Piratas: não se preocupem, ninguém quer saber quem vocês são

Estou prestes a protocolar um projeto de pesquisa que, entre alguns assuntos óbvios como design, também envolve software open source e pirataria de software – por isso a marcha lenta de publicação de artigos desta que vos escreve. Então, para falar especificamente da pirataria de software, procurei alguma base científica que tratasse a respeito do perfil dos usuários de software pirata.
Nós, que freqüentamos regularmente o mundo virtual e estamos em contato com todo tipo de gente, podemos fazer uma espécie de raciocínio raso a respeito. Poderíamos, por exemplo, dizer que boa parte do software original no Brasil é instalado em computadores de empresas de médio a grande porte, e algumas poucas licenças são de usuários domésticos, e que todo o resto é pirata. Pode ser que estejamos errados, mas com grande margem de acerto. Mas não seria uma estatística certeira (se é que se pode chamar uma especulação de estatística), muito menos seria utilizado algum tipo de método científico para atestar a veracidade destas informações. Isso não vale num trabalho acadêmico.
Por conta disso, fui atrás de pesquisas e de livros que tratassem do assunto e corroborassem essa hipótese primária para embasar minhas afirmações – por exemplo, imagino que a maioria dos designers gráficos e estúdios de pequeno porte (que são a maioria entre os estúdios) não pagam os dois mil dólares exigidos pela Adobe por sua suite CS3. Caso o tal estudo existisse, fosse bom o suficiente e até comprovasse o contrário, eu teria embasamento para fazer alguma afirmação a respeito.
E lá fui eu: biblioteca, Google Acadêmico, Google “normal”, periódicos, etc etc etc. Nada, absolutamente nada. Apenas estudos a respeito de o quanto a pirataria de software prejudica a economia, dados estatísticos gerais, qual o percentual de redução da pirataria nos últimos anos, e até um relatório em forma de livro feito pelo governo: CPI da Pirataria, com medidas tomadas em 2004 para reduzi-la. Perguntei para alguns amigos, entre eles o Timm, e ninguém fazia idéia de onde achar dados desta natureza.
Aí, eu pensei comigo: “Como esses caras querem acabar com a pirataria se nem vão atrás de descobrir o tipo de pessoa que pirateia, nem saber suas razões? Como eles vão saber quais as necessidades de seus potenciais clientes se não querem saber quem eles são e o que querem?”
Óbvio que essas entidades querem sim saber quem são os piratas – pra botá-los na cadeira, já que são uns criminosos malfeitores que deveriam morrer na cadeira elétrica por atrasarem o desenvolvimento científico e impedirem seus ganhos. Entendo suas razões, afinal, se você tem um produto comercializável e as pessoas querem usá-lo, nada mais justo que elas paguem à você pelo fruto do seu trabalho. Mas pirataria é algo totalmente incontrolável: sempre existirão servidores de onde baixar a cópia ilegal, ou as redes de trocas de arquivos. Chamar alguém que pode vir a ser seu cliente de criminoso é mais ou menos como colocar aquelas vinhetinhas anti-pirataria nos DVDs – ofende quem comprou original, e afasta os piratas que um dia poderiam legalizar sua situação.
Fazer uma pesquisa como essa, levantando motivos, faixa etária, renda média e outros aspectos, não encará-la como uma “ficha criminal” e sim como uma pesquisa de mercado, enxergar “pessoas” ao invés de “piratas”, pode ser o primeiro passo para a descoberta de soluções para este problema.
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