Não, queridos jornaleiros a NASA NÃO vai lançar uma sonda para encostar no Sol.

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Em ficção científica existe uma Tríade: Se você quer saber como robôs pensam, leia Isaac Asimov. Se quer saber como será a tecnologia do futuro, leia Arthur Clarke. Se quer saber como seria se tivessem ouvido o conselho de Carl Sagan e mandado um poeta, leia Ray Bradbury.

Ray era um contista magistral, seus cenários de ficção científica são lindos e delicadamente construídos. Ninguém fez Marte tão bem quanto ele, mas um de seus grandes contos é Os Frutos Dourados do Sol, onde uma nave recolhe parte da superfície de nossa estrela. Mesmo sem entrar em muitos detalhes técnicos, é evidente a dificuldade da empreitada.

Infelizmente a maioria dos “jornalistas” não entendeu essa parte, e foram literais quando alguém da NASA em algum release disse que iriam “tocar no Sol” e agora essa besteira está se espalhando.

Não, nenhuma sonda vai encostar no Sol, por vários motivos.

1 — a radiação torraria todos os instrumentos. O espaço não é um ambiente amigável, muito próximo de uma estrela então… digamos que os chips pegariam câncer.

2 — o calor é grande demais. A temperatura na superfície do Sol é de 5.500 graus Celsius, e se uma labareda estourar isso sobre pra algumas dezenas de milhões de graus. Seria preciso uma liga de Adamantium com Inobtanium dopada com Vibranium e Cavorita pra resistir a isso. Ah sim, como a corona, a atmosfera exterior do Sol tem temperatura de uns 2 milhões de graus Celsius, a da superfície é o menor dos problemas.

3 — a gravidade superficial do Sol é de 28 G, uma nave teria que se deslocar muito, muito rápido para permanecer em órbita e ao menor sinal de atmosfera seria destroçada pela pressão.

Em resumo: a tal sonda NÃO vai tocar no Sol, a não ser que algo dê muito errado, mas nem por isso deixa de ser uma missão histórica. A Sonda Solar Parker é a primeira nave da NASA batizada em honra a uma pessoa viva, no caso Eugene Parker, o astrofísico que em 1958 descobriu o Vento Solar, o constante fluxo de partículas vindo do Sol.

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A Parker é uma sonda pequena. É m Dalek de 3 m de altura e 1 m de largura, com um escudo de calor de carbono de 2,3 m. Esse escudo — espera-se — irá proteger a sonda do calor de mais de 1.300 graus quando ela atingir o periapsis, o ponto da órbita mais próximo do Sol.

A órbita projetava é de 109,3 milhões de km × 6,0 milhões de km. Perto? Demais, são apenas 8,5 raios solares (raio geometria, engraçadinho). Compare com a órbita de Mercúrio (na imagem usei a Voyager como sonda, não tenho modelo da Parker):

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Nota: a Parker, digo Voyager está em uma órbita circular de 6 milhões de km de distância do Sol. A curva à esquerda é a órbita de Mercúrio.

Quanto Tempo?

A Parker será lançada em 31 de julho de 2018, mas só chegará ao Sol 19 de dezembro de 2024. O motivo é a distância? Não, o motivo é a velocidade. Chegar mais perto do Sol é mais complicado do que se afastar dele, por causa do Kepler os planetas quanto mais distantes mais lentos orbitam.

A Terra orbita o Sol a uma velocidade média de 30 km/s. Júpiter a 12,8 km/s. Já mercúrio em alguns pontos da órbita chega a 60 km/s. Nós não temos condição de alcançar essas velocidades com nossos foguetes atuais, então o jeito é uma ligeira macumbinha astrofísica chamada manobra de estilingue.

O truque é a nave entrar no poço gravitacional de um planeta, ser atraída mas estar rápida demais para entrar em órbita. Se ela seguir na mesma direção ganhará velocidade, pois somará a velocidade relativa do planeta. Se a manobra for na direção oposto, ela perde velocidade.

Como Lavoisier estava certo, e Maxwell também, se alguém ganha alguém perde, e o planeta fica mais lento um pentelhonésino de micronada.

Agora, a surpresa: para chegar ao Sol a Parker terá que perder velocidade. Sim, mesmo qualquer coisa em órbita lá perto sendo bem mais rápida do que aqui, lembre-se que ela estará sendo atraída pela gravidade do Sol, então se você igualar a velocidade de Mercúrio, por exemplo, quando chegar lá estará muito mais rápido.

O  truque é usar a manobra de estilingue para perder velocidade, deixar o Sol te atrair, e repetir isso várias vezes. Veja como foi a trajetória da sonda Messenger, até atingir uma órbita ao redor de Mercúrio:


haimasoph’s channel — A Long, Twisted Path To Mercury

A Parker, como vai para uma região bem mais próxima precisará perder muito mais energia/velocidade. Para isso ela fará SETE passagens por Vênus.

Um dos efeitos da órbita altamente elíptica da Parker é que em seu periapsis ela estará muito, muito rápido. 200 km/s, ou 720.000 km/h ou 0,00066712921 da velocidade da luz. Será o objeto mais rápido já feito pelo Homem, enquanto durar.

Até os painéis solares são especiais. Dois conjuntos. Um normal, para quando ela estiver mais distante do Sol, mas que se recolhe atrás do escudo térmico quando ela chega mais próxima. Aí um conjunto menor é acionado, são painéis solares com refrigeração líquida, bem pequenos afinal com 520 vezes mais energia incidente, qualquer painel de calculadora dá e sobra.

Espera-se que ela resista por 24 órbitas de 88 dias cada, mais os seis anos de viagem.

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Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e promover seus últimos best-sellers O Buraco da Beatriz e Calcinhas no Espaço.

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