Tecnologia de caça a fantasmas usada para tratar câncer

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O que chamamos de câncer é um amontoado de doenças com causas, origens, comportamentos e prognósticos diferentes. Alguns são causados por um vírus, outros, por exposição excessiva a sertanejo universitário. Isso dificulta o tratamento, mas a radioterapia costuma ser bem eficiente.

O problema é que radiação eletromagnética tem a inconveniente mania de ser imprecisa. Evita-se isso em alguns casos implantando uma semente radioativa no tumor, o que nem sempre é possível. Tratamentos com raios-x funcionam mas causam muitos danos a tecidos saudáveis, ondas eletromagnéticas não são precisas e tendem a se espalhar. Eu culpo Maxwell.

Uma alternativa, proposta em 1946 e usada desde então é o tratamento com feixes de prótons. Um acelerador de partículas acelera as partículas próximo da velocidade da luz. Carregadas com doses imensas de energia cinética, elas são preparadas para atingir com precisão o tumor. Colidindo com os átomos malignos, os prótons literalmente os destroem, inutilizando o DNA canceroso além da capacidade de reparação das células.

Como é um feixe colimado de partículas, e não uma onda, os prótons não se dispersam, causando pouco dano ao tecido próximo. Carregando-os com a quantidade correta de energia é possível fazer o feixe chegar ao tumor com eficiência máxima, mas dali em diante perder rapidamente seu efeito.

Essa tecnologia é incrível e parece algo saído de Star Trek:

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Aí você pergunta: como esse negócio não está instalado em todas as UPAs?

Vejamos o outro lado do sistema (literalmente):

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Prótons sem alta energia, acelerados, são inúteis. Veja seu cunhado, está cheio deles. É preciso um acelerador de partículas, no caso um síncroton para energizar os prótons. Originalmente ocupava o espaço de uma quadra de tênis. O da imagem acima é basicamente modelo portátil. Isso, como você já deve ter deduzido, custa muito caro, consome eletricidade a rodo e precisa de manutenção constante.

Robert Johnson é um físico que está tentando melhorar isso. Ele trabalha no Centro de Medicina de Prótons de Chicago Noroeste (detesto traduzir esses nomes) e desenvolveu uma técnica para minimizar a exposição a raios-x e facilitar os cálculos do canhão de prótons.

É preciso determinar com precisão pentelhométrica a posição e as dimensões do tumor dentro do paciente. Usa-se tomografias por raios-x para isso, o que significa mais radiação E as contas precisam ser feitas do zero para determinar a potência dos prótons.

Ele está recriando uma antiga técnica de imagem usando… prótons. É como uma tomografia por pósitrons, mas em vez de antimatéria usa… você já deduziu.

A desvantagem é que a imagem gerada pelos prótons não tem tanta resolução quanto os raios-x, mas é boa o suficiente para identificar as fronteiras do tumor, e já traz no pacote todos os dados de energia que os prótons precisam para chegar até ele.

É como se em vez de mandar o estagiário percorrer a pista, criar um mapa e depois o piloto o estudasse para a corrida, no caso o próprio Ayrton Senna pega um Fiat Uno e anda sem pressa por todo o circuito, o aprende e depois é só trocar de carro.

Tomara que essa técnica funcione tão bem quanto promete, precisamos de mais centros de tratamento com prótons. Nos EUA só há 25. No Brasil, não tive coragem de pesquisar.

Fonte: Wired.

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Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e promover seus últimos best-sellers O Buraco da Beatriz e Calcinhas no Espaço.

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  • Robert Johnson é um físico que está tentando melhorar isso.

    Por um segundo pensei que era o Egon Spengler que estava tentando melhorar isso…

  • Se não me engano o Brasil não tem e nem é surpresa, o equipamento é caro pra diabo e os custos dos exames são estratosféricos mesmo na civilização. No Reino Unido em 2014 cada exame saía por 100 mil libras, tanto que o SUS de lá só cobre para câncer ocular.

    Quem poderia bancar um aqui é o Laboratório Nacional de Luz Síncrotron, com o Projeto Sírius.

    • Mas somos o 5o país a dominar a tecnologia de dirigíveis.

      • Lucas Timm

        E o petróleo é NOSSO

        • Ivan

          Isso é o mais importante, por isso todos abastecemos de graça…

          • Belkar

            Não rola acelerar os prótons com vento estocado?

          • Ivan

            Primeiro temos que implantar essa tecnologia, vamos um passo por vez.

    • Antonio

      Apenas acelerador de elétrons

    • Hyran

      Algumas instituições já estudaram a fundo a possibilidade. Em termos de mercado, caberiam 2 na América Latina inteira. Osvaldo Cruz e Einstein por exemplo, investiram tempo, esforço e grana nesse plano de negócio que se mostrou inviável por enquanto. Mesmo especialistas em Radioterapia ainda têm dúvidas acerca da correta utilização. Últimos estudos mostraram resultados estatísticos muito próximos da radioterapia convencional. De qualquer maneira o assunto ainda é quente nos grupos hospitalares…

      • Zaaboo

        Eu li algumas propagandas com discussão sobre o tratamento, a atenuação da dose depois do ponto mais alto é bem interessante. Pelo menos no material que o fabricante oferece parece beeem interessante, principalmente para quem está sendo tratado, haha. Mas de fato, pra quem investe há de se pensar.

  • Calvin Coisa Ruim

    Cardoso, sem querer ser chato e já sendo, não é que o feixe de prótons não seja uma onda: tudo nessa escala de tamanho se comporta como onda/partícula. A questão é que os prótons são acelerados em warp 3, contém um porrilhão de energia cinética, quanto maior a energia maior a frequência da onda correspondente, e portanto menor o comprimento de onda. Quanto menor o comprimento de onda, menor a incerteza quanto a posição da partícula/onda, por isso a precisão é maior.
    De resto, como você bem explicou no artigo, o segredo tá na energia.
    Aliás, parabéns, artigo bom como sempre.

  • OverlordBR

    Ah, Ciência… esta linda!

    Legal a diferença visual nas imagens: a parte para o paciente, clean e agradável parecendo realmente algo de Star Trek… e, depois, toda a bagaça necessária “por trás” para fazer aquela belezura funcionar.

    • Nícolas Wildner

      Parece umas infraestruturas de rede que peguei por aí.

      As estações lindas e o 7S fiscalizando tudo, mas é cada hub cascateado escondido e com bosta de rato em cima…

      • Harlley Sathler

        Um amigo meu chama isso de “Topologia Favela”. Trabalhei em um lugar onde os trinta e poucos computadores do prédio, ligados numa porrada de switch encore todos cascateados, saíam para a rede geral (que ficava no prédio da frente) por um único cabo UTP. Descobri isso no dia em que os operários de uma obra romperam esse cabo e todas as máquinas do meu prédio ficaram offline.

        • Pai De Santo

          Vich, eu entraria em “modo Regina Duarte” diariamente se trabalhasse aí.. hehehe

          Já acho complicado o meu, que já é bem organizado, mas tem muitos intervenientes terceiros pondo as patinhas…

        • Humberto Machado

          é porque vc nunca trabalhou num lugar aonde 1 cabo de rede servia para dois (!!!) computadores. e o responsavel falando que a pessoa que fez isso foi um genio ao economizar gastos.

          Consegui deixar uma rede decente, mas com muito custo enfiando na cabeça que recurso de TI é investimento, não gasto.

          https://uploads.disquscdn.com/images/53d8e51dd819e3d930c1420ea29c4dd78294c89a30d81c1b86ff50a622dd4672.jpg

          • Harlley Sathler

            O daí ainda fez um serviço “limpinho”, se é que dá pra chamar assim. Já peguei isso numa gráfica uma vez, mas os 2 pares seguiam para as máquinas sem a capa azul externa.

            O cara que aceita uma gambiarra dessas com a justificativa de que é pra economizar cabo (que também foi o meu caso) não é o cara para o qual eu gostaria de prestar serviços novamente. Se ele aceita economias porcas, vai querer que eu gambiarre o meu trabalho pra reduzir os custos pra ele. Vai sair barato pra ele, vai me dar dor de cabeça e vou ficar com o nome queimado sendo o cara que fez o serviço que nunca funcionou direito.

            Nunca mais voltei nessa gráfica.

          • Humberto Machado

            Essa imagem eu peguei na internet, o que encontrei lá foi um lindo “ninho de guacho”.
            O Grande problema da TI é que encaram muitas vezes como gasto e não como um investimento a médio/longo prazo.

          • Harlley Sathler

            Ah, então pegou tipo o meu! rs…

            E, verdade, não consideram TI como investimento. Remontei uma rede numa empresa uma vez, quando mudaram para outro local. O cara queria que reaproveitasse os cabos velhos. Os conectores estavam verdes de tanta oxidação. Ao invés de um switch decente, um Hub de 10Mbps de 16 portas (das quais só haviam 12 funcionando) e de uma marca completamente desconhecida. E o cara não conseguia entender que a “economia” de cabos e um switch novo se pagariam em um mês com o ganho de tempo que os funcionários teriam ao utilizar uma rede mais rápida e estável. Dureza!

          • Nícolas Wildner

            Tenho a sorte de estar numa empresa que, apesar de não ser de TI, investe bastante.

            Toda a rede com isolamento em vlans, e LACP para dar o mínimo de dignidade em redundância física entre switches e aquele bom e velho Nobreak Blue G3 pra segurar a onda…

  • Cocainum

    Para os casos de sertanejo universitário, acho que só a eutanásia.

  • Monstro Medieval

    Robert Johnson, ainda envolvido com magia negra…

  • Felipe Braz

    Então podemos tratar câncer no CERN!

  • Zaaboo

    A empresa onde trabalho representa a IBA no Brasil em algumas áreas, e temos acompanhado os esforços deles no que diz respeito a implantar os Prótons no Brasil.

    São cerca 20 milhões dólares, não é dinheiro de pinga, principalmente se comparado a Aceleradores Lineares de ponta que custam na faixa de um milhão e tratam eficientemente o câncer.

    A ideia para diluir os custos é além de tratar eles serem usados para pequisa, o feixe pode ser redirecionado. Eu vi uma planta demonstração com 4 saídas, duas para tratamento e duas para pesquisadores iradiarem o que quiser. Notadamente é um bunker gigantesco.

    A Argentina terá o título de primeiro país a ter um desses. Temos alguns hospitais cogitando e orçando, mãs… como falei, não é dinheiro de pinga, não sairá tão já.

    E sim… É uma tecnologia impressionante. A energia cai abruptamente depois que encontra o ponto onde foi planejada atingir.

    Pra quem quiser saber mais esse efeito se chama buildup e todo o processo de radioterapia se baseia nele.

    • Gabriel Nunes

      Desculpe acabar novamente entrando em tema político… mas é de doer saber que se pegasse o dinheiro de propina que apenas UM desses safados malditos de brasília recebe, seria o suficiente pra comprar essa parada. Imagina com a grana de todos eles… triste…

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