Resenha: Deadpool — quase meio que sem spoilers (só alguns)

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Esse filme não deveria existir. Não digo isso no sentido do texto da guria que não entende o conceito de anti-herói e escreveu que Deadpool “É o primeiro filme de quadrinho em que o mercenário é o herói da história”. Falo no sentido prático mesmo. Deadpool tinha tudo pra dar errado, tudo pra não ser aprovado, tudo para ser escorraçado de qualquer estúdio de Hollywood, mas ainda assim eles fizeram.

Sim, eles fizeram, aqueles maníacos. Fizeram tudo errado, ignoraram todos os avisos. Pegaram um personagem especialmente ruim de um filme especialmente ruim, e o repetiram, com o mesmo ator. Ryan Reynolds, que não havia acrescentado nada a Deadpool em Wolverine: Origens, de novo no papel.

Ryan Reynolds, pra sempre associado com Lanterna Verde, uma bomba cinematográfica, que parece ter sido roteirizada por um contador com uma checklist e dirigida pelo Josh Trank num dia ruim, que depois prometeu fazer melhor, e fez, no Quarteto Fantástico de 2015 (nota: isso é uma figura de linguagem o diretor foi Martin Campbell).

Quem chamamos pra dirigir? JJ? Joss? Steven? Não, Tim Miller, ilustre dono de um estúdio de animação cujo grande mérito era a abertura de Thor 2. Ah, e não esqueça de colocar sexo e violência, pro filme ser banido na China, ganhar classificação restrita nos EUA, 16 anos no Brasil e 18 em vários países.

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Negasonic Teenage Warhead. No filme ela tem os poderes do Cannonball mas que se dane, com um nome desse como não usar a personagem? (e sim ela chuta bundas)

A receita para o desastre estava pronta, e aconteceu, mas em um daqueles raros eventos todas as peças se encaixaram e o desastre se tornou uma tempestade perfeita. Deadpool será um dos filmes mais divertidos do ano, e isso é algo que não se diz normalmente em fevereiro. Aliás filmes de heróis não são lançados normalmente em fevereiro.

AH, eu falei que no último minuto a fox cortou US$ 7 milhões do orçamento do filme? Tiveram que se virar com US$ 57 milhões. Lanterna Verde torrou US$ 200 milhões.

O Resultado?

Deadpool é enxuto. Não é pobre, eles cortaram personagens, cortaram cenas e se saíram com algo muito mais próximo a uma história do Deadpool do que um filme d’Os Vingadores. Não há o tom épico mas também não há aquele tom das séries da Marvel na Netflix, onde o grande superpoder de todo mundo é bater 8% mais forte que um sujeito normal.

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Quem é Deadpool?

Ele foi criado em 1991 por Rob Liefeld e Fabian Nicieza, comprovando que assim como um relógio quebrado, Liefeld em algum momento acerta. Inicialmente um vilão, o personagem foi evoluindo para se tornar o melhor anti-herói da Marvel, aquele sujeito que faz coisas erradas mas também faz coisas certas, do jeito errado.

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Esta imagem é de 2004, Wolverine: Origens é de 2009. Expliquem essa, ateus.

Wade Wilson é um mercenário, assassino que para se curar de um câncer aceita ser cobaia em um experimento do governo, recebe transfusão de genes do Wolverine e desenvolve um super fator de cura, mas como o câncer também é afetado, ele se turna um tumor ambulante. O tratamento também ferrou sua mente, Deadpool é totalmente piroca das idéias, mantendo constante diálogo com vozes dentro de sua cabeça.

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Mais ainda, ele constantemente fala com o leitor e tem a percepção de que é um personagem de ficção em um gibi.

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Na versão do cinema ele mantém a derrubada da 4ª parede, sabe que está em um filme, mas as vozes se foram. É uma questão prática, simplesmente não dá para enfiar 3 personagens dialogando no meio de uma cena de ação. O meio não comporta, mas nem por isso Deadpool está menos pirado e menos falastrão. Ele ainda consegue ser mais irritante que o Homem-Aranha, faz piada o tempo todo.

Uma dica: chegue cedo. Deadpool é hilário desde os créditos de abertura, onde se sacanaeia brilhantemente, mostrando que não se leva a sério. Essa aliás é a grande dica: não leve nada a sério.

O humor

Deadpool é referencial ao extremo. Sacaneia Hugh Jackman, Ryan Renolds, a Fox, Liam Neeson e todas as tropes mais comuns de filmes de super-heróis, coisa que ele fala com todas as letras, não é. Deadpool não quer salvar o mundo, quer apenas vingança, e vai passar o cerol legal pra conseguir isso.

A diferença dele para os 743 filmes do Justiceiro é que ele mata pessoas de forma hilária, a violência gratuita explícita não é usada para chocar, não há o sadismo de filmes como Hostel e o Serbian Movie (não google).

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Toda vez que você começa a achar algo exagerado ou identifica um problema no filme, o próprio Deadpool é o primeiro a comentar, e isso vale até pra piada do Professor Xavier.

É politicamente correto? Não, claro que não, mas Deadpool é zoeira, não ofensa pela ofensa. A piada com Batman e Robin, que problematizaram por ser “homofóbica” é a coisa mais boba do mundo. Tem coisa muito pior no filme, e por pior eu digo melhor.

Tem Stan Lee?

Tem sim senhor!

Tem ligação com os filmes da Marvel?

Incrivelmente tem, é engraçado como as regras impedem um estúdio de mencionar o outro, mas mesmo assim eles fazem uma referência gigantesca (literalmente) ao Soldado Invernal.

Dá pra entender o Deadpool ou ele fala como o Bane?

Como falei Deadpool não é pobre, é enxuto. Contrataram um editor de áudio decente. Dá pra ouvir perfeitamente o sujeito, a ponto de você se solidarizar com os vilões, que não aguentam mais aquela boca nervosa.


Deadpool – Angel Dust vs. Negasonic Teenage Warhead | official FIRST LOOK clip (2016) Ryan Reynolds

Mas… é violento?

Como eu falei, é sim, bastante.

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Só que é violência de quadrinhos, tão sem-consequência quanto violência de filme de zumbi. Não há aquele tom pesado e realista de Demolidor ou Jessica Jones, que funcionam muito bem, diga-se de passagem. O objetivo aqui é ser divertido exagerado e desnecessário, e acima de tudo, sem culpa. Austin Powers está certo, ninguém se preocupa com a família dos capangas.

Ele salva o mundo?

Não, nem quer, Deadpool é um anti-herói. Ele tem boa índole mas acima de tudo é insano. Sua motivação é extremamente egoísta, sai matando dezenas de pessoas pra encontrar o sujeito que o transformou em um monstro, força-lo a fornecer a cura e depois trucidá-lo.

Então ele é um vilão!

Não, fofinho, não é vida real, é cinema, mentirinha, dá pra aceitar que todo mundo que trabalha pro vilão é muito malvado e merece ser punido. Relaxe.

E o resto dos personagens?

A mitologia de Deadpool é bem estabelecida, fãs reconhecerão muito dos quadrinhos ali. As adaptações funcionam, o T.J. Miller está excelente como o Weasel, a Leslie Uggams é a Cega Al perfeita e precisa aparecer mais na já confirmada continuação, e a Morena Baccarin fez uma Vanessa que é muito mais que adereço de cena, é a contraparte levemente despirocada ideal para Deadpool. Ela não “salva” o Wade de uma vida miserável, não é exemplo de nada, não é a trope de Manic Pixie Dream Girl.

Os dois apenas se dão muito bem juntos, e a vida deles é melhor por isso. Ah sim, não acredite no que você lê nos blogs errados. Ela não é mocinha indefesa socorro me salve meu herói piroco.

O Vilão

Bem, ele é inglês, isso ajuda mas Ajax não é tão bom, é o ponto onde realmente o orçamento curto se faz sentir. Disto…

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Ele virou um sujeito normal, com alguns poderes mutantes.

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A batalha final é mais rápida do que deveria, mas a culpa é nossa, estamos acostumados a finais épicos, e estamos errados. A batalha final de Matrix foi com 4 sujeitos num corredor. Sendo que dois fugiram. Em Deadpool a coisa é intimista, ambos querem vingança, não há nada “maior” em jogo. Não há motivo para envolver (o resto dos) X-Men ou a Hydra, que não é mencionada, mas ah, crianças, o Bob, Agente da Hydra aparece.

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É um filme para fãs?

Com certeza, o personagem foi tratado com profundo carinho e respeito por todos os envolvidos, Ryan Reynolds lutou por anos para produzir esse filme e consertar as bobagens de Wolverine Origens. Até o salário ele topou reduzir, Deadpool é um filme feito por e para quem adora o personagem. MAS não é hermético, não tem piadas particulares.

As gracinhas em sua maioria são entendidas por quem acompanha filmes de herói em geral. Mesmo sem ter lido um gibi do Deadpool na vida você vai se divertir horrores, e ao contrário da imensa maioria dos filmes de heróis, quando comprar o gibi não vai sentir estranheza.

Tem cena pós-créditos?

Tem sim, no finalzinho do finalzinho dos créditos, e ela é uma referência a outra cena pós-créditos de um clássico dos Anos 80.

Devo levar meus filhos?

Claro, classificação indicativa é uma bobagem, esqueça os avisos de cenas de violência sexo e nudez, tenho certeza que seus pimpolhos vão adorar ver cabeças cortadas por correntes, amputações traumáticas, esmagamentos e a mais quente cena de sexo da Marvel desde aquela entre Thor e Loki no final d’Os Vingadores.

Ah, leve uma caneta para assinar o termo de responsabilidade e suas crianças podem entrar, um monte de gente está fazendo isso. Só tenha a decência de não fazer textão depois, quando sua filha de 8 anos perguntar o que é uma cintaralha.

Conclusão

Deadpool é um filme muito errado, passa uma péssima mensagem, glorifica violência irresponsável e ironiza os mais nobres ideais dos super-heróis. Se você chegou até aqui, acredite, vai adorar.

Cotação:

4,5 Chimichangas

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Fox Film do Brasil — Deadpool | Segundo Trailer Oficial | Legendado HD

P.S.: apesar da piada Tim Miller não é um pau-mandado, ele está muito ligado ao projeto de Deadpool desde o início, e dirigiu a cena-teste com Ryan Reynolds filmada em 2012, vazada em 2014 ninguém sabe por quem. Miller jura pelos filhos que não foi ele, Ryan Reynolds afirma com 70% de certeza que também não vazou nada, mas a repercussão foi tão boa que ela acabou sendo exibida na ComiCon e o filme ganhou sinal verde por isso.

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Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e promover seus últimos best-sellers O Buraco da Beatriz, Calcinhas no Espaço e Do Tempo Em Que A Pipa do Vovô Subia.

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