Calma jornaleiros, a Biobag não é um útero artificial

Outro dia, outro exagero da mídia. A bola da vez foi uma pesquisa conduzida pelo Hospital Infantil da Filadélfia, em que uma equipe de médicos e pesquisadores desenvolveram um sistema auxiliar de desenvolvimento fetal extra-uterino, uma espécie de incubadora que simula o organismo das mães para aumentar as chances de sobrevivência de bebês prematuros. E o resultado premimilar se mostra bastante positivo.

Mas entre a verdade e chamar a Biobag de “útero artificial” há uma diferença muito grande.

Falemos da técnica em si. A Biobag é uma bolsa plástica, semelhante àqueles saquinhos de embalagem a vácuo mas muito mais high-tech que cria um ambiente semelhante ao do útero materno, no caso da pesquisa de uma ovelha. Foram utilizados fetos em estágio de gestação entre 120 e 125 dias, que foram acondicionados dentro da bolsa e ligados a um sistema fechado, conectando o cordão umbilical a um sistema vascular externo simulando uma placenta e a bolsa é preenchida com uma solução eletrolítica similar ao líquido amniótico da bolsa orgânica.

Tudo para recriar as condições de um útero que permita um feto extremamente prematuro continuar o seu desenvolvimento, de forma que uma incubadora não é capaz de realizar. E tem dado certo: os oito fetos de ovelha, após ligados à Biobag seguiram o ciclo normalmente, com cérebro e pulmões continuando a crescer. Todos já abrem os olhos e aprenderam a engolir, e os primeiros tufos de lã começaram a se formar.

O dr. Alan Flake, cirurgião obstetra do hospital e cientista-chefe da pesquisa comemora o resultado, que pode ser crucial para diminuir o número de mortes por partos extremamente prematuros. Em 2015, em média 10% dos nascimentos nos Estados Unidos se deram antes do tempo mínimo de 37 semanas e dentre esses números, 6% (ou 30 mil partos) foram antes das 28 semanas, casos considerados delicados. Sem falar que muitos prematuros, por terminarem seu desenvolvimento fora do ambiente natural apresentação problemas de saúde pelo resto da vida.

Só que os jornaleiros andaram se empolgando, chamando a Biobag de “útero artificial”.


This artificial womb successfully grew baby sheep — and humans could be next.

A proposta da Biobag não é aquela dos filmes e livros, um ambiente completamente artificial em que um bebê é mantido em desenvolvimento desde a concepção até o nascimento. O dr. Flakes é bem crítico ao dizer que tal ideia “é pura ficção científica”, e que a mãe é e continuará sendo parte essencial e indispensável no desenvolvimento e gestação das crianças. A Biobag é uma ferramenta para uso específico, em casos emergenciais quando um parto extremamente prematuro resulta em uma criança não completamente formada, o que a longo prazo pode permitir que o tempo de gestação interrompida seja extremamente menor.

Alguns hospitais trabalham com um mínimo de 23 semanas (ou seis meses) como o limiar de sobrevivência, e embora ovelhas obviamente não sejam seres humanos o dr. Flake acredita que em breve a Biobag possa salvar fetos ainda mais jovens. Substituir todo o processo de gestação é algo absolutamente impossível, mas como uma opção mais poderosa que uma incubadora a bolsa pode vir muito bem a calhar.

Você confere o artigo na íntegra e totalmente liberado no site da Nature (que coisa, não?).

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Autor: Ronaldo Gogoni

Um cara normal até segunda ordem. Além do MeioBit dou meus pitacos eventuais como podcaster do #Scicast, no Portal Deviante.

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