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Brasil estaria tentando reatar o acordo da base de Alcântara com os EUA

Quem disse que não temos um programa espacial? (foto: Luiz Moraes)

Quem disse que não temos um programa espacial? (foto: Luiz Moraes)

Uma das poucas decisões acertadas do Brasil foi escolher Alcântara como base de lançamento de foguetes. Não é tão bem-posicionada quanto as ilhas na foz do Amazonas, mas o clima é mais propício, e está a 20 km de balsa de São Luís.

A proximidade do Equador é essencial para lançamentos espaciais. O motivo é simples: em órbita você não está voando, está caindo com estilo. Só que está caindo com movimento lateral, então quando chega no chão, ele não está mais lá, para desespero dos retardados da Terra Plana.

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Para que você consiga cair sem atingir a Terra precisa de um movimento lateral de pelo menos 8 km/s. Isso exige muito, muito combustível, só que combustível pesa, o que exige mais combustível ainda. Por isso o Saturno V equivale a um transatlântico que leva 3 passageiros e afunda na primeira viagem.

Uma forma de contornar isso é aproveitar a rotação da Terra. No Equador ela está girando a 1.674,4 km/h. Isso significa que se você lançar um foguete dali, em direção ao Leste, você já começa com 0,5 daqueles 8 km/s necessários.

A base de lançamento européia na Guiana fica a 5 graus de latitude. A de Alcântara a 2 graus do Equador. O Cabo Canaveral fica a 28 graus. Em termos de eficiência, um mesmo foguete lançado de Alcântara poderia levar até 25% mais carga útil.

Isso é deveras interessante e vários países demonstraram interesse em utilizar a base para seus lançamentos. Em abril de 2000 foi assinado um acordo Brasil/EUA onde alugaríamos parte da base para os EUA, seriam 6 lançamentos por ano, em um total de US$ 30 milhões para nosso bolso.

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O acordo foi imediatamente denunciado como quebra de soberania, pois previa que o Brasil não poderia examinar os satélites americanos, nem entrar em áreas restritas. Você sabe, da mesma forma que seu senhorio não pode entrar na sua casa na hora que quiser e fuçar suas gavetas.

Barrado no Congresso pela oposição, o acordo entreguista imperialista opressor com os EUA foi substituído por um acordo com a Ucrânia em 2003, basicamente idêntico mas como o presidente agora era outro, tudo bem.

No mesmo ano o VLS explodiu, nosso programa espacial que já era uma piada foi pro saco de vez, mas o acordo continuou. Mais de dez anos depois o Brasil já tinha enterrado R$ 1 bilhão no projeto Ciclone, mas a Ucrânia não tinha construído o foguete. De seu lado eles apontaram que nós não movemos um tijolo das obras prometidas em Alcântara. No final o acordo se desfez na base do “cada um paga o seu”.

Agora o governo entreguista golpista capacho do imperialismo de Michel Temer quer retomar as negociações com os EUA para alugar a base para os ianques estadunidenses. Ou melhor, re-retomar as negociações reiniciadas pela Dilma em 2013. mas agora é golpe entreguista, certo?

Só há um problema: não vai rolar.

A tecnologia sempre apontou pra miniaturização. Veja o Echo 1, primeiro satélite de comunicação. Ele era um satélite passivo (ui!) e só refletia os sinais de rádio.

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Agora compare com o Intelsat 18, um satélite que faz milhares de vezes mais coisas que o gordo aí de cima.

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A limitação de massa dos satélites atuais não é um grande problema, a tecnologia tem levado a satélites menores e mais capazes.

Os lançamentos grandes mesmo, como os futuros da SpaceX, o SLS da NASA e o New Glenn não poderão ser feitos em Alcântara, esses foguetes não são transportáveis, são grandes demais. Quanto aos menores, levar um foguete até Alcântara consumiria qualquer economia conseguida com o uso de menos combustível. A Europa só faz isso, mandando seus Arianes e Soyuz para a Guiana, por não ter opção.

Outro problema, mais realista, é que o Brasil não está preparado para um evento desse porte. A Base de Alcântara desde 1983 fez 38 lançamentos. A maior parte de foguetes equivalentes a lançamentos de hobbistas. Eles têm 3 plataformas, sendo uma delas inútil, só comportando foguetes de menos de 10 toneladas. Um Ariane consome umas 500 toneladas de combustível só nos primeiros 2 minutos de vôo.

Compare com a quantidade de plataformas na Base Aérea de Cabo Canaveral:

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Cada LC é um Launch Complex, com toda a infra necessária para um lançamento. Eles operam com capacidade ociosa e são UM dos centros de lançamento dos EUA.

Para tornar Alcântara competitiva o Brasil teria que criar uma infraestrutura que, sejamos realistas, não existe. A base de Alcântara se resume a alguns prédios baixos e uns descampados que chamam de complexo de lançamento.

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A TMI — Torre Móvel de Integração levou quase 10 anos pra ser reconstruída, e é inútil exceto para o VLS, o foguete de brinquedo com 19 metros de comprimento. Vamos ver se consigo dar uma idéia da escala. Este é um Atlas V. Um foguete comum, da ULA:

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Como o foguete brasileiro, o maior que a infra atual permite gerenciar se compara? Digamos que ele é mais ou menos do tamanho dos motores auxiliares, aquelas coisas brancas na lateral do Atlas, lá embaixo.

Se os americanos fecharem o acordo estarão basicamente alugando o terreno, e terão que construir toda a infraestrutura de torres de lançamento e sistemas de apoio.

Aí eu pergunto: será que vale a pena vir para o Brasil, construir toda a infraestrutura, trazer foguetes satélites e pessoal por milhares de km, para economizar 25% de combustível, que é a parte mais barata do lançamento?

Talvez a base fosse atraente para países emergentes, mas com China e Índia no mercado, oferecendo soluções completas nós simplesmente não somos interessantes, e como os investimentos em ciência e tecnologia são sempre os primeiros cortados em tempos de crise (e sempre estivemos em crise) as chances da base ser expandida são mínimas, assim como as chances de ser usada.

É triste mas é a realidade. Enquanto isso fique com o último lançamento de Alcântara, em 2015:


BrazilianSpace — Explode o Foguete VS-40M V03 da Operação São Lourenço

Fonte: O Globo.

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Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e promover seus últimos best-sellers O Buraco da Beatriz e Calcinhas no Espaço.

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