MPF quer garantir a surdos acesso à carreira de… piloto de avião

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Talvez minha maior frustração tenha sido quando descobri que por usar óculos não poderia ingressar na Escola de Cadetes e me tornar piloto da Aeronáutica, mas assim é a vida. Nunca culpei ninguém além do azar, por nascer míope. Hoje não seria preciso, bastaria me fazer de coitadinho e logo um monte de cavaleiros brancos defenderia meu direito de pilotar US$ 40 milhões sem enxergar um palmo diante da fuça.

Sim, “acessibilidade” está na moda. 

Deixando claro que ninguém aqui tem nada contra acessibilidade: é ótimo pra todo mundo, nenhum ser humano racional se incomoda com rampas ou calçadas-braile, leitores de tela estão cada vez mais sofisticados e se eu já acho assistentes de voz úteis, imagine quem tem dificuldade com mouses e teclados.

O problema é que nem tudo pode ser acessível. E não explicaram isso pro Ministério Público Federal de Alagoas, que em uma atitude inacreditável ajuizou uma Ação Civil Pública contra a ANAC, a fim de garantir total acessibilidade à carreira profissional de piloto de aviação civil, às pessoas com deficiência auditiva.

Isso mesmo. Querem surdos pilotando aviões.

Como sempre se baseiam em Leis feitas com as melhores intenções, mas que não levam em conta algo chamado… realidade. No caso o Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/2015) prevê que deve ser garantido à pessoa com deficiência a total acessibilidade em sua ascensão profissional, sem restrição ou mesmo qualquer discriminação em razão de sua condição. Isso é lindo e fofo, mas se eu quiser ser jogador da NBA e for anão, como faz? Eu posso ser o cadeirante com maior desejo no mundo de ser bombeiro. Não vai acontecer.

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Existem poucas carreiras que surdos não podem seguir. Aviação é uma delas. Você depende de comunicação constante com o co-piloto, e seu cockpit é repleto de alarmes sonoros e vocais. Tentou acelerar a manete com o flap baixado? Soa um alarme. Inclinou demais na curva? Soa outro. Uma montanha de aproxima? A Betty Aporrinhadora começa a falar TERRAIN, TERRAIN.

Fora o pequeno detalhe que um piloto precisa se comunicar com a Torre, e isso não é feito via WhatsApp. Há projetos de sistemas de texto mas nem de longe superam a agilidade de uma comunicação por voz.

A procuradora que entrou com a ação alega que:

piloto e co-piloto têm a mesma formação, sendo que a única barreira imposta à pessoa surda é de se comunicar com a torre de controle, tarefa que pode ser executada pelo profissional não surdo a bordo, não sendo imprescindível que ambos tenham capacidade auditiva”.

Isso é… absurdo. Fora todos os alarmes sonoros e comunicação com a Torre, é essencial a comunicação com o co-piloto. Imagine você no meio de um mergulho tendo que largar o manche pra conversar em LIBRAS com o piloto, explicando que ele exagerou na curva? Qual o gesto para STALL mesmo? Ah sim, punho direito fechado na vertical, mão esquerda espalmada batendo repetidamente no punho.

A falta de conhecimento da procuradora via além. Primeiro, a redundância do co-piloto deixa de existir se ele se torna responsável pela comunicação com a Torre, e caso ele fique incapacitado, ela ainda acha que isso não é problema.

na remota hipótese de piloto ou copiloto não-surdo ficar impossibilitado de pilotar o avião, não haveria dificuldade de ser atribuído um código ao transpônder, identificando a aeronave que está sendo operada unicamente por um piloto surdo, semelhante ao código de ‘falha de comunicação’, sendo perfeitamente possível a orientação pelo radar para um pouso de emergência”.

Como assim, Bial?

Você seleciona no radar que aquele avião vai pousar e ele magicamente assume o controle? Fia, sem a Torre você não sabe nem pra qual finger tem que levar a aeronave depois do pouso.

Agora imagine que não só o co-piloto mas TODOS os envolvidos com a aeronave terão que aprender Libras, do contrário como o Capitão Oveur vai pedir peixe em vez de frango? Como ficam as comunicações com a cabine? Vai ter terminalzinho de texto para a chefe das comissárias informar do fim do procedimento de portas?

A ANAC permite pilotos com deficiência parcial, se você tiver audição normal em um ouvido, tudo bem. Querer ampliar isso pra surdez total é… ridículo. É forçar inclusão sem se preocupar com as consequências práticas e econômicas, além de colocar em risco a segurança de passageiros, profissionais de terra e outras aeronaves.

O pior de tudo é que as ferramentas de acessibilidade do Windows são tão boas que nem adianta querer ser cego pra não ter que ler essa proposta besta.

Fonte: Ministério Público Federal.

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Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e promover seus últimos best-sellers O Buraco da Beatriz e Calcinhas no Espaço.

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