Resenha — Batman vs Superman vs Marvel vs DC vs Internet

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Hoje tudo é festa: temos Flash, Supergirl e AJAX na televisão; no cinema, Homem-Formiga sendo disparado em uma flecha pelo Gavião Arqueiro e Thanos. Céus, temos até Asgard. Só que nem sempre foi assim. Filmes de super-heróis eram coisa de criança, a grande mudança foi o Superman de Richard Donner em 1978, e mesmo assim o próximo filme de herói fora da franquia foi Howard The Duck, em 1986. Batman de Tim Burton viria só em 1989.

Daí em diante nada relevante foi feito (pode conferir) até 2000, quando saiu o X-Men do Bryan Singer, que pela primeira vez apresentou super-heróis com superpoderes em um ambiente realista. Foram-se os uniformes coloridos dos quadrinhos. Saiu Colant Amarelo, entra estética masmorra BDSM gay. De onde será que o Singer tirou essa idéia?

Hoje é aceitável um Visão, um Flash com uniformes quadrinhescos, na época não era: trazer esses filmes para um público adulto exigiu uma maior maturidade estética e de roteiro. Magneto não endireita a Torre de Pisa, ele quer prevenir outro Holocausto.

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♫ It’s fun to be at the YMCA…♫

Com o tempo começaram a surgir mais filmes, e a Warner achou sua voz com a abordagem mais séria, a trilogia do Nolan foi impecável, embora bem distante de “quadrinhos”. A Fox partiu mais pra galhofa, mas não deu certo. Quarteto Fantástico que o diga.

A Marvel acertou a mão com o Homem de Ferro, achou o tom realista-fantástico perfeito, que culminou em Vingadores, um filme onde uma invasão alienígena acontece sem a gente ver uma gota de sangue. Irreal? Com certeza, quase tanto quanto… uma invasão alienígena.

A DC por sua vez seguiu a Cartilha de Nolan: seus filmes são sérios, não são comédias. Só quem ri é o Coringa. Uma das críticas ao Man of Steel foi por ser sério, pesado, afinal como podem mostrar uma invasão alienígena com gente morrendo?

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Batman vs Superman é a grande pedra divisória, é a muralha entre Marvel e DC. É a aposta para a sobrevivência nos cinemas, sem imitar o estilo da concorrência, sem saturar o mercado com filmes iguais.

Isso desagradou muita, muita gente (ao menos na internet) que quer as aventuras sem-consequência da Marvel mas não quer abrir mão das discussões mais profundas da DC. Não dá, gente, desculpa. Nem a Marvel é assim: assista Demolidor ou Jessica Jones ou Agentes da SHIELD e o mundo colorido d’Os Vingadores fica bem mais preto-e-branco.

Referências e Homenagens

Zack Snyder não cometeu o erro de Bryan Singer em Superman Returns. Ele não fez uma refilmagem de um filme clássico, ele pegou elementos — muitos elementos — de várias histórias, inclusive Dark Knight Returns e A Morte de Superman e criou um universo próprio. Leitores de quadrinhos reconhecerão cenas, frames, capas e textos inteiros tirados dos gibis.

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Só que não temos vilões de gibis, nem heróis de gibis. É um mundo real, onde grandes poderes não só trazem grandes responsabilidades como também consequências. O Super-Homem em um momento salva a Lois de um warlord africano (Koni2016!) e nos gibis ficaria por isso mesmo. No filme (como aconteceria na realidade) depois que Clark vai embora o tal Warlord se vinga dizimando a aldeia próxima.

A cena do Homem de Ferro salvando os reféns na Miserábia ou whatever não é mais tão legal, né?

Mesmo Batman não está livre de responsabilidade. Criminosos presos por ele são vistos como especialmente cruéis e por causa disso são hostilizados e mortos pelos outros presos nas cadeias.

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Durante o filme é questionada pelo governo e pela população a legalidade das ações do Super-Homem. Ele segue a vontade de quem: a do governo, a do povo ou a dele mesmo? Quem vigia os vigilantes?

Por trás de tudo como sempre está Lex Luthor, que tem uma profunda desconfiança de alienígenas, e não dá pra culpar, depois do que aconteceu com Metrópolis.

O conflito-título acaba acontecendo, mas assim como no Cavaleiro das Trevas do Miller, Clarke não quer realmente enfrentar Bruce, o faz por ser obrigado. E como alguém obrigaria o Super-Homem a fazer alguma coisa? Acredite, o argumento foi convincente.

Ah sim, você se lembra desta sequência?

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Ela está no filme, todinha.

O Batman

Vejamos: não há mamilos, não há bat-cartão de crédito, não há bat-leite. Há um Batman cansado, um Batman de saco cheio e que cansou de ser sutil. Alguns reclamam que ele mata. Eu diria que assim como o do Tim Burton esse Batman atira, quem não sair da frente, azar. Ele está em uma guerra.

As sequências isoladas do Batman em ação são as melhores do filme, vemos o morcegoso enfrentrar uma dúzia de capangas, com ajuda de todo seu arsenal de brinquedos. o dedo do controle do Xbox chega a tremer, refazendo os combos. É série Arkham puro, e há poucos elogios maiores que esse.

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Batman no fundo continua sendo um garoto rico com problemas, muitos problemas. Ele tem constantes pesadelos com a morte dos pais, mas são mais que sonhos.

Em alguns momentos ele vê um membro da Liga da Justiça alertando contra Kal-El, em outro, como mostrado no trailer ele enfrenta o Super-Homem de Red Son, com direito a parademônios de Apokolips. O que estão fazendo ali? O que são? NINGUÉM EXPLICA.

Sem Desculpas

Muita coisa do filme aliás é feita sem explicação ou justificativa. Zack Snyder apostou na inteligência do espectador e não encheu o filme de pausas para atualizar os detalhes.

A Mulher-Maravilha, na figura de Diana Prince aparece sem entrar em detalhes quem ela é: uma mulher linda em uma festa de bacanas, ponto. O espectador está careca de saber quem é a Mulher-Maravilha, caceta. Se não sabe está no filme errado.

A Maravilhosa

Antes de mostrar Diana como uma guerreira poderosíssima ela é apresentada quase como uma espiã, dando a volta duas vezes no Maior Detetive do Mundo. Ela não é só músculos, é cérebro também. E bem conservada pra idade: Bruce descobre que ela está por aí faz bastante tempo, mas não tem ideia do que Diana é capaz até sua entrada triunfal bem mais adiante, na luta contra Apocalipse.

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A chegada da Mulher-Maravilha aliás é algo lindo e inesperado, de envergonhar todo mundo que chilicou com o #WhereIsRey e que acha que o novo Caça-Fantasmas é o máximo em empoderamento feminino. Não, crianças, o máximo em empoderamento feminino é a Diana entrando em cena e o cinema inteiro explodindo em aplauso.

O filme dela já está vendido: a Gal Gadot não desaparece ao lado de dois personagens que tiveram juntos mais de 20 filmes (estou chutando, não contei) e estão muito mais presentes no imaginário popular. Ela apanha e bate como gente grande.

mimimi qual a motivação para ela ir para Gotham enfrentar o Apocalipse?

Ela é uma heroína, essa é a motivação.

O Super

Em Man of Steel Henry Cavil está meio perdido, essa aliás é a principal característica, ele está tentando entender sua origem. Já em Batman vs Superman Clarke sabe onde está, sabe o que quer. Ele tem sua vida de repórter, tem a Lois e salva o mundo duas vezes por dia. Só que esse mundo certinho não funciona, ele acaba alcançado pelas consequências e repercussões de seus atos. A cena na varanda é tocante, nunca se viu o Superman tão impotente, assolado pela responsabilidade de uma enorme hagada que ele não pode desfazer nem voando rápido e fazendo a Terra girar ao contrário.

Ele é um herói que não funciona no mundo real, o mundo tem nuances demais para tudo ser resolvido no soco, mas em vez de perceber isso Clarke decide que Bruce é quem deve respeitar as Leis. Batman é um vigilante ilegal, ele não. Maldito escoteiro azulão hipócrita.

O Luthor

Muita gente reclamou do Luthor do Jesse Eisenberg, isso é sinal que ele incomodou. Melhor que o do Kevin Spacey, que todo mundo esqueceu. Luthor é um personagem muito difícil, a imagem dos quadrinhos é muito forte. Hoje ele é o empresário implacável que quer dominar o mundo economicamente e odeia o Super-Homem. Só que ele nem sempre foi assim. Originalmente nem careca era, e sim ruivo, morando em uma cidade flutuante.

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Não me entendam mal, eu amo o Superman do Donner e amo o Luthor do Gene Hackman mas ele é um corretor de imóveis megalomaníaco, é a versão Superman do Batman do Adam West. Em teledramaturgia a melhor, talvez única boa representação do Luthor Empresário foi a de Michael Rosenbaum em Smallville, e levaram dezenas de episódios pra estabelecer o personagem.

O Luthor do Eisenberg não é ruim, ele é diferente. Não é o Luthor que a gente quer, só isso. Se o personagem tivesse outro nome ninguém reclamaria, até acharia extremamente ardiloso com seu plano maligno que quase deu certo.

O que foi o filme afinal?

Batman vs Superman ao menos para mim foi um presente. Foi algo que quem cresceu lendo gibis nos Anos 80 nunca esperava ver: uma abordagem séria como nas melhores graphic novels, sem poupar recursos em efeitos visuais, épico mas realista, e realista sem o estilo couro preto do Singer. Vi atores repetindo falas que decorei em minha infância, vi em uma gigante tela de cinema cenas que cansei de reler.

Durante a briga final entre B v S repeti na minha mente os monólogos de Frank Miller. Acima de tudo, eu vi esta cena.

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Não sei se estou velho demais para ficar mostrando o quanto sou superior ao encontrar defeito em tudo, ou se pratico a religião de Luis Severiano Ribeiro e considero cinema a maior diversão, mas não quero contar quantas vezes o Batman dispara os ganchos, nem me interessa como a Maravilha embarcou num avião com uma espada (grandes bosta a Beatrix Kiddo também fez isso).

Eu fui ver um filme de quadrinhos com a alma desarmada de quem senta debaixo de uma árvore depois do almoço e abre um gibi. Eu recebi o que esperava. Não, minto, recebi muito mais: como Batman teve sonhos que eram visões de um futuro sombrio, eu vi um futuro maravilhoso onde a DC terá filmes grandiosos, com seus colants amarelos, sua pegada mais séria, e será a contrapartida perfeita para a leve e deliciosa Marvel e seu Guaxinim falante.

Conclusão

Lembra em Star Wars: O Despertar da Força quando a Aluminum Falcon é capturada por uma nave-pirata, a escotilha abre e temos o momento Chewie, we’re home?

Há dois tipos de pessoas:

as que ficaram com um enorme nó na garganta nesse momento e;

as que reclamaram dizendo que era forçado e coincidência o Solo estar passando justamente por ali. Se você é uma destas pessoas, Batman vs Superman não é seu tipo de filme. Você é uma pessoa séria, importante e inteligente demais para ver filmes assim. Fique em casa assistindo Netflix Iraniana via VPN. Não se misture com o populacho no cinema que só quer ver seus heróis salvando o dia.

Cotação

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4/5 foguetes-jirombas kriptonianos.

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Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e promover seus últimos best-sellers O Buraco da Beatriz, Calcinhas no Espaço e Do Tempo Em Que A Pipa do Vovô Subia.

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