Resenha — Ready Player One / Jogador Um

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Fanservice. Saudosismo. Clichê. Fanfic. Nerd Pr0n. Você vai ver muita gente acusando o filme e por extensão o livro Ready Player One, de Ernest Cline de tudo isso e mais. As reações ao trailler se dividiram entre gente achando o máximo aquele monte de referências aos anos 80 e gente cuspindo com nojo, acusando Steven Spielberg do pior crime (na visão deles) que um criador pode cometer: dar ao público o que ele quer assistir.

Se você se divertiu com a turma raivosa, compre pipoca pois se o filme for 10% do livro, essa gente vai espumar. Ainda mais por não entenderem a diferença entre citação e referência. Ready Player One trabalha sim em cima do saudosismo dos Anos 80, mas ele é explícito, não sugerido. Não se critica um pornozão por ter closes explícitos daquilo naquilo. Já um filme normal com muita apelação, é diferente.

Ready Player One é Pr0n puro e como todo bom pornô, tem uma justificativa, mas em vez de um entregador de pizza e uma ninfomaníaca hipossuficiente, temos uma versão nerd da Fantástica Fábrica de Chocolate.

Sim, a história não é 100% original, get over it, tudo é um remix.

Sinopse

Wade é um nerd tetudo bem menos pintoso que o ator que escolheram para o filme. Ele é um loser em um mundo onde todos são losers. Depois de 30 anos de recessão o mundo está indo pro ralo, ele é um órfão que mora com a tia em um parque de trailers vertical em Columbus, Ohio, a um passo de virar sem-teto.

A grande aventura escapista de todo mundo é o OASIS, uma espécie de Holodeck de Pobre, mistura de MMORPG e internet onde em vez de home banking você usa um avatar em realidade virtual para entrar na fila virtual e ser atendido pelo caixa virtual, yay progresso!

Esse grande ambiente virtual, com dezenas de milhares de mundos, aventuras, magos, naves espaciais, superpoderes e recriações de cenários de filmes se chama OASIS. Foi criado por James Halliday, um programador excêntrico e recluso com ares de Steve Jobs.

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Antes de morrer Halliday pagou de Wonka e decidiu doar toda sua empresa e fortuna de centenas de bilhões de dólares ao primeiro avatar que conseguisse decifrar os enigmas que espalhou pelo OASIS. Os enigmas são todos baseados nas memórias de infância de Halliday, passadas nos anos 80 e por isso criou-se toda uma cultura obcecada com o passado.

Além de inúmeros caçadores dos Ovos de Páscoa que Halliday espalhou pelo OASIS, há uma Evil Corp™, a OCP da Vez, disposta a tudo para colocar a mão na fortuna e passar a cobrar mensalidade do OASIS, entre outros planos malignos.

Se nesse ponto você está achando chato, com o bichinho do déjà vu soprando na sua orelha, você não está errado, É uma clássica Jornada do Herói, mas é um Matrix ao Contrário. Nada do que você faça no OASIS afeta sua vida real (exceto gastar dinheiro comprando porcaria). Não há nenhum se você morrer no OASIS morre na vida real.

Até na escola que Wade frequenta, o conflito é apenas verbal, a escola é uma zona sem PvP.

Talvez por não ser saudosista, ao menos não como maníacos tipo o Izzynobre, eu não tenha me entusiasmado muito com as sagas e combates. Sim, o Final Boss foi excelente mas foi telegrafado de longe. Em boa parte do livro parecia que eu estava vendo alguém narrar uma partida de algum adventure no Twitch.

Aí Wade começou a sair do OASIS, e finalmente, finalmente você começa a se identificar com o personagem. Quem diria que ser uma pessoa de verdade correndo riscos no mundo seriam melhor em humanizar um personagem do que um avatar de um guerreiro cascudo superpoderoso…

Wade, ou Parzival, como seu avatar é chamado é melhor amigo de Aech, um outro caçador de ovos de páscoa bem mais rico. No começo da aventura ele conhece “fisicamente” Art3mis, uma caçadora, blogueira, gatinha (ao menos no avatar) e se apaixona na hora, se bem que já era fã dela faz tempo. Sim, Art3mis é uma Manic Pixie Dream Girl (CUIDADO! TV TROPES) descrita de forma quase didática.

Será que Wade vai conseguir vencer todos os milhares de caçadores, E a Evil Corp? Quem ganhará a Fábrica de Chocolate?


Warner Bros. Pictures — Ready Player One – SDCC Teaser [HD]

As Referências

Vou ser sincero: comecei a ler o livro com muita má-vontade, mas as referências não me incomodaram. Juro. Quando tentei ler O Homem Que Matou Getúlio Vargas tive a impressão que o Jô Soares havia comprado uma enciclopédia e estava querendo mostrar a todo mundo que tinha lido. Em Ready Player One não se percebe isso.

O autor, Ernest Cline, fez seu dever de casa mas soube quando dar um passo atrás. Em determinado momento Wade é surpreendido quando Art3mis ensina um bug em um videogame antigo para conseguir mais vidas. Na realidade não era um bug, era uma feature, fazia parte de um grupo de 15 cheat codes colocados pelos programadores originais (sem link para não virar spoiler).

Se eu descobrir isso em 15 s de Google obviamente o autor sabe, mas não pagou de Jô e colocou o personagem para recitar seu conhecimento enciclopédico.

Ready Player One é um mundo onde os caçadores são obcecados com os anos 80, enquanto o resto do mundo já desistiu da caçada, depois de anos sem nenhum avanço. Eles gostam de jogos antigos, se reúnem para assistir velhas séries e conhecem seus filmes antigos favoritos de cor e salteado.

Você sabe, igual a gente faz quando está com os amigos no bar e passa da 4ª ou 5ª cerveja e alguém reclama dos desenhos modernos.

Todo o saudosismo de Ready Player One não é apresentado como conhecimento estéril e arrogante, nem como ah bons tempos, muito melhor do que hoje. As referências são feitas pela nova geração, são os jovens apreciando toda uma cultura pop que vicejou quando eles nem eram nascidos.

ISSO eu posso compreender. Sei como é a sensação, sinto o mesmo quando vejo os vídeos do John Hess sobre os primórdios do cinema e suas técnicas. Os vídeos do Techmoan são a mesma coisa: uma janela para o passado, mas sem o filtro saudosista.

É preciso pegar as referências?

Não, o livro não tem nenhuma referência que não seja parte do enredo e que não seja explicitamente apontada. Elas vão de colherinha, e se você ficar curioso sempre pode parar e procurar no Google. No mínimo você vai descobrir Rush e isso é sempre bom.

É preciso ter vivido os anos 90/80?

Não, mas ajuda.

Qual a melhor parte?

No OASIS existe o Planeta Transexual, com centenas de estádios passando continuamente cópias do The Rocky Horror Picture Show. Nada pode ser mais épico que isso.

Qual a maior surpresa?

Quando você começa a se importar com o nerd tetudo pois percebe que ele está reconhecendo na infância difícil de Halliday partes da própria vida. É quando cai a ficha de que não é só ele que vive o só sou famoso na internet. Mesmo podre de rico Halliday tinha no mundo de fantasia seu único espaço seguro. É um momento forte, onde Wade desenvolve empatia, talvez pela primeira vez.

É tipo Dan Brown, o cara escreveu um filme?

Não. Pela quantidade de referências usadas somente um louco, ou alguém tipo Spielberg ousaria filmar aquilo. Imagine Uma Cilada para Roger Rabbit, mas onde cada personagem fosse de uma empresa diferente e tivesse um contrato de licenciamento isolado. Ready Player One tem um monte de sequências passadas dentro de outros filmes, e filmes caros. Refazer essas sequências vai custar uma fortuna, e só a parte em CGI, os advogados já estão salivando.

Dito assim parece fanfic

Qualquer fanfic boa o bastante pra Steven Fucking Spielberg é boa o bastante para mim.

Vale ler ou melhor esperar o filme?

Leia, sempre vale a pena ler o livro. Várias partes legais não vão ser adaptadas, e é sempre divertido reclamar disso no chopp pós-cinema.

Ready Player One pode ser comprado na Amazon por razoáveis R$ 26,90.

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Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e promover seus últimos best-sellers O Buraco da Beatriz e Calcinhas no Espaço.

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