Desencruou — satélite do Brasil lançado com sucesso!

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Me causou até déjà vu, mas de novo o negócio não queria subir. Mesmo depois do fim da greve geral na Guiana (a de lá foi de verdade). Não que seja inédito, o caminho do SGDC-1 (Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas 1) foi bem tortuoso, digamos que a parte mais fácil foi chegar em órbita.

O SGDC era um projeto antigo, por razões estratégicas era importante que o Brasil tivesse um satélite geoestacionário 100% sob nosso controle, sem depender de empresas externas. O desejo vem, pelo que rastreei, desde o governo Lula pelo menos e, aos trancos e barrancos, foi tomando forma. Em 2012 um decreto da Dilma deu o empurrão final inicial para colocar tudo em movimento.

Em 2013, como isso aqui é Brasil, o decreto foi alterado e projeto adiado em dois anos.

No final de 2013 foram assinados os contratos de construção e lançamento do satélite, com a Thales Alenia Space e a Ariane Space respectivamente. Isso daria 2 anos para construção do satélite e mais uma folga para testar e certificar o bicho. Parece pouco mas o SGDC, como a quase totalidade dos satélites comerciais é baseado em plataformas padronizadas, você especifica os recursos que quer e a fabricante monta o kit.

Isso mantém o custo baixo, se fosse projetado do zero um satélite de comunicações geoestacionário custaria bem mais que US$ 300 milhões.

E quanto custou o SGDC?

Boa pergunta. Depende pra quem você pergunta. Os valores são contratados em dólar ou em euros, mas divulgados em reais. Aí se o sujeito quer falar mal do Temer, mete R$ 2,1 bilhões pro “satélite privatizado” (juro, li isso). Se o sujeito é neutro fala de R$ 1,3 bilhão; baseado em uma cotação antiga, e se for plenamente a favor pode usar até um valor de R$ 700 milhões, basicamente troco de pinga.

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Em verdade custa caro um bicho desses. Estamos falando de uma nave espacial que tem que sobreviver por 15 anos enfrentando variações térmicas imensas, micrometeoritos, tempestades solares e não pode falhar, não passa por manutenção e ainda tem que chegar no fim da vida útil com combustível para mover seu traseiro gordo para uma órbita-cemitério.

Felizmente a Thales Alenia tem bastante know-how nisso, inclusive os dois satélites lançados pelo Ariane 5 foram construídos por ela.

Para mais detalhes sobre o SGDC, consulte este post do MeioBit.

O Lançamento

Tudo corria estranhamente bem, até que logo antes da contagem regressiva entrar na fase final, foi feita a verificação de rotina e um dos sensores de um tanque de hélio não estava enviando telemetria. O hélio é essencial para manter o tanque pressurizado. Lembre-se, as superbombas estão puxando combustível e oxidante dos tanques a uma razão de 500 kg/minuto, algo precisa ocupar esse espaço do contrário geraremos vácuo, e vácuo não costuma ser bom para tanques de combustível. Imagine isto acontecendo com um foguete em vôo:


Tom Brattain — Railroad tank car vacuum implosion

E um vagão-tanque desses é muito mais resistente que um tanque de um foguete. A pressurização é importante até para manter a integridade estrutural, do contrário ele amassará feito uma garrafa de Coca de 2 L que você estica a mão pra pegar todo fominha mas algum canalha deixou com a tampa desenroscada.

Depois de um bom tempo mandaram um estagiário dar um peteleco no sensor, ele voltou a reportar dados corretamente, e o lançamento foi reiniciado.

Durante um segundo.

Após o reinício da contagem de 7:00 minutos o contador parou em 6:59, havia problemas na área de lançamento. Eu sei eu sei é a nossa boa e velha zica, mas não. É o tipo de coisa que acontece nas melhores famílias, a SpaceX já teve lançamentos adiados quatro vezes, a ULA deixou de lançar por causa de um barquinho na zona de exclusão. Quando se lida com centenas de milhões de dólares, na dúvida não sobe ninguém.

O importante é que ao final de mais alguns minutos o CEO da Ariane Space avisou que a contagem seria reiniciada, e crianças, que lançamento lindo! Por causa do atraso ganhamos um lançamento noturno, o que realçou a separação dos motores auxiliares (responsáveis por 99% da potência inicial do Ariane 5) conseguimos ainda uma rara visualização da separação da carenagem, desnecessária quando a atmosfera se torna desprezível, tipo visita não anunciada de cunhado.

Normalmente não conseguimos ver a carenagem, mas o lançamento no final do dia fez com que o Sol ainda estivesse visível na altitude da separação, gerando lindos reflexos. Aqui a sequência:


Liftoff of Arianespace’s Ariane 5 with SGDC and KOREASAT-7

Quanto ao SGDC, foi o primeiro a ser liberado, a uma altitude de 1.120 km. Nas próximas horas ele executará uma abertura parcial dos painéis solares, uma série de checagens de sistemas e quando chegar no apogeu, a 36.500 km mais ou menos irá começar uma série de manobras que em mais ou menos um mês elevarão o perigeu para a mesma altitude do apogeu, uma manobra chamada circularização, que transforma a órbita elíptica em uma outra figura geométrica que no momento me escapa. 😉

Essa manobra é feita com o chamado Motor de Apogeu, que também é usado para eventuais correções orbitais causadas por variações do campo gravitacional da Terra e passagens da Lua.

Agora a má-notícia: o SGDC-2, SE SAIR será só em 2022, e do SGDC-3 nem se fala mais.

Para ver o lançamento completo:


Arianespace Flight VA236 / SGDC and KOREASAT-7

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Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e promover seus últimos best-sellers O Buraco da Beatriz e Calcinhas no Espaço.

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