Fotografia e engajamento social

Hoje é 1º de abril, considerado o Dia da Mentira. Até pensei em algumas lorotas para publicar por aqui, mas acho que não sou criativo o suficiente. Estava pensando em postar sobre a primeira câmera DSLR a Apple, uma pegadinha que está correndo pelos fóruns e listas de discussão de fotografia, mas ninguém se deu ao trabalho de construir um protótipo fake no Photoshop, então não teria tanta graça. Por outro lado, hoje não aconteceu absolutamente nada de interessante no mundo da fotografia que fosse digno de nota aqui no Meio bit. Então, aproveitando esse espaço gostaria de falar de uma coisa que vem me tirando o sono nos últimos meses. Nós, como fotógrafos, podemos contribuir para trabalhos com engajamento social? E se podemos, como efetivamente fazer isso?

Sei que a pergunta e o tema não são fáceis de desenvolver. Mas, podemos partir da foto de Kevin Carter feita em março de 1993 no Sudão. Na imagem, uma criança desnutrida estava caída no chão e um abutre, provavelmente esperando pelo jantar, a observava. Kevin Carter conta que esperou 20 minutos para que pudesse ter um bom ângulo de visão para a foto. Depois ele espantou a ave e carregou a criança até a vila. Mas, não importou muito. Kevin foi massacrado pela opinião pública internacional por ter esperado os vinte minutos antes de ajudar a criança. Para aqueles que o criticaram, o que importava era ajudar o próximo e não fazer a imagem. Mesmo tendo ganhado o prêmio Pulitzer com a foto, Kevin ficou muito abalado com a repercussão e se suicidou em 27 de julho de 1994.

Do meu ponto de vista, o problema não foi Kevin Carter ter feito ou não a foto, e sim mostrá-la para o mundo. Mostrar uma realidade que o cidadão comum não quer ver. Aquela imagem foi um soco no estomago de uma sociedade capitalista que se sente muito bem em ficar em casa assistindo programas fúteis e inúteis em suas TVs de plasma. O arrependimento e angústia sentidos por Carter foram o sentimento de milhares de pessoas que preferiram culpá-lo por não fazer nada do que encararem que são igualmente insensíveis ao sofrimento no mundo. Mas, a imagem, mesmo chocante, cumpriu o seu dever de trazer a reflexão e culpa. Só por isso já merece ser vista e nunca esquecida.

Mas, se não vamos ser apenas meros espectadores de cenas chocantes, o que nós podemos fazer para, com nossa arte, ajudar? Sei que o tema é espinhoso e poucos possuem tempo livre para desenvolver trabalhos voltados para a ajuda de grupos carentes, mas existem alguns exemplos interessantes que podemos tomar como norteadores para nossa atividade.  Algum tempo atrás, fiquei sabendo da história da fotógrafa Kica de Castro. A proposta dela foi trabalhar com portadores de deficiências físicas e através da fotografia elevar a auto-estima dessas pessoas. Do trabalho da fotógrafa resultou o surgimento da primeira agência de modelos portadores de deficiências físicas do Brasil. Outro exemplo que tem por objetivo a auto estima é da fotógrafa Edna Medici, que realizou um trabalho de responsabilidade social junto ao setor de psicooncologia do Hospital São Francisco de Assis em Jacareí, interior de São Paulo. Desse trabalho resultou a exposição Eu Peito! que está correndo o Estado de São Paulo. O fotógrafo Iatã Cannabrava se juntou ao pessoal do projeto De Olho nos Mananciais e coordena excursões fotográficas aos mananciais da cidade de São Paulo com o objetivo de promover a educação ambiental junto à população.

Esses são exemplos de fotógrafos profissionais que encontraram um bom equilíbrio entre a sua profissão e um espaço para agir como interventores de sua realidade utilizando a fotografia. Mas, existem milhares de fotógrafos amadores e profissionais, que se utilizam de sua paixão pela fotografia para poder ajudar. São pessoas que se dispõe a ajudarem entidades filantrópicas, ONGs e associações que estão engajadas em programas sociais, de maneira voluntária. Tem gente ajudando menores órfãos a serem adotados, fazendo educação ambiental, ajudando asilos a terem doações, cobrindo festas beneficentes ou simplesmente ensinando fotografia para pessoas carentes.

Sei que o ato de ajudar o próximo pode ser simplesmente uma forma de não se sentir mal perante a miséria alheia, mas se um ato de ajuda partir dessa postura egoísta, garanto que a pessoa que está sendo ajudada não vai se importar. Mas, dentro de minha experiência, a maioria dos fotógrafos que vi trabalhando nessas atividades não se sentem obrigados a contribuir. São pessoas que enconraram uma maneira de ajudar a sociedade usando sua profissão e paixão. Então, vamos encarar esse 1º de abril como uma oportunidade de fazer alguma coisa. Podemos até não mudar o mundo, mas vamos estar fazendo nossa parte.

Atenção: esse post não é imparcial. E se alguém achar minha opinião romântica, infelizmente, ou felizmente, está certo.

Links Úteis:

Uma foto pode matar? Ótimo texto sobre a epopéia de Kevin Carter.

Eu Peito! de Édina Medici.

Kica de Castro – Fotografia da Acessibilidade

Projeto De Olho nos Mananciais.

Fotógrafos de olho nos mananciais de São Paulo.

– Projeto kids with cameras

Autor: Gilson Lorenti

Geógrafo de formação e fotógrafo de coração, comecei a fotografar com 18 anos de idade (antes disso nunca tinha pegado uma câmera na mão). Depois de muito estudo veio a carreira profissional que passou por várias modalidades da fotografia até realmente descobrir o que gosto de fazer. Hoje me dedico ao ensino de fotografia, fotografia Fine Art e Books Fotográficos (gestante, moda, sensual). Tomando emprestado as famosas palavras de Ansel Adams "Quando as fotografias não forem mais suficientes, me contentarei com o silêncio".

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  • Todo profissional (de verdade) se depara com essas questões e precisa tomar uma posição. Isso varia conforme a índole de cada um, já que somos todos diferentes.

    No campo da fotografia (assim como jornalismo) essas questões são muito delicadas por tratar de assuntos sociais importantes. O que dizer de Sebastião Salgado, por exemplo? Conheço pouco o trabalho dele e acho interessante. Por um lado, ele mostra imagens que faz muitos pensar. Por outro lado, ganha dinheiro com isso.

    Neste caso, entram inúmeras questões como: é hipocrisia? é um aproveitador? é um exemplo para a humanidade? E tantas outras…

    Nem sempre a resposta é simples e direta (binária, para quem é da computação). São tantas questões a se considerar que talvez seja muito difícil enumerar todas.

    Existem também duas coisas a considerar: o que as pessoas pensam do profissional e o que essa pessoa realmente pensa do próprio trabalho. A primeira é relevante? Para muitas pessoas sim e isso guia boa parte de suas atitudes em público.

    Quando alguém resolve fazer a diferença, sempre imagina que vai conseguir mudar o mundo. Um amigo um dia me falou: o ótimo é inimigo do bom. Se a pessoa não consegue atingir uma meta, muitas vezes fica frustrada e acaba entrando em depressão.

    Penso que temos que fazer nossa parte seguindo nossa consciência. Se conseguirmos fazer um bom trabalho não enganando a si próprio, já é um ótimo começo. Se pudermos melhorar um pouco o mundo, melhor. 🙂

    Kevin Carter poderia ter feito a diferença para aquela criança? Provavelmente sim. Foi melhor ele mostrar a foto para o mundo? A resposta deve ser também positiva. As pessoas se sensibilizaram com a criança? As reclamações mostraram que sim.

    As pessoas têm diferentes reações não apenas pelo fato, mas pelo que ELAS MESMAS tem dentro de si.

    Sobre Kevin Carter, o suicídio também não se deve apenas pela fotografia. Se ela ajudou, ninguém vai saber. Se ele se arrependeu do que fez, é porque ele mesmo não acreditou que tenha feito a coisa certa. O fato é que somos mais que um fato isolado e o conjunto de todas as ações e sentimentos é o que nos faz únicos. Não temos como julgar o que é certo ou não.

    Somos seres muito complexos. Fato que me fez preferir a área exata. E descobri que nem é tão exata assim…

    O fato de você estar escrevendo em um blog, já faz a diferença para muitos. O público atingido é enorme. Viu só? Nã é apenas na fotografia, mas em todas as nossas atitudes é que fazemos a diferença. Pet Adams está certo. No programa roda viva, ele falou uma coisa muito interessante: os “palhaços” que alegram as pessoas nos hospitais, não deveriam tirar a roupa nunca, pois eles perdem a chance de trazer alegria para as pessoas nos melhores momentos (ônibus, trânsito, em casa, com os vizinhos,…). Cada momento é importante, não apenas no “horário de trabalho”.

  • tcavalheiro

    Acho que sempre é possível fazer alguma coisa. O problema é que vivemos tão preocupados com o nosso trabalho que acabamos focando a nossa criatividade em ganhar dinheiro, o que já é uma tarefa bem complicada hoje em dia.

    Criatividade é o ponto eu acho. Independente da área de atuação, sempre tem como desenvolver algum tipo de suporte para quem precisa. Se pararmos para pensar um pouco dá pra encontrar uma maneira de ajudar fazendo alguma coisa que se goste.

    Mas claro, acho que o mais importante nisso tudo é manter a consciência tranquila… o caso do Carter é complicado, se a repercussão da foto teve algum efeito na decisão dele de se suicidar, então é porque ele realmente acreditava que fez errado (como disse o Salsinha).

  • Pingback: Morte no Metrô de Nova Iorque causa polêmica fotojornalística « Meio Bit()

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