Não, histéricos, a Curiosity NÃO tem um reator nuclear.

marteembreve

Fora as teorias da conspiração habituais, uma desinformação em especial está sendo espalhada feio perdigoto de bêbado pelos tubos das interwebs: a “denúncia” de que a Curiosity usa um reator nuclear OMG VAMOS CONTAMINAR MARTE!

É sério, vi gente que chegou a associar o POUSO da Curiosity dia 6 de agosto com a bomba de Hiroshima, no mesmo dia mas em 1945, e considerar ofensivo pois o robô utiliza propulsão nuclear. Sério, TOO SOON?

Então, vamos por partes: SIM, a Curiosity usa energia nuclear. No caso dióxido de plutônio, 4,8 kg no total. E NÃO, não é um reator nuclear, não há fissão ocorrendo (ou melhor, há, mas só naturalmente). No caso a Curiosity usa um MMRTG (não há sigla mais nerd que essa)Multi-Mission Radioisotope Thermoelectric Generator, ou Gerador Termoelétrico de Radioisótopos Multi-Missão, pois é usado em várias outras naves.

A tecnologia é tão simples que dá para explicar em uma linha:

Plutônio emite calor naturalmente, por decaimento radioativo, o calor é convertido em eletricidade. THE END.

A geração da eletricidade em si é por efeito termoelétrico. Diferenças de temperatura em um condutor produzem eletricidade. Experiência de colégio.

O Reator Nuclear Explosivo Malvado Matador de Foquinhas Marcianas, que os ecochatos e conspiradores alertaram que iria cair na Terra e extinguir a Humanidade? É isso aqui:

reatornuclearmalvadomatadordemarcianos

Quais as vantagens de usar um bicho desses?

Primeiro, a quantidade de energia. Os painéis solares da Opportunity e da Spirit geravam 0,6 quilowatts-hora por dia. O MMRTG da Curiosity gera 2,5 quilowatts-hora por dia. Isso transformado em eletricidade significa 125 watts, lembrando que boa parte do calor do gerador é usado para aquecer os equipamentos da sonda, que assim como eu e você não gosta de temperaturas de –127ºC, o auge do Inverno Marciano.

Segundo, autonomia. Ao contrário do painel solar, o gerador de radioisótopos funciona 24/7, não desliga durante a noite, não é preciso depender de baterias para aquecer a sonda. Sujeira, a grande vilã que afetou a performance dos painéis solares, não é problema também. E como a meia-vida do Plutônio-238 é de 87,7 anos, por falta de energia a Curiosity não morre.

Estima-se que em 14 anos, duração mínima estimada do MMRTG, ele esteja gerando 100 watts, dos 125 iniciais. As Voyagers utilizam geradores semelhantes, e continuam firmes e fortes, mesmo depois de 35 anos, ainda funcionam. O cálculo mais recente indica que a Voyager 1 terá energia até 2025.

“Se é tão bom, como não está todo mundo usando um desses?”

Boa pergunta. São vários motivos, Plutônio É perigoso se inalado, e dada a estupidez mediana do ser humano, alguém VAI fazer caca, se puder. Vide Goiânia. A perda em geração termoelétrica é muito alta também. Os 125 watts do MMORPG MMRTG da Curiosity mal dão pra acender uma lâmpada, que dirá alimentar uma geladeira, ou um PC rodando Crysis. Seria preciso uma pilha atômica muito maior,

Custando por volta de US$ 4 mil por grama, plutônio também não é encontrado em farmácias.

Por último, há o medo nuclear, criado mais pela Guerra Fria do que por Hiroshima. Durante décadas os EUA foram adestrados para temer o Dia Seguinte, o Holocausto Nuclear, e até o termo “radiação” se tornou maligno. Toda a histeria em volta de celulares vem do fato de gente ouvir “radiação” eletromagnética e associar com filhos esquisitos.

Curioso é que houve um tempo em que muita gente colocava a vida nas mãos dessa tecnologia nuclear. No começo dos anos 70 surgiram vários modelos de marca-passo cardíaco utilizando radioisótopos. Enquanto os tradicionais tinham duração de bateria entre 3 anos e 20 meses, os modelos atômicos duravam a vida inteira.

Arco-Plutonium-Pacemaker

Eles foram substituídos com o surgimento das baterias de lítio, pois os médicos perceberam que era mais vantajoso para os pacientes trocar depois de 5 ou 10 anos, ao final da bateria, o marca-passo por um modelo mais avançado, do que manter um funcionando mas antigo. Mesmo assim ainda hoje ainda há gente usando modelos nucleares, o que além de ser uma senhora tiração de onda, ainda gera diversão em aeroportos nos EUA.

Ao que consta até hoje ninguém morreu, nem os portadores de marca-passo nem deram defeito os MMRTGs deixados na Lua, nas sondas Viking, Voyager, Pioneer, etc. No total foram 45, e mesmo quando o foguete que levava o satélite Nimbus B1 explodiu, os dois MMRTGs foram recuperados e o combustível reaproveitado para o Nimbus 3, afinal se hoje Plutônio não vende em farmácia, que dirá em 1968.

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Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e promover seus últimos best-sellers O Buraco da Beatriz, Calcinhas no Espaço e Do Tempo Em Que A Pipa do Vovô Subia.

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