros da tripulação da base secreta na Lua (CLARO que tem uma base secreta na Lua) são clichês. Em alguns momentos dá quase para visualizar as cenas dos filmes de onde Cline buscou inspiração.

Um ponto BEM positivo é que o livro subverte boa parte das tropes de filmes do gênero, e o protagonista o tempo todo reclama que não faz sentido os aliens de verdade se comportarem como inimigos de videogame. Isso só é explicado no final, e admito que foi uma ótima sacada.

De um modo geral Armada é um livro mediano, que adolescentes vão adorar, e dará um ótimo e esquecível blockbuster, que já está sendo produzido. Melhor que Ender’s Game com certeza será.

Cotação: 2,5/5 David Lightmen. Sim, Cline, todo mundo percebeu que você batizou seu protagonista “homenageando” o personagem principal de Wargames.

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Título: Armada

Autor: Ernest Cline

432 páginas

Preço: R$ 18,60 na Amazon, promoção camarada, livro de verdade. Para Kindle sai a R$ 24,79. Não, eu não sei por que ebooks não se popularizaram, não me pergunte.

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Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e promover seus últimos best-sellers O Buraco da Beatriz, Calcinhas no Espaço e Do Tempo Em Que A Pipa do Vovô Subia.

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  • Rodrigo Primon Savazzi

    Cardoso, já que resenhou outro livro do Ernest Cline, chegou a ler a fanfic do Andy Weir no universo do Ready Player One? É curtinha e, pra mim, a prova cabal de que o autor do The Martian é um escritor muito melhor.

    • Nope. Só ouvi falar.

      • Rodrigo Primon Savazzi

        Então leia que vale a pena, é curtinho… Se me recordo bem chama “Lancero”. Complementa muito bem bem a história e dá um background foda pra um personagem. Pode me agradecer depois… 😉

  • Hemeterio

    Falando no dr. Emmet Brown: me toquei que nao ligo pro que o Obi-Wan faz em Tatooine, mas adoraria ver um spin-off de como o Doc conseguiu o plutônio, passou a perna dos líbios (e saber como os líbios entraram de turbante nos USA numa boa) e escapou vivo. Ou quase.

    • Oberaldo Gilmentoo

      Provavelmente se v. procurar pela internet deve ter fan fictions explicando detalhadamente tudo isso, bem como explicando detalhadamente toda a vida do Emmet Brown entre 1955 e 1985, e etc. 😉

  • Oberaldo Gilmentoo

    O primeiro “Jogo do Exterminador” do Scott Card foi um conto de 1970 e poucos (tenho aqui a Isaac Asimov Magazine dos anos 80 em que ele foi publicado no Brasil). Como deu certo, e como o Scott Card não é lá tão criativo assim, ele expandiu em um livro; como deu certo e como o Scott Card não é lá tão criativo assim (acho que eu já disse isso?), ele escreveu um monte de livros e todo um universo sobre isso*.
    Mas o caso é que as idéias não são tantas. As poucas idéias que aparecem são trabalhadas, recicladas, utilizadas até à exaustão, fundidas, etc. etc., até que, de vez em quando, aparece uma idéia nova…

    * A primeira sequencia de “O Jogo do Exterminador” é particularmente engraçada porque envolve um planeta colonizado por baianos, então nomes de lugares e personagens são tirados do português, mas, como o autor não é tão poliglota assim, a conversa toda soa PT-Portugal, e não PT-BR. Mas provavelmente só brasileiros percebem isso.

    • Rijanio

      Colonizado por baianos?! Valeu pela citação, vou procurar

    • Vagner Da Silva

      Eu sabia que era ficção cientifica mórmon, mas universo colonizado por baianos que falam português de Portugal eleva isso pra outro nível.

    • Murilo Corrêa

      Vale a indicação do Audiobook, é hilário os narradores tentando falar português com sotaque americano hahaha
      O que mais me incomodou no começo com Speaker for the Dead, é o nome de uma personagem ser NOVINHA!! é muito zoado, mas eu gostei mais da continuação do que do Ender’s Game

    • ²He

      Seram o “Orador dos Mortos” e/ou o “Mundo do Exterminador”?
      Ja tenho aqui, agora tenho um incentivo pra ler ^^

  • Yskar

    Curiosamente eu gostei mais de Armada do que do Ready Player One, é bem clichezado mas é legal.
    Eu daria 3,5 pra ele, é passável e daria um bom filme sessão-da-tarde.

  • Resumindo

    Cline é um sujeito sem imaginação, mas esperto. Sabe da sua incompetência de criar personagens marcantes, então, kiba descaradamente as obras dos outros e cita personagens e obras alheios na maior cara-de-pau fingindo que está fazendo uma referência, homenagem, sei lá, ganhando assim a simpatia do pessoal de meia idade.

    Não, o foco não são os adolescentes. De cara dá pra perceber isso, bastando conhecer minimamente como adolescente pensa. E eles não estão nem aí pros personagens velhos (aka, obras de antes deles nascerem)

    • Resumindo: tese de TCC. 80% referência de outros autores, 15% enrolação e 5% conclusão.

  • Vagner Da Silva

    O clichê por causa da glamurização da critica ficou estigmatizado como algo terrível, mas tem uma função essencial de resumir o story-telling, o mesmo papel do arquétipo. Um clichê resume o universo, a personalidade e motivação para algo conhecido e dá uma sensação de intimidade… não quer dizer que é ruim e nem sempre é, mas pode ser que pode seja muito ruim.

  • Mestrechronos Daiô

    “se recrutar adolescentes para salvar o mundo soa bobo em um livro, azar o seu, que esqueceu de quando assistia Power Rangers…”

    No caso da velharada não: Changeman eram militares de altas patentes e os Flashman passaram 25 anos em treinamento nos planetas Flash.

  • ThiagoCasao

    5/7

  • Ready Player One é o fucking melhor livro que já li na vida (esse ano).

    Jogadores de World of Warcraft (ou qqr MMORPG) se identificam fortemente.

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